{"id":537,"date":"2010-02-10T09:39:00","date_gmt":"2010-02-10T09:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=537"},"modified":"2010-02-10T09:39:00","modified_gmt":"2010-02-10T09:39:00","slug":"os-nossos-joelhos-dobrados-sao-a-forca-de-muitos-pes-a-andar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-nossos-joelhos-dobrados-sao-a-forca-de-muitos-pes-a-andar\/","title":{"rendered":"&#8220;Os nossos joelhos dobrados s\u00e3o a for\u00e7a de muitos p\u00e9s a andar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Maria Jos\u00e9 Reis deixou tudo o que a maioria das pessoas espera na vida para se dedicar a uma paix\u00e3o, a de ser religiosa contemplativa na Ordem de Santa Clara de Assis (Clarissas). A Ordem de Santa Clara \u00e9 contemplativa e vive a clausura. Os dias destas religiosas s\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o intensa, no qual s\u00e3o recordadas as necessidades da Igreja e do mundo. Em entrevista, a Irm\u00e3 Maria Jos\u00e9 fala deste quotidiano e do encanto que a faz permanecer fiel \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o. Entrevista conduzida por S\u00f3nia Neves, da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n<p>Como come\u00e7ou a voca\u00e7\u00e3o da Irm\u00e3 Maria Jos\u00e9?<\/p>\n<p>Irm\u00e3 Maria Jos\u00e9 &#8211; Come\u00e7ou h\u00e1 muitos anos\u2026Tinha 19 anos quando despertei para um g\u00e9nero de vida que se pode dizer que \u00e9 fora de comum, embora ela seja comum a todos. A consagra\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre algo que ultrapassa aquilo que dizemos que humanamente \u00e9 normal. N\u00f3s optamos pelo sobrenatural. Nasci na ilha da Madeira, foi l\u00e1 que entrei no Mosteiro da Nossa Senhora da Piedade, onde vivi 17 anos. E depois vim para Lisboa, para o Mosteiro da Estrela.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que uma jovem de 19 anos pensa em entrar num mosteiro?<\/p>\n<p>Houve em mim um despertar para a dimens\u00e3o crist\u00e3 e para a vida espiritual. Embora crente e praticante at\u00e9 aos 14 anos, deixei de praticar dos 14 aos 18 anos. Criou-se o movimento dos jovens crist\u00e3os da Madeira e fui apanhada, como um peixe na rede. Fui convidada a participar no movimento, acabei por integrar e trabalhar e com grande alegria trabalhei ao lado de D. Francisco Santana, bispo da \u00e9poca, que me deixou muitos exemplos e a\u00ed fui despertando para o sagrado, colocando a pessoa de Jesus Cristo como algo muito mais s\u00e9rio e profundo. Cristo n\u00e3o \u00e9 apenas uma figura hist\u00f3rica, \u00e9 muito para al\u00e9m disso, \u00e9 o Filho de Deus e \u00e9 nesta dimens\u00e3o de f\u00e9 que tentei abrir caminho, aprofundar e despertar para esta voca\u00e7\u00e3o aos p\u00e9s de Jesus.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea uma congrega\u00e7\u00e3o de irm\u00e3s contemplativas?