{"id":5035,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5035"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"nada-como-um-deficit","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/nada-como-um-deficit\/","title":{"rendered":"Nada como um d\u00e9ficit"},"content":{"rendered":"<p>C\u00edclica crise se instala no Brasil. Velhas palavras desencantam: corrup\u00e7\u00e3o e impunidade. Procuro perceber aqui o \u201ccaso brasileiro\u201d, parte do invis\u00edvel Sul, e o l\u00e1 do \u201ccaso portugu\u00eas\u201d, na exausta Europa. Plagio e modifico, levemente, uma anedota de Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo. <\/p>\n<p>\u201cUm publicit\u00e1rio morreu e, como era mau, foi para o Inferno. O Diabo, que todos os dias recebe um print-out com o nome e a profiss\u00e3o de todos os admitidos, mandou que o publicit\u00e1rio fosse retirado do grelhador e levado ao escrit\u00f3rio. Queria fazer-lhe uma proposta. Se ele aceitasse, sua carga de castigos diminuiria e teria regalias (ar-condicionado, etc.).<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9 a proposta?<\/p>\n<p>&#8211; Temos que melhorar a imagem do Inferno &#8211; disse o Diabo. &#8211; Falam as piores coisas do Inferno. Queremos mudar isso.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que \u00e9 que se pode dizer de bom disto aqui? Nada.<\/p>\n<p>&#8211; Por isso \u00e9 que precisamos de publicidade!<\/p>\n<p>O publicit\u00e1rio topou. Era um desafio. Quis saber algumas coisas que diziam do Inferno e que irritavam o Diabo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Dizem que aqui todos os cozinheiros s\u00e3o ingleses, todos os gar\u00e7ons s\u00e3o italianos, todos os motoristas de t\u00e1xi s\u00e3o franceses e todos os humoristas s\u00e3o alem\u00e3es. <\/p>\n<p>&#8211; E \u00e9 verdade? &#8211; \u00c9.<\/p>\n<p>&#8211; Hmmm &#8211; disse o publicit\u00e1rio. &#8211; Uma das t\u00e9cnicas que podemos usar \u00e9 a de transformar desvantagem em vantagem. Pegar a coisa pelo outro lado.<\/p>\n<p>Sua cabe\u00e7a j\u00e1 estava funcionando. Continuou: &#8211; Os cozinheiros ingleses, por exemplo. Podemos dizer que a comida \u00e9 t\u00e3o ruim que este \u00e9 o lugar ideal para emagrecer. Al\u00e9m de tudo, j\u00e1 \u00e9 uma sauna.<\/p>\n<p>&#8211; Bom, bom.<\/p>\n<p>&#8211; Gar\u00e7ons italianos. Servem a mesa pessimamente. Mas cantam, conversam, discutem. Isto \u00e9, ajudam a distrair a aten\u00e7\u00e3o da comida inglesa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3ptimo. <\/p>\n<p>&#8211; Motoristas franceses. S\u00e3o mal-humorados e grosseiros. Isso n\u00e3o estimula o uso do t\u00e1xi e promove o exerc\u00edcio f\u00edsico. \u00c9 econ\u00f3mico e saud\u00e1vel. Tamb\u00e9m provoca indigna\u00e7\u00e3o generalizada, une o povo e combate a indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bom.<\/p>\n<p>&#8211; Uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seria amenizada pelos humoristas. Os humoristas, como se sabe, n\u00e3o t\u00eam qualquer fun\u00e7\u00e3o social. Eles s\u00f3 servem para subverter as pessoas, criar uma mentalidade de lassid\u00e3o e rid\u00edculo, quando n\u00e3o de perigosa aliena\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o acontece com os humoristas alem\u00e3es, cuja falta de gra\u00e7a s\u00f3 aumenta a revolta geral, mantendo o povo activo e s\u00e9rio. O al\u00edvio c\u00f3mico \u00e9 dado pelos gar\u00e7ons italianos.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeito! &#8211; exclamou o Diabo. &#8211; J\u00e1 vi que acertei. Quando podemos come\u00e7ar a campanha?<\/p>\n<p>&#8211; Espere um pouquinho &#8211; disse o publicit\u00e1rio. &#8211; Temos que combinar algumas coisas, antes. Por exemplo: os custos.<\/p>\n<p>&#8211; Isto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 comigo &#8211; disse o Diabo. &#8211; \u00c9 com o pessoal da \u00e1rea econ\u00f3mica. Voc\u00ea pode tratar com eles. E aproveitar para acertar tamb\u00e9m o seu contrato. Com isto o Diabo apertou um bot\u00e3o do intercomunicador vermelho que havia sobre a sua mesa e disse: &#8211; Dona Henriqueta, diga para o Jos\u00e9 vir at\u00e9 \u00e0 minha sala.<\/p>\n<p>&#8211; Jos\u00e9? &#8211; estranhou o publicit\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Nosso gerente financeiro. Toda a sec\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica \u00e9 dirigida por portugueses.<\/p>\n<p>Nesse instante o publicit\u00e1rio suspirou, levantou-se e disse: <\/p>\n<p>&#8211; Devolve-me por favor ao grelhador&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O d\u00e9ficit do pa\u00eds \u00e9 enorme. Qual pa\u00eds? Qual d\u00e9ficit? \u201cOrdem e progresso\u201d. \u201cTemos um palmo de terra para nascer e o mundo inteiro para morrer\u201d. Ser\u00e1 que somos o pa\u00eds da Inveja? Por quanto continuar a confundir apet\u00eancia com compet\u00eancia? Sofro de d\u00e9ficit? \u201cFalta-me dinheiro e tempo!\u201d. Na frase anterior, entre as tr\u00eas palavras, uma \u00e9 falsa ou quase verdadeira, outra deve ser substitu\u00edda pela palavra \u201cvontade\u201d. Resolva este enigma barato. Se n\u00e3o fosse padre era publicit\u00e1rio, mas atacado pelo \u201cd\u00e9ficit\u201d, n\u00e3o tenho \u00e0 m\u00e3o os livros de Etienne Perot: Le chr\u00e9tien et l\u2019argent (1994); La s\u00e9duction de l\u2019argent (1996); em castelhano, Etica Profisional: el discernimiento en la toma de decisiones (2000). Onde est\u00e1 o Sentido quando crian\u00e7as morrem em raz\u00e3o da macroeco-nomia, enquanto ningu\u00e9m pratica a verdadeira economia pol\u00edtica ?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00edclica crise se instala no Brasil. Velhas palavras desencantam: corrup\u00e7\u00e3o e impunidade. Procuro perceber aqui o \u201ccaso brasileiro\u201d, parte do invis\u00edvel Sul, e o l\u00e1 do \u201ccaso portugu\u00eas\u201d, na exausta Europa. Plagio e modifico, levemente, uma anedota de Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo. \u201cUm publicit\u00e1rio morreu e, como era mau, foi para o Inferno. 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