{"id":5357,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5357"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-igreja-na-sociedade-plural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-igreja-na-sociedade-plural\/","title":{"rendered":"A Igreja na sociedade plural"},"content":{"rendered":"<p>A sociedade plural constitui um espa\u00e7o novo e interpelante onde a Igreja se deve situar evangelicamente. Agora, h\u00e1 outras vozes, outros agentes, outras correntes de pensamento e formas de entender a vida e organizar a sociedade. E nem sempre est\u00e3o em converg\u00eancia naquilo que \u00e9 fundamental. Em pontos decisivos, h\u00e1 mesmo concorr\u00eancia de propostas e crispa\u00e7\u00e3o de modos.<\/p>\n<p>\u201cO movimento laicista sente-se orgulhoso do que tem conseguido, ainda que \u00e0 custa de muita luta e algum sangue, perante a hegemonia da Igreja no tempo da sagrada uni\u00e3o\u201d \u2013 afirma Garcia de Ando\u00edn, crist\u00e3o militante e membro do grupo de contacto do Partido Socialista Oper\u00e1rio Espanhol com a Igreja. Lembra, a prop\u00f3sito, a separa\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada entre o Estado e as Igrejas, a conquista da liberdade religiosa, da escola p\u00fablica, do casamento civil, do registo dos nascimentos, da seculariza\u00e7\u00e3o dos cemit\u00e9rios e dos funerais, dos direitos do cidad\u00e3o e da consci\u00eancia, da conviv\u00eancia p\u00fablica e da afirma\u00e7\u00e3o do Estado. <\/p>\n<p>Conclui esta enumera\u00e7\u00e3o exemplificativa, garantindo que \u00e9 importante descobrir os valores do laicismo, sem ingenuidades nem preconceitos, e assumir que a Igreja mant\u00e9m ainda posi\u00e7\u00f5es de que \u00e9 preciso libertar-se ou de que ser\u00e1 desalojada, pois \u201cest\u00e1 em marcha uma intensifica\u00e7\u00e3o dos esfor\u00e7os laicistas tendentes a consegui-lo. Para isso, constituiu-se a \u00abPlataforma Laica\u00bb que interv\u00e9m activamente em v\u00e1rios pa\u00edses ocidentais.<\/p>\n<p>Estas declara\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas durante a \u00abmesa redonda\u00bb sobre \u201cconfessionalidade, laicidade e laicismo: colabora\u00e7\u00e3o ou conflito?\u201d e constituem, sem d\u00favida, um dos momentos mais interpelantes do XIV Curso de Forma\u00e7\u00e3o de Doutrina Social da Igreja, realizado de 12 a 15 de Setembro, na Funda\u00e7\u00e3o Paulo VI, em Madrid. <\/p>\n<p>Este curso tem como tema central: \u201cA presen\u00e7a da Igreja numa sociedade plural\u201d num contexto celebrativo dos 40 anos da publica\u00e7\u00e3o da Gaudium et Spes (documento do Vaticano II sobre a Igreja no mundo actual). <\/p>\n<p>Os trabalhos abrem com a confer\u00eancia de Andr\u00e9 Lacrampe, arcebispo de Besan\u00e7on e presidente do Conselho de Solidariedade, \u00f3rg\u00e3o da Confer\u00eancia dos Bispos de Fran\u00e7a. Intitula-se \u201cA laicidade francesa e as religi\u00f5es: um repto\u201d e faz uma releitura da situa\u00e7\u00e3o, a partir da Lei de 1905, que estabelece a separa\u00e7\u00e3o das Igrejas e do Estado e fundamenta o regime da laicidade. (Algo parecido com a nossa Lei de 1911, que tamb\u00e9m ela precisa de ser lida nos novos contextos s\u00f3cio-pol\u00edticos emergentes).<\/p>\n<p>\u201cA separa\u00e7\u00e3o foi um acontecimento doloroso e traum\u00e1tico, mas o princ\u00edpio da laicidade, se for bem entendido, pertence \u00e0 doutrina social da Igreja\u201d \u2013 afirma o conferencista, recordando a carta que Jo\u00e3o Paulo II lhes havia enviado por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio da referida Lei. Analisa a situa\u00e7\u00e3o e as disposi\u00e7\u00f5es adoptadas, em v\u00e1rios \u00e2mbitos, designadamente no \u00e2mbito escolar, da seguran\u00e7a social, do campo fiscal e conclui dizendo que constituem um reconhecimento do lugar das religi\u00f5es na vida social.