<\/p>\n<p>N\u00e3o foi nada pensado\u2026 Digo com sinceridade que n\u00e3o conhecia nada sobre vida religiosa, nem sobre vidas activas e contemplativas. Primeiro, decidi consagrar-me a Deus e isso fez com que eu tivesse de deixar o que pensava ser o meu caminho, o matrim\u00f3nio. E por acaso j\u00e1 estava comprometida. Para mim n\u00e3o foi muito dif\u00edcil, mas para ele&#8230;<\/p>\n<p>Depois de dar o meu sim \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o comecei por ver onde poderia servir melhor Deus, a Igreja e o Mundo. Foi outro caminho muito dif\u00edcil\u2026 A vida activa era a que estava presente e os primeiros passos foram conhecer congrega\u00e7\u00f5es. Estive em v\u00e1rias fam\u00edlias religiosas, onde procurei ver, saber e fazer alguns retiros, at\u00e9. Mas dizer um sim era muito dif\u00edcil. Gostava de trabalhar em varias \u00e1reas e era muito complicado. Depois do 25 de Abril, foi a \u00e9poca da desorienta\u00e7\u00e3o e eu fui das primeiras gera\u00e7\u00f5es desorientadas. Estive um ano \u00e0 deriva. Mas uma coisa acompanhou-me: a ideia de que para eu ser professora, enfermeira ou educadora n\u00e3o era necess\u00e1rio ir para a vida religiosa.<\/p>\n<p>E cresceu a vontade da consagra\u00e7\u00e3o na clausura?<\/p>\n<p>Eu gostaria de me entregar na gratuidade, sem ter de me formar. Eu via a vida religiosa de outra forma. Tinha de ser vivida sob o olhar da divina provid\u00eancia. At\u00e9 que um dia se realizou uma semana b\u00edblica na minha par\u00f3quia e as irm\u00e3s que organizavam, as irm\u00e3s Paulinas, ao prepararem os grupos, pediram que houvesse algu\u00e9m que se responsabilizasse por ir \u00e0s irm\u00e3s Clarissas pedir ora\u00e7\u00f5es pelos bons frutos dessa semana. E foi o primeiro toque para mim. Sem a ora\u00e7\u00e3o nada se consegue. Foi o primeiro contacto com as irm\u00e3s. Depois as irm\u00e3s deram-me um livro que numa pequena frase me fez decidir: \u201cQue a \u00fanica forma de abarcar todas as formas de apostolado e de estar em todos os s\u00edtios ao mesmo tempo \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O segundo toque para que eu desse o sim definitivo foi uma frase de Jesus Cristo: \u201cPobres sempre os tereis convosco\u201d, em resposta \u00e0 revolta de Judas, quando Maria Madalena perfuma Jesus e lhe unge os p\u00e9s, o que muitos se esquecem de fazer ainda hoje. Eu costumo dizer que a nossa vida de contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 um \u201cdesperd\u00edcio de perfume\u201d, que derramamos este perfume aos p\u00e9s de Jesus.<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre a ideia de que as irm\u00e3s contemplativas apenas rezam\u2026 Ou fazem outros trabalhos?<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que \u201cs\u00f3 caminha quem est\u00e1 parado\u201d &#8211; \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o. Caminhar na vida n\u00e3o significa andar com os p\u00e9s, avan\u00e7ar s\u00f3 se consegue quando se p\u00e1ra. A vida contemplativa \u00e9 um caminhar parado. H\u00e1 outra dimens\u00e3o: ao estarmos de joelhos, os nossos joelhos dobrados s\u00e3o a for\u00e7a de muitos p\u00e9s a andar. Isto quer dizer que continuamos a andar nos p\u00e9s de muita gente, carregamos as dores, as alegrias, as esperan\u00e7as de todo um povo.