{"id":5131,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5131"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"nego-sim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/nego-sim\/","title":{"rendered":"N\u00eago, sim"},"content":{"rendered":"<p>Direitos Humanos <!--more--> H\u00e1 cerca de umas semanas atr\u00e1s tive o privil\u00e9gio de visitar tr\u00eas comunidades de afro-descendentes \u2013 chamadas de \u201cterras quilombolas\u201d. Durante a vig\u00eancia da escravatura no Brasil, os negros conseguiram organizar-se em \u00e1reas de resist\u00eancia ao dom\u00ednio dos seus senhores. Quando os escravos, vindos de \u00c1frica, conseguiam fugir ou por alguma raz\u00e3o conseguiam a liberdade \u2013 a alforria \u2013 agrupavam-se em regi\u00f5es onde, organizados com \u00edndios, mesti\u00e7os e muitos brancos que defendiam a causa da aboli\u00e7\u00e3o, lutavam contra o regime esclavagista vigente.<\/p>\n<p>Esses agrupamentos de resist\u00eancia negra ficaram conhecidos como quilombos ou mocambos e, alguns, foram abrigo para mais de um milhar de indiv\u00edduos. Havia-os, tamb\u00e9m, que n\u00e3o eram t\u00e3o numerosos e at\u00e9 nem tinham localiza\u00e7\u00e3o fixa. Muitos desses quilombos subsistiram mesmo depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e foram locais de experimenta\u00e7\u00e3o de um colectivismo negro. Outros, merc\u00ea das dificuldades que a popula\u00e7\u00e3o negra continuou a sentir ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, desagregaram-se, tendo as terras sido tomadas por fazendeiros que, sob a apar\u00eancia da legalidade, aproveitaram para explorar a m\u00e3o-de-obra de ascend\u00eancia afro.<\/p>\n<p>Actualmente, as \u00e1reas remanescentes desses ref\u00fagios negros sobrevivem como locais de preserva\u00e7\u00e3o da cultura de \u201cpreto\u201d e dos ideais sociais que os afro-descendentes sempre defenderam.<\/p>\n<p>Desafortunadamente parece que uma esp\u00e9cie de estigma faz com que as popula\u00e7\u00f5es quilombolas vejam perpetuadas viol\u00eancias que mais parecem localizadas nos prim\u00f3rdios da coloniza\u00e7\u00e3o europeia. Duas das comunidades que visitei \u2013 Bom Sucesso dos Pretos e Saco das Almas \u2013 est\u00e3o a ser alvo da especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria do agroneg\u00f3cio. Na primeira dessas comunidades, uma empresa de alum\u00ednio denominada Margusa apossou-se de vasta \u00e1rea no entorno do antigo quilombo. Agora, naquelas matas, impera o eucalipto, plantado para servir na combust\u00e3o dos fornos da f\u00e1brica, com impressionantes danos para o ecossistema: o riacho onde a popula\u00e7\u00e3o costumava ir buscar \u00e1gua para consumo domicili\u00e1rio, hoje n\u00e3o tem caudal suficiente na \u00e9poca seca. <\/p>\n<p>Na outra comunidade, Saco das Almas, um vazio legal permitiu que os descendentes das antigas fam\u00edlias de senhores de escravos vendessem as terras para os monocultores da soja. A comunidade de afro-descendentes v\u00ea-se, hoje, a bra\u00e7os com uma situa\u00e7\u00e3o ir\u00f3nica: a terra foi declarada \u00e1rea quilombola pelo governo, mas a \u00e1rea cultiv\u00e1vel n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para as necessidades dos camponeses negros.<\/p>\n<p>Como esperan\u00e7a, resta o exemplo de uma outra \u00e1rea quilombola, onde o querer da popula\u00e7\u00e3o e a coopera\u00e7\u00e3o das autoridades est\u00e1 a fazer nascer um local de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria hist\u00f3rica. <\/p>\n<p>Em Santa Cruz, um projecto, bem estruturado, est\u00e1 a restaurar tanto a velha casa de engenho como a antiga senzala. Ao recriar a hist\u00f3ria, desafia-se a popula\u00e7\u00e3o afro-descendente a preservar a lembran\u00e7a da resist\u00eancia negra e ensinam-se as novas gera\u00e7\u00f5es a terem atitudes de toler\u00e2ncia. Assim, evitam-se os erros do passado e, naturalmente, surgir\u00e3o \u2013 como me aconteceu \u2013 muitas crian\u00e7as negras que, honrando com orgulho a riqueza das suas tradi\u00e7\u00f5es, afirmam abertamente: \u201cn\u00eago, sim!\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direitos Humanos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-5131","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5131","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5131"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5131\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}