{"id":4992,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4992"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"em-timor-ha-paz-e-liberdade-agora-e-uma-questao-de-terem-paciencia-e-perseveranca-porque-as-coisas-vao-melhorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/em-timor-ha-paz-e-liberdade-agora-e-uma-questao-de-terem-paciencia-e-perseveranca-porque-as-coisas-vao-melhorar\/","title":{"rendered":"&#8220;Em Timor h\u00e1 paz e liberdade; agora \u00e9 uma quest\u00e3o de terem paci\u00eancia e perseveran\u00e7a porque as coisas v\u00e3o melhorar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>D. Carlos Filipe Ximenes Belo, bispo em\u00e9rito de Timor, por motivos de sa\u00fade, est\u00e1 a passar uns tempos de descanso no Col\u00e9gio Salesiano de Mogofores, que frequentou como seminarista em 1969-1970. Simultaneamente, o Pr\u00e9mio Nobel da Paz de 1996 est\u00e1 a escrever um livro sobre a hist\u00f3ria da Igreja em Timor-Leste, pelo que vai aproveitar a estadia em Portugal para investigar nos arquivos nacionais da Torre do Tombo. No entanto, confessa-se afastado da realidade timorense. <\/p>\n<p>Trocou Dili, em Timor, por Maputo, em Mo\u00e7ambique&#8230;<\/p>\n<p>Sim, no ano passado.<\/p>\n<p>O que faz em terras africanas?<\/p>\n<p>Trabalho numa par\u00f3quia confiada aos Salesianos, no bairro Jardim, nos sub\u00farbios de Maputo. O p\u00e1roco \u00e9 um salesiano portugu\u00eas e eu ajudo-o. Distribu\u00edmos as tarefas. Dou catequese, atendo as confiss\u00f5es, rezo a Missa, pedem-me muito para pregar retiros aos jovens, fazer reuni\u00f5es com fam\u00edlias&#8230;<\/p>\n<p>Depois de bispo&#8230; est\u00e1 a gostar de ser colaborador de um padre?<\/p>\n<p>Sim. \u00c9 um trabalho indirecto, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 de responsabilidade directa, mas \u00e9 da responsabilidade da educa\u00e7\u00e3o da f\u00e9. \u00c9 bonito. Na \u00c1frica, \u00e9 outro ambiente.<\/p>\n<p>Como \u00e9 esse ambiente?<\/p>\n<p>Tem outro contexto. Em Timor, o cristianismo era mais de massa. Porque a maioria da popula\u00e7\u00e3o, 88 ou 89 por cento eram cat\u00f3licos. T\u00ednhamos muitos cat\u00f3licos tradicionais. Em Mo\u00e7ambique, j\u00e1 os bispos adoptaram o sistemas de n\u00facleos, como l\u00e1 se chamam, pequenas comunidades de base e bairros: 20, 25 ou 30 fam\u00edlias, que se re\u00fanem \u00e0 semana \u2013 e isto d\u00e1 muita vida. A liturgia \u00e9 muito mais vida l\u00e1 do que aqui, ou mesmo em Timor, porque \u00e9 sempre com batuques com dan\u00e7as. Uma missa dura duas ou tr\u00eas horas. Nas ordena\u00e7\u00f5es, s\u00e3o cinco ou seis horas. Em Mo\u00e7ambique, os cat\u00f3licos s\u00e3o uma minoria, n\u00e3o sei se 28 ou 29 por cento. Por isso, a Igreja tem a preocupa\u00e7\u00e3o de formar mais os pequenos grupos.<\/p>\n<p>A sua sa\u00edda de Timor teve raz\u00f5es pol\u00edticas?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Eu estava muito cansado. Aqueles anos todos&#8230; Eu estava com stress. N\u00e3o dormia bem, tinha a tens\u00e3o muito alta, estava nervoso. Precisava de sair. Agora estou de novo em Portugal por quest\u00f5es m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Acompanha a situa\u00e7\u00e3o timorense?<\/p>\n<p>N\u00e3o muito. N\u00e3o tenho muitos contactos. \u00c9 dif\u00edcil a comunica\u00e7\u00e3o entre Mo\u00e7ambique e Timor.<\/p>\n<p>Mas acompanhou os confrontos entre a Igreja e o Governo por causa das aulas de religi\u00e3o e moral&#8230;<\/p>\n<p>Mas \u00e9 melhor perguntar aos bispos de l\u00e1 sobre essas iniciativas. Se me pergunta, acho que \u00e9 melhor haver sempre di\u00e1logo. N\u00e3o sei como se chegou a esse ponto, que era desnecess\u00e1rio. Devia haver sempre di\u00e1logo entre a Igreja e o Governo para resolver esses problemas. N\u00e3o conhe\u00e7o bem o acordo conjunto que fizeram. N\u00e3o recebi comunica\u00e7\u00e3o de l\u00e1.<\/p>\n<p>Sente-se retirado de Timor?<\/p>\n<p>N\u00e3o quero influir. Agora a Igreja tem novos l\u00edderes; o povo tem novos l\u00edderes pol\u00edticos. Que resolvam.