<\/p>\n<p>Contemplativos somos todos, \u00e9 um dom, uma pequena semente que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o de todos. L\u00e1 por eu estar na vida contemplativa n\u00e3o quer dizer que seja detentora do grande dom da contempla\u00e7\u00e3o. O facto de estar em clausura \u00e9 fazer parte deste corpo m\u00edstico de Cristo em que todos somos necess\u00e1rios, os que trabalham e os que rezam, e as duas partes complementam-se. \u00c9 necess\u00e1rio uma gra\u00e7a para ambos. Ningu\u00e9m trabalha isoladamente, porque o grande segredo da Igreja \u00e9 a comunh\u00e3o. Vivemos uns para os outros e neste esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os contemplativos tamb\u00e9m cami-nham, mas de uma forma diferente, mas somos o motor. Precisamos dos irm\u00e3os da vida activa porque eles s\u00e3o o conforto da nossa ora\u00e7\u00e3o e \u00e9 muito bonito estarmos a rezar e ouvirmos falar dos frutos de l\u00e1 de fora, assim como quando h\u00e1 sofrimento, os irm\u00e3os sabem que h\u00e1 irm\u00e3s que est\u00e3o em cont\u00ednua ora\u00e7\u00e3o por eles, Andamos assim com todos os irm\u00e3os. N\u00e3o gosto de separar a vida activa e contemplativa, porque activos somos todos mas tamb\u00e9m podemos ser todos contemplativos. Ningu\u00e9m est\u00e1 parado\u2026<\/p>\n<p>Como \u00e9 a vida quotidiana de uma irm\u00e3 Clarissa?<\/p>\n<p>Para j\u00e1 \u00e9 uma vida normal&#8230; Tamb\u00e9m dormimos, tamb\u00e9m comemos\u2026 Levantamo-nos \u00e0s 5h50, quando toca o despertar. \u00c0s 6h30 vamos para a capela. Come\u00e7amos pela medita\u00e7\u00e3o em sil\u00eancio, at\u00e9 \u00e0s 7h. Depois temos a hora lit\u00fargica de Laudes; \u00e0s 7h30, eucaristia; depois a hora interm\u00e9dia que \u00e9 a hora de T\u00e9rcia. A vida de uma contemplativa faz-se com base na Liturgia das Horas, ou seja, rezar com a Igreja, milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas rezam aqueles salmos em v\u00e1rias l\u00ednguas mas sempre com a mesma comunh\u00e3o. \u00c0s 8h30 tomamos o pequeno-almo\u00e7o. Depois as irm\u00e3s entregam-se ao trabalho normal necess\u00e1rio no Mosteiro. Um deles \u00e9 o fabrico das h\u00f3stias. Costumo dizer que aqui h\u00e1 a padaria de Jesus Cristo; aqui prepara-se o p\u00e3o que se vai transformar no corpo do Senhor, e isso \u00e9 um trabalho que as irm\u00e3s fazem com grande devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Encontramo-nos para rezar em comunidade cinco vezes por dia, e ao meio-dia vamos novamente para a capela, onde rezamos a hora de Sexta e a seguir a coroa ser\u00e1fica, uma devo\u00e7\u00e3o franciscana, que s\u00e3o as \u201cSete alegrias de Nossa Senhora\u201d. Segue-se o almo\u00e7o e, \u00e0s 15h, a hora de Noa. Nestes intervalos h\u00e1 a vida comum que \u00e9 necess\u00e1rio fazer em casa, o atendimento \u00e0 porta e a recep\u00e7\u00e3o aos peregrinos que visitam o espa\u00e7o da Jacinta, pastorinha de F\u00e1tima. \u00c0s 18h, voltamos \u00e0 capela para rezar o ter\u00e7o e a ora\u00e7\u00e3o de V\u00e9speras para se seguir o jantar. \u00c0s 20h30 encontramo-nos todas para a hora do recreio, uma reuni\u00e3o onde se fala de tudo, coment\u00e1rios, not\u00edcias, pedidos de ora\u00e7\u00f5es ou simples conversa\u2026 festa!<\/p>\n<p>Terminamos o dia na capela com o of\u00edcio de leituras e as Completas. Al\u00e9m deste quotidiano, cada irm\u00e3 tem a sua hora de ora\u00e7\u00e3o diante do Sant\u00edssimo exposto que temos todos os dias na capela e \u00e0 Quinta-feira temos a noite toda, estando sempre uma irm\u00e3 em adora\u00e7\u00e3o. A vida contemplativa das irm\u00e3s clarissas est\u00e1 mais virada para a adora\u00e7\u00e3o ao Sant\u00edssimo Sacramento, sendo o fundamental. Somos as sentinelas despertas aos p\u00e9s de Jesus guardando este reino que est\u00e1 repartido entre tudo o que acontece.