{"id":5367,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5367"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-vida-nao-e-tao-aborrecida-como-nos-o-somos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-vida-nao-e-tao-aborrecida-como-nos-o-somos\/","title":{"rendered":"A vida n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o aborrecida como n\u00f3s o somos"},"content":{"rendered":"<p>Cuidado de Si <!--more--> 1. Um mal tipicamente setembrino, que afecta muita gente desprevenida, \u00e9 a \u00abdepress\u00e3o p\u00f3s-Ver\u00e3o\u00bb. O trimestre Maio- Junho-Julho, na melhor das hip\u00f3teses, foi passado a projectar realisticamente o tempo de f\u00e9rias; mas na maioria &#8211; e no pior &#8211; dos casos, costumamos sonhar as f\u00e9rias como uma esp\u00e9cie de tempo de reden\u00e7\u00e3o de tudo o que n\u00e3o vivemos durante o ano: libertados das amarras da rotina profissional e familiar, sonhamos poder dedicar-nos aos livros que n\u00e3o lemos, aos lugares que n\u00e3o visit\u00e1mos, \u00e0 serenidade que n\u00e3o alcan\u00e7\u00e1mos, aos afectos que n\u00e3o nutrimos, aos relacionamentos que desleix\u00e1mos. Projectamos, assim, em Agosto \u2013 o m\u00eas \u00e9 uma verdadeira met\u00e1fora \u2013 a capacidade das f\u00e9rias nos devolverem aquele peda\u00e7o de para\u00edso perdido ao longo do ano. Mas Setembro, quando chega, traz consigo uma dose not\u00e1vel de desilus\u00e3o aos incautos restauradores de para\u00edsos: os livros foram deixados a meio, os lugares afinal n\u00e3o trouxeram o entusiasmo esperado, a serenidade desaparece assim que se volta ao local de trabalho, os afectos desesperaram por nutrimento e, sobretudo, os relacionamentos, n\u00e3o habituados a vinte e quatro consecutivas on line, entraram numa esp\u00e9cie de espiral de desafei\u00e7\u00e3o e ruptura. Chegou o mal setembrino.<\/p>\n<p>2. Eu hei-de plantar uma \u00e1rvore, agora que me nasceu um filho e que tamb\u00e9m j\u00e1 publiquei. Um livro, uma \u00e1rvore, um filho: dizem que \u00e9 o trio da maturidade! E eu que me sinto t\u00e3o distante dela! Um filho: h\u00e1 qualquer coisa de misterioso e de imerecido no facto de uma vida fr\u00e1gil e inepta nos ser colocada nos bra\u00e7os para dela cuidarmos. Os movimentos que se fizeram, ainda que motivados pelo amor, s\u00e3o pouco para justificar tamanha oferta. Ou ent\u00e3o n\u00e3o. E, nesse caso, a extrema acessibilidade \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de vida \u00e9 t\u00e3o somente um gravoso convite \u00e0 responsabilidade e ao amor. No in\u00edcio da vida, no meio e no fim.<\/p>\n<p>3. Uma cita\u00e7\u00e3o longa que vale por si e n\u00e3o precisa de coment\u00e1rio: \u00abNenhum aspecto que possamos dar a um assunto nos trar\u00e1 tanto proveito como a verdade. S\u00f3 ela assenta bem. Porque, na maioria dos casos, n\u00e3o estamos onde estamos, mas numa posi\u00e7\u00e3o falsa. Devido a um desvio da nossa natureza, imaginamos uma situa\u00e7\u00e3o e colocamo-nos dentro dela, e logo estamos em duas situa\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo, tornando-se duplamente dif\u00edcil sair delas. Em momentos de lucidez, encaramos apenas os factos, a situa\u00e7\u00e3o que de facto existe. Dizei o que tendes a dizer, e n\u00e3o o que deveis dizer. Qualquer verdade \u00e9 melhor que o fingimento [&#8230;]. Por mais med\u00edocre que seja a vossa vida, enfrentai-a e vivei-a; n\u00e3o a eviteis nem a injurieis. Ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o aborrecida como v\u00f3s o sois. Quanto mais ricos sois, mais pobre ela parece. Quem busca defeitos, em tudo encontrar\u00e1 defeitos, at\u00e9 no para\u00edso. Amai a vossa vida, por pobre que seja [&#8230;] (H.D. Thoreau, Walden ou A vida nos bosques, Ant\u00edgona, Lisboa, 1999, 355-356).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cuidado de Si<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-5367","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5367\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}