<\/p>\n<p>Teve que escrever ao jornal P\u00fablico, em Janeiro de 2005, para que desmentisse que pertence \u00e0 Ma\u00e7onaria&#8230;<\/p>\n<p>Parece que eles fizeram uma compara\u00e7\u00e3o&#8230; Mas como \u00e9 poss\u00edvel que um bispo e um padre perten\u00e7a \u00e0 Ma\u00e7onaria? N\u00e3o conhe\u00e7o isso. Nunca estudei nem sei como \u00e9, mas agora tamb\u00e9m estou com curiosidade em saber como funciona. Parece que foi uma compara\u00e7\u00e3o, naturalmente para apoiar essa organiza\u00e7\u00e3o com personalidades de n\u00edvel nacional ou internacional, talvez para trabalharem mais para a Ma\u00e7onaria. Tive de desmentir, porque n\u00e3o sou membro nem fa\u00e7o parte.<\/p>\n<p>E o dr. Ramos Horta?<\/p>\n<p>Pergunta a ele. Isso \u00e9 uma quest\u00e3o dele. Eu n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Chegou mesmo a pensar em candidatar-se \u00e0 presid\u00eancia de Timor?<\/p>\n<p>Agora \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Mas pensou nisso?<\/p>\n<p>Sim, mas agora \u00e9 dif\u00edcil, porque estou em Mo\u00e7ambique. A gente pensa mais na vida de mission\u00e1rio. Est\u00e3o os leigos preparados para isso. Deixemos isso aos leigos, aos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Apesar de estar afastado de Timor, como v\u00ea o desenvolvimento do pa\u00eds? Corre a ideia de que no tempo da Indon\u00e9sia estavam oprimidos politicamente, mas n\u00e3o passavam tantas dificuldades econ\u00f3micas como nestes primeiros tempos de democracia. Isto tem correspond\u00eancia com a realidade?<\/p>\n<p>No tempo da Indon\u00e9sia havia toda uma estrutura. Para a boa imagem da Indon\u00e9sia, o governo de Jacarta procurava investir l\u00e1. Depois, com a derrocada, o novo governo timorense, n\u00e3o tendo meios financeiros e dependendo das doa\u00e7\u00f5es das na\u00e7\u00f5es, tem dificuldades. Em Timor, n\u00e3o h\u00e1 ind\u00fastrias, n\u00e3o h\u00e1 f\u00e1bricas, o dinheiro do petr\u00f3leo tamb\u00e9m est\u00e1 a demorar a vir; portanto, no meio da popula\u00e7\u00e3o h\u00e1 uma certa desilus\u00e3o neste aspecto. Mas pelo menos tem paz, tem liberdade; e agora \u00e9 uma quest\u00e3o de ter paci\u00eancia e perseveran\u00e7a, porque as coisas v\u00e3o melhorar.<\/p>\n<p>D. Ximenes Belo<\/p>\n<p>* Nasceu em Baucau, a 3 de Fevereiro de 1948.<\/p>\n<p>* Em 1962, entrou para o semin\u00e1rio diocesano de N\u00aa Sr\u00aa de F\u00e1tima, em Dili.<\/p>\n<p>* Frequentou o Col\u00e9gio S. Jo\u00e3o Bosco, em Mogofores, ent\u00e3o semin\u00e1rio da congrega\u00e7\u00e3o salesiana, de 1968 a 1970, para fazer os exames oficiais do primeiro e segundo ciclos. Tem \u201cboas recorda\u00e7\u00f5es do ambiente da Bairrada\u201d.<\/p>\n<p>* Prosseguiu os estudos em Manique do Estoril, onde fez o noviciado.<\/p>\n<p>* Depois dos dois anos iniciais de estudos filos\u00f3ficos, em Lisboa, regressou a Timor. Corria o ano de 1975 e apanhou o golpe da UDT e o contragolpe da Fretilin. Teve de ir para Macau em 75-76.<\/p>\n<p>* Novamente em Portugal, estudou Teologia.<\/p>\n<p>* Em 1979, foi para Roma estudar Teologia Pastoral, com especializa\u00e7\u00e3o em Espiritualidade. Na \u201cCidade Eterna\u201d, \u00e9 ordenado di\u00e1cono no ano seguinte.<\/p>\n<p>* Em 1980, em Lisboa, \u00e9 ordenado padre, por D. Jos\u00e9 Policarpo, ent\u00e3o bispo auxiliar de Lisboa.<\/p>\n<p>* Regressa a Roma em 81 e \u00e9 destinado a Timor, como mestre de novi\u00e7os, no ano seguinte.<\/p>\n<p>* Em 1983, Monsenhor Martinho da Costa Lopes resigna e Ximenes Belo muda-se de Fatumaca para Dili, assumindo o cargo de administrador apost\u00f3lico, de 1983 a 2002.<\/p>\n<p>* Em 1988 \u00e9 ordenado bispo, ficando como titular de Lorium, uma antiga diocese de It\u00e1lia.<\/p>\n<p>* Em 1996, com Jos\u00e9 Ramos-Horta, depois de tr\u00eas nomea\u00e7\u00f5es, recebeu o Pr\u00e9mio Nobel da Paz, por ser o rosto e a voz dos timorenses, face \u00e0 repress\u00e3o Indon\u00e9sia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Carlos Filipe Ximenes Belo, bispo em\u00e9rito de Timor, por motivos de sa\u00fade, est\u00e1 a passar uns tempos de descanso no Col\u00e9gio Salesiano de Mogofores, que frequentou como seminarista em 1969-1970. 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