<\/p>\n<p>\u201cEm que \u00e1rea, aprecia mais o movimento laicista a ac\u00e7\u00e3o da Igreja?\u201d \u2013 \u00e9 pergunta que surge na assembleia, aquando da \u00abmesa redonda\u00bb. \u201c\u00c9 precisamente no campo social, onde a justi\u00e7a e a solidariedade mais faltam, agravando a situa\u00e7\u00e3o dos empobrecidos e espoliados\u201d \u2013 responde Garcia de Ando\u00edn que, sem hesitar, acrescenta: \u201cMas onde mais se teme o papel da Igreja \u00e9 na educa\u00e7\u00e3o, seja em que espa\u00e7o for. Forjar o cidad\u00e3o pertence ao Estado e \u00e0s suas organiza\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>A Igreja encontra-se perante um desafio de fidelidade crescente a Jesus Cristo e perante as reivindica\u00e7\u00f5es s\u00e9rias de movimentos orga-nizados, que proclamam valores at\u00e9 h\u00e1 pouco \u201cmonop\u00f3lio\u201d das organiza\u00e7\u00f5es religiosas. Este desafio vai-se agudizando e tende a constituir-se em provoca\u00e7\u00e3o: Ou abandona voluntariamente por exig\u00eancias de renova\u00e7\u00e3o ou ser\u00e1 desalojada de posi\u00e7\u00f5es ultrapassadas por press\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cA Religi\u00e3o ocupa o centro da sociedade, antes da \u00e9poca moderna; agora est\u00e1 privatizada na periferia\u201d \u2013 observa Mardones, soci\u00f3logo dedicado \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Ilustra esta desloca\u00e7\u00e3o com exemplos expressivos: do monop\u00f3lio de sentido que detinha, h\u00e1-de conviver com o pluralismo de cosmovis\u00f5es; do controle do pensamento, h\u00e1-de aceitar a autonomia da raz\u00e3o; da defini\u00e7\u00e3o da moral \u00fanica, h\u00e1-de reconhecer a autonomia pessoal e a \u00e9tica c\u00edvica. E conclui, afirmando que este processo, com os seus inevit\u00e1veis exageros, ajuda a purificar a Religi\u00e3o e as suas in\u00fameras roupagens, lan\u00e7ando enormes provoca\u00e7\u00f5es. Por isso preconiza a passagem de uma laicidade incompetente a uma laicidade inteligente, de uma reac\u00e7\u00e3o defensiva a uma proposta assertiva, de uma tenta\u00e7\u00e3o de adapta\u00e7\u00e3o c\u00f3moda a um inconformismo cr\u00edtico, que salvaguarde a identidade crist\u00e3 e contribua para a humaniza\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da Igreja expressa-se na sua forma institucional, no estilo de vida dos crist\u00e3os e no contributo original que est\u00e3o chamados a dar na sociedade plural. Segundo o referido soci\u00f3logo, \u00e9 urgente desenvolver a educa\u00e7\u00e3o da sociabilidade humana, frente ao individualismo desgarrado; \u00e9 indispens\u00e1vel intensificar a solidariedade e as suas redes de interven\u00e7\u00e3o, frente \u00e0 crescente globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal e \u00e0s suas v\u00edtimas; \u00e9 necess\u00e1rio oferecer uma resist\u00eancia activa contrastante, frente ao consumismo de objectos e de sensa\u00e7\u00f5es; \u00e9 premente praticar a toler\u00e2ncia, aceitando as pessoas e recusando os atentados aos valores fundamentais, face a um pluralismo indiscriminado. <\/p>\n<p>A presen\u00e7a da Igreja na sociedade plural revela-se cada vez mais necess\u00e1ria e reveste formas novas e diversificadas, centradas em Jesus Cristo e no seu desejo constante de \u201crevelar o homem ao pr\u00f3prio homem\u201d. Intensificar e revigorar estas formas constitui, sem d\u00favida, um dos maiores desafios pastorais do nosso tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sociedade plural constitui um espa\u00e7o novo e interpelante onde a Igreja se deve situar evangelicamente. Agora, h\u00e1 outras vozes, outros agentes, outras correntes de pensamento e formas de entender a vida e organizar a sociedade. E nem sempre est\u00e3o em converg\u00eancia naquilo que \u00e9 fundamental. 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