<\/p>\n<p>Sendo irm\u00e3s de clausura como gerem as sa\u00eddas?<\/p>\n<p>A clausura tem uma estrutura, mas \u00e9 sobretudo espiritual. O estar encerrada n\u00e3o significa por si s\u00f3 estar em clausura, \u00e9 sobretudo a clausura de cora\u00e7\u00e3o. Eu costumo dizer que o Amor n\u00e3o tem grades. Aquilo que \u00e9 necess\u00e1rio fazer l\u00e1 fora, n\u00f3s fazemos! Ir ao m\u00e9dico, \u00e0 farm\u00e1cia, exercer direitos civis e coisas que s\u00e3o necess\u00e1rias \u00e0 vida do mosteiro. Claro que n\u00e3o saem todas as irm\u00e3s h\u00e1 sempre uma ou duas destinadas a \u201cfazer a ponte\u201d \u00e0 sociedade. E hoje eu digo mesmo que a nossa resposta ao voto da pobreza \u00e9 ir, n\u00e3o \u00e9 esperar, por exemplo, que o m\u00e9dico venha c\u00e1. Os ricos \u00e9 que trazem tudo a casa!<\/p>\n<p>Como \u00e9 a comunidade das irm\u00e3s clarissas de Lisboa?<\/p>\n<p>Somos 8 irm\u00e3s. Costumo dizer que para o nosso tempo j\u00e1 \u00e9 muito! H\u00e1 trinta anos 8 irm\u00e3s seria pouco. Eram comunidades grandes. N\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o alarmante, n\u00e3o nos devemos preocupar porque tudo isto pertence a Deus e se n\u00e3o h\u00e1 voca\u00e7\u00f5es n\u00e3o deve ser visto como algo grave. Se as pessoas querem viver de outra forma, o nosso dever \u00e9 respeitar, porque cada um de n\u00f3s assume as consequ\u00eancias da sua pr\u00f3pria vida. Oito irm\u00e3s parece pouco, mas o pouco para Deus \u00e9 muito!<\/p>\n<p>Como s\u00e3o feitos os pedidos de ora\u00e7\u00e3o \u00e0s irm\u00e3s?<\/p>\n<p>Recebemos pedidos de ora\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m v\u00eam c\u00e1 pessoas para conversar simplesmente e at\u00e9 pedir conselhos\u2026 O mosteiro no centro da cidade \u00e9 como a tenda da reuni\u00e3o de Mois\u00e9s, que estava fora do acampamento. N\u00f3s pertencemos ao povo, mas temos esta tenda erguida e \u00e9 muitas vezes aqui que o povo sente que Deus est\u00e1 e para onde pode voltar o olhar e saber que aqui podem falar. \u00c9 um lugar de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 uma miss\u00e3o muito importante em que ando a meditar. Cada sociedade ou cada cidade necessita de ter algo que o povo, em momentos de afli\u00e7\u00e3o, saiba para onde voltar o seu olhar. E nota-se que os mosteiros s\u00e3o cada vez mais procurados. Se cada vez que uma pessoa procura um mosteiro nascesse uma voca\u00e7\u00e3o, os mosteiros estavam cheios\u2026<\/p>\n<p>O mais importante \u00e9 que estas pessoas levem para a vida um valor crist\u00e3o, uma f\u00e9 viva e alicer\u00e7ada, porque \u00e9 isso que \u00e9 preciso para a estabilidade da vida. O que n\u00e3o est\u00e1 vis\u00edvel aos nossos olhos \u00e9 que vai dando equil\u00edbrio \u00e0 vida humana. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Jos\u00e9 Reis deixou tudo o que a maioria das pessoas espera na vida para se dedicar a uma paix\u00e3o, a de ser religiosa contemplativa na Ordem de Santa Clara de Assis (Clarissas). A Ordem de Santa Clara \u00e9 contemplativa e vive a clausura. 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