{"id":5228,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5228"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-noite-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-noite-americana\/","title":{"rendered":"A noite americana"},"content":{"rendered":"<p>Primeiro foi a f\u00faria dos ventos e das \u00e1guas vindas de fora, e rodopiadas num bailado louco e devastador. Seguiu-se o grande \u00eaxodo no deserto do asfalto, com a pressa da travessia do Mar Vermelho, desta vez acossada pelas f\u00farias de Neptuno. Os diques da cidade n\u00e3o sustentaram a cidade mais baixa que o mar. (Nada adianta, como fazem alguns extremistas, reduzir o fen\u00f3meno \u00e0 ira de Deus.)<\/p>\n<p>O povo dos Estados fustigados pelo furac\u00e3o Katrina, sentiu-se n\u00e1ufrago na casa que edificara sobre as \u00e1guas, possivelmente sem as precau\u00e7\u00f5es de No\u00e9 na constru\u00e7\u00e3o da Arca, tamb\u00e9m ele avisado sobre o dil\u00favio que viria a abater-se sobre a terra.<\/p>\n<p>O acontecimento americano deste final de Agosto \u00e9 tr\u00e1gico de mais para ser objecto de an\u00e1lises prim\u00e1rias ou considerandos pol\u00edticos oportunistas. Estamos perante uma situa\u00e7\u00e3o humana, uma comunidade, um povo irm\u00e3o em grav\u00edssimo estado de sofrimento. <\/p>\n<p>A morte, a dor, a incerteza, a perda de tudo, a impot\u00eancia humana, mesmo com alguns erros de avalia\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno, foram progressivamente mostrados ao mundo pelos media. Nos primeiros dias, prevaleceu a espectacularidade da destrui\u00e7\u00e3o dos equipamentos urbanos. Aos poucos vieram ao de cima as situa\u00e7\u00f5es humanas de irrefut\u00e1vel trag\u00e9dia. A juntar a tudo isto uma esp\u00e9cie de humilha\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel sobre um povo que \u00e9 poderoso, o mais poderoso do mundo na economia, na t\u00e9cnica, nas comunica\u00e7\u00f5es inter-planet\u00e1rias. Isso parece de nada ter valido no momento exacto em que era urgente tudo saber e tudo cumprir. Mesmo diante da inefic\u00e1cia, muitos rep\u00f3rteres teimaram na velha propaganda dos grandes meios e das respostas r\u00e1pidas. At\u00e9 que todo o verniz estalou. <\/p>\n<p>Que nem por isso fiquem esquecidos os gestos her\u00f3icos, a entrega generosa e solid\u00e1ria, a procura, por todos os meios poss\u00edveis, em minimizar as consequ\u00eancias da cat\u00e1strofe. Alguns pa\u00edses pequenos tiveram pejo de oferecer seus pr\u00e9stimos de solidariedade, n\u00e3o fora o grande senhor, eventualmente, ofender-se de receber a esmola vinda dum pobre.<\/p>\n<p>Que fique a li\u00e7\u00e3o. O imp\u00e9rio mais forte do planeta tem, nalguns momentos, tantas fragilidades como a mais insignificante aldeia dos confins da terra. <\/p>\n<p>Voltamos \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do ser humano, da sua fraqueza, face \u00e0 implacabilidade das leis que armaram o nosso pr\u00f3prio cosmos. Com todo o adquirido pelos milh\u00f5es de anos, n\u00e3o passamos, dum momento para o outro, de uma insignificante cana agitada pelo vento. Como agora se viu &#8211; e se v\u00ea &#8211; na noite americana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiro foi a f\u00faria dos ventos e das \u00e1guas vindas de fora, e rodopiadas num bailado louco e devastador. Seguiu-se o grande \u00eaxodo no deserto do asfalto, com a pressa da travessia do Mar Vermelho, desta vez acossada pelas f\u00farias de Neptuno. Os diques da cidade n\u00e3o sustentaram a cidade mais baixa que o mar. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-5228","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5228"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5228\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}