{"id":4979,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4979"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"pior-do-que-nao-conseguir-trabalho-e-nao-conseguir-sair-dele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pior-do-que-nao-conseguir-trabalho-e-nao-conseguir-sair-dele\/","title":{"rendered":"Pior do que n\u00e3o conseguir trabalho \u00e9 n\u00e3o conseguir sair dele"},"content":{"rendered":"<p>Direitos Humanos <!--more--> Enquanto a Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a e Paz aqui na Diocese de Brejo (Nordeste Brasileiro) est\u00e1 em fase de articula\u00e7\u00e3o de estruturas, vou tomando conhecimento de alguns factos que, num futuro pr\u00f3ximo, ser\u00e3o alvo do estudo\/reflex\u00e3o e da ac\u00e7\u00e3o da referida Comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma dessas situa\u00e7\u00f5es, atentat\u00f3rias aos mais elementares direitos da pessoa humana, \u00e9 o trabalho escravo no Brasil.<\/p>\n<p>A escravatura foi abolida, em Terras de Vera Cruz, no ano de 1888. A chamada Lei \u00c1urea, promulgada pela Princesa Isabel, decretava que, a partir daquele momento, ningu\u00e9m mais seria sujeito a explora\u00e7\u00e3o e a tratamentos desumanos, porque todos os cidad\u00e3os eram livres, n\u00e3o poderiam ser propriedade de outro cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Infelizmente a escravatura subsiste, no Brasil e em tantos outros pa\u00edses, camuflada por v\u00e1rios tipos de explora\u00e7\u00e3o. O Estado do Maranh\u00e3o \u00e9, por exemplo, um dos maiores fornecedores de m\u00e3o-de-obra para o trabalho escravo na Amaz\u00f3nia e em outras \u00e1reas de latif\u00fandio do Norte\/Nordeste do Brasil e at\u00e9 da regi\u00e3o central do pa\u00eds. Segundo estimativas da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (organismo da Igreja Cat\u00f3lica que, aqui no Brasil, trata das quest\u00f5es fundi\u00e1rias), neste momento, o n\u00famero de trabalhadores rurais que s\u00e3o submetidos a trabalho escravo cifra-se nos 30 mil, podendo ainda indicar que os dados se elevam at\u00e9 50 mil!<\/p>\n<p>A primeira den\u00fancia de trabalho escravo foi feita por dom Pedro Casald\u00e1liga, em 1971. O corajoso bispo de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, na Amaz\u00f3nia Matogrossense, insurgia-se, ent\u00e3o, contra a situa\u00e7\u00e3o que os fazendeiros da regi\u00e3o infligiam a muitos trabalhadores rurais que trabalhavam nas fazendas da sua diocese. Eram migrantes que vinham, sobretudo, da regi\u00e3o Nordeste do Brasil. Chegados \u00e0 Amaz\u00f3nia, a\u00ed eram aprisionados em fazendas, vigiadas por \u201cjagun\u00e7os\u201d armados, das quais n\u00e3o podiam sair sob amea\u00e7a de morte.<\/p>\n<p>Mais de 30 anos se passaram. A ditadura militar caiu nos anos 80. Por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o permanece cr\u00edtica, com laivos de inverosimilhan\u00e7a, de t\u00e3o surreal que se torna. <\/p>\n<p>O trabalho escravo no Brasil segue, normalmente, o seguinte esquema: o \u201cgato\u201d (nome que se d\u00e1, na g\u00edria, ao angariador de trabalhadores) vai at\u00e9 aos povoados mais isolados dos munic\u00edpios mais pobres \u2013 Buriti, par\u00f3quia desta diocese, \u00e9 um dos locais preferidos. Bem falante, o \u201cgato\u201d alicia os trabalhadores com a promessa de trabalho e de bom sal\u00e1rio. Ele garante a viagem at\u00e9 \u00e0 fazenda.<\/p>\n<p>Quando o trabalhador l\u00e1 chega, adquire as ferramentas de trabalho na lojinha da fazenda. Sem dinheiro suficiente, come\u00e7a logo a comprar fiado. Inevitavelmente as fazendas s\u00e3o lugares isolados, cercadas por arame farpado e fortemente guardadas por \u201cjagun\u00e7os\u201d armados. Quando o trabalhador se apercebe da trama, j\u00e1 \u00e9 tarde. For\u00e7ado a trabalhar no desmatamento da floresta, na limpeza dos pastos, no garimpo ou nas carvoarias, n\u00e3o recebe sal\u00e1rio. Sem remunera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode pagar o que deve ao fazendeiro: a viagem, as ferramentas e os produtos di\u00e1rios. Os seus documentos ficam na posse da fazenda (que, muitas vezes, at\u00e9 s\u00e3o empresas bem conhecidas) e, sem eles, o trabalhador passa a ser um \u201cindigente\u201d. N\u00e3o consegue fugir por causa da seguran\u00e7a da fazenda e, quando o consegue, est\u00e1 longe de tudo, sem dinheiro para transporte, amedrontado como um \u201canimal assustado\u201d, pois sabe que, em breve, vir\u00e3o no seu encal\u00e7o. <\/p>\n<p>S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es inacredit\u00e1veis. Foi criado recentemente um F\u00f3rum de Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo no Maranh\u00e3o, para agir na den\u00fancia e, principalmente, na preven\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de escavatura. A Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz da Diocese de Brejo entrar\u00e1, como parceira, nesse f\u00f3rum. O desafio \u00e9 imenso. N\u00e3o ser\u00e1 uma tarefa f\u00e1cil. Para isso contamos com o vosso apoio e com a ora\u00e7\u00e3o de todos. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direitos Humanos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-4979","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4979","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4979"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4979\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}