{"id":5037,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5037"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"um-coracao-a-medida-do-oceano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-coracao-a-medida-do-oceano\/","title":{"rendered":"Um cora\u00e7\u00e3o \u00e0 medida do oceano"},"content":{"rendered":"<p>Encantam-me as pessoas com esperan\u00e7a, sonhos e projectos. Deixam-me triste as pessoas que desaprenderam de olhar mais longe e de se olhar a si pr\u00f3prias, perdendo a consci\u00eancia da riqueza que lhes vai dentro e das capacidades \u00e0 espera de um investimento que nunca chega. Na vida h\u00e1 de todos e cada um l\u00e1 vai vivendo a seu jeito. <\/p>\n<p>Fomos criados para ultrapassarmos cada dia a mediania de quem se contenta com pouco e a rotina de quem se d\u00e1 por instalado.  <\/p>\n<p>N\u00e3o vejo a educa\u00e7\u00e3o a acordar a gente nova para horizontes sem fronteiras, nem a cultivar a vontade de ir sempre mais al\u00e9m, com a serenidade de quem sabe esperar e a alegria de quem sabe aproveitar.<\/p>\n<p>Caiu-me debaixo dos olhos um poema de Marie-Annick Retif, que \u00e9 uma leitura maravilhosa da vida, identificada com barcos de hist\u00f3rias diferentes. Uns que n\u00e3o saem do porto e a\u00ed enferrujam; outros que se esquecem de zarpar, com medo do mar tumultuoso; ainda outros t\u00e3o amarrados que j\u00e1 nem sabem olhar apara al\u00e9m de si e apenas marulham para se sentirem vivos e seguros; barcos ao lado de outros que afrontam o temporal e se arranham nas rotas oce\u00e2nicas onde os levam os seus manejos; barcos que regressam amassados, mas dignos e fortes e sempre iguais, ainda que o sol de anos os n\u00e3o tenha poupado\u2026<\/p>\n<p>A poetisa conclui, olhando barcos velhinhos, mas ainda e  sempre vivos: \u201cConhe\u00e7o barcos que transbordam de amor quando navegaram at\u00e9 ao seu \u00faltimo dia, sem nunca recolherem suas asas de gigantes, por terem o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 medida do oceano.\u201d<\/p>\n<p>Num fim de um domingo de muitos contactos e trabalhos, uns que traduziam sonhos realizados e outros desejos de renovar o que o tempo pode ter envelhecido, parei num lar de pessoas idosas. Familiares sa\u00edam leves e apressados de uma visita de amor ou apenas de obriga\u00e7\u00e3o. Entrei.  Veio-me ao esp\u00edrito o poema dos barcos. Aquele sal\u00e3o pareceu-me, ent\u00e3o, um porto amplo onde muitas vidas se haviam ancorado com o mist\u00e9rio que cada uma traduz, guarda e recorda, no sil\u00eancio de quem espera. Espera, de novo, uma visita que se repetir\u00e1 da\u00ed a oito dias, um olhar que comporte afecto, um gesto que acorde vida, uma palavra que exprima amor\u2026ou, apenas, mais uma noite longa cheia recorda\u00e7\u00f5es e ins\u00f3nias, que aviva muitas dores que nunca se ir\u00e3o confidenciar.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 sempre gente que nunca recolhe as suas asas de gigante, que teima em viver e continua a respirar o ar puro da esperan\u00e7a, que d\u00e1 ao cora\u00e7\u00e3o a medida dos oceanos. Vivos, sempre vivos, quaisquer que sejam os anos, as dores, as desilus\u00f5es. Ser\u00e1 sempre indecifr\u00e1vel o mist\u00e9rio que se aninha silencioso no cora\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que alarga a vida sempre mais e empurra, para mais longe, os anos e os trabalhos que a desgastam.<\/p>\n<p>Temos necessidade de penetrar, com proveito, no mundo dos idosos que sabem viver no outono da vida, em clima e ritmo ascendente! S\u00e3o vidas que transbordam de amor e enchem o mundo de sabedoria e de coragem.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio Marcelino volta a escrever neste espa\u00e7o no dia 31 de Agosto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encantam-me as pessoas com esperan\u00e7a, sonhos e projectos. Deixam-me triste as pessoas que desaprenderam de olhar mais longe e de se olhar a si pr\u00f3prias, perdendo a consci\u00eancia da riqueza que lhes vai dentro e das capacidades \u00e0 espera de um investimento que nunca chega. 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