{"id":5370,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5370"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-vida-e-os-desencontros-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-vida-e-os-desencontros-da-sociedade\/","title":{"rendered":"A vida e os desencontros da sociedade"},"content":{"rendered":"<p>Num encontro que muito me marcou e em que participei, em Berlim, no fim da d\u00e9cada de setenta, ouvi os delegados alem\u00e3es dizerem que, no seu pa\u00eds, a maior pobreza residia nos casais jovens que n\u00e3o queriam filhos, porque estes lhes estragavam a vida c\u00f3moda e os projectos de f\u00e9rias nas zonas mais apetec\u00edveis do mundo. Nessa altura, o \u00edndice demogr\u00e1fico na Alemanha era j\u00e1 baix\u00edssimo e crescia a xenofobia em rela\u00e7\u00e3o aos emigrantes turcos, indispens\u00e1veis no pa\u00eds, por garantirem trabalhos que os naturais j\u00e1 n\u00e3o faziam. A m\u00e9dia de filhos por casal turco era ent\u00e3o de seis ou sete filhos. Uma amea\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>O jornal P\u00fablico de 16 de Setembro trazia, a prop\u00f3sito da Alemanha, um artigo de arrepiar. Escrito por uma jornalista estrangeira, era titulado \u201cNo pa\u00eds dos sem-crian\u00e7as\u201d. Aquilo que h\u00e1 vinte anos parecia um desabafo de jovens aos quais os filhos podiam incomodar e por isso n\u00e3o os queriam, deu lugar, com os mesmos argumentos de ent\u00e3o, agora acrescentados por outros de pior sentido, a associa\u00e7\u00f5es de militantes que lutam para acabar de vez com as crian\u00e7as no pa\u00eds. A tal ponto vai este \u00f3dio aos b\u00e9b\u00e9s que os casais que os t\u00eam e remam contra esta mar\u00e9 destruidora, procuram lugares para viver, longe de Berlim, onde esperam maior seguran\u00e7a e paz.<\/p>\n<p>\u201cRecusar crian\u00e7as, diz a jornalista, \u00e9 recusar a vida\u201d. O ego\u00edsmo \u00e9 sempre suicida. Por este caminho, dizem soci\u00f3logos preocupados, que a Alemanha est\u00e1 \u00e0 beira de se tornar um pa\u00eds sem crian\u00e7as. Em 2002, 3 % dos homens alem\u00e3es, em idade de procriar, foram voluntariamente esterilizados. O nazismo fez perder a identidade e as cat\u00e1strofes incontrol\u00e1veis levaram \u00e0 conclus\u00e3o de que gerar crian\u00e7as \u00e9 uma irresponsabilidade. Os poderes pol\u00edticos est\u00e3o altamente preocupados e tentam contrariar o processo, mas os resultados parecem ser nulos.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, fecham-se escolas porque n\u00e3o nascem crian\u00e7as, nem esperan\u00e7a de que venham a nascer. Continuam a construir-se moradias sociais que s\u00f3 desaconselham ter filhos. As creches para beb\u00e9s s\u00e3o poucas, por vezes bem caras, e as listas de espera para encontrar um lugar s\u00e3o tamb\u00e9m elas de desespero. O \u00edndice demogr\u00e1fico n\u00e3o mostra qualquer sentido de mudar para melhor e o horizonte est\u00e1 carregado de negro.<\/p>\n<p>E o que vemos? O partido do governo, preocupado cada vez mais em que seja votada, quanto antes, a despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto, que, embora com restri\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a porta aberta \u00e0 sua liberaliza\u00e7\u00e3o. Assim o anunciaram j\u00e1 outros partidos que fazem coro a favor do mesmo projecto. E, mais do que fomentar e proteger a natalidade, com medidas positivas e urgentes, o Ministro da Sa\u00fade, segundo not\u00edcia de fim de semana (P\u00fablico 24.9),  quer que \u201c a partir de Janeiro do pr\u00f3ximo ano, todos os centros de sa\u00fade e hospitais estejam abastecidos com quantidades suficientes de anticoncepcionais (p\u00edlula, preservativo e dispositivo intra-uterino), para serem dispensados a quem recorre \u00e0s consultas de planeamento familiar\u201d O \u201cplaneamento familiar\u201d de h\u00e1 muito goza de especial acolhimento e apoio dos nossos governantes de ontem e de hoje&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 tenho indagado sobre o que se faz nos referidos lugares para estimular a natalidade, dado que a nossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 demograficamente preocupante, como est\u00e1 \u00e0 vista. Nada, porque n\u00e3o \u00e9 isso que as pessoas procuram, dizem-me. <\/p>\n<p>Andamos todos distra\u00eddos ou o que mais interessa a este pa\u00eds \u00e9 mesmo que se extinga a conta gotas? H\u00e1 quem queira que seja por garrote, mais f\u00e1cil e mais r\u00e1pido. <\/p>\n<p>A Alemanha entrou num declive que parece impar\u00e1vel. De n\u00f3s, o que se poder\u00e1 esperar? Que, sem os exageros ideol\u00f3gicos da Alemanha, venhamos tamb\u00e9m a ser um dia, n\u00e3o muito long\u00ednquo, por este caminho, \u201cum pa\u00eds sem crian\u00e7as\u201d?<\/p>\n<p>Acordem os av\u00f3s, j\u00e1 que aos filhos n\u00e3o falta quem se encarregue de os anestesiar. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num encontro que muito me marcou e em que participei, em Berlim, no fim da d\u00e9cada de setenta, ouvi os delegados alem\u00e3es dizerem que, no seu pa\u00eds, a maior pobreza residia nos casais jovens que n\u00e3o queriam filhos, porque estes lhes estragavam a vida c\u00f3moda e os projectos de f\u00e9rias nas zonas mais apetec\u00edveis do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-5370","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5370","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5370"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5370\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5370"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5370"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5370"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}