{"id":5493,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5493"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"catorze-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/catorze-anos\/","title":{"rendered":"Catorze anos"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia <!--more--> Primeiro \u00e9 apenas uma certeza cl\u00ednica. Depois, uma sensa\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a desmedida, uma alegria infinita e a consci\u00eancia funda e misteriosa de existir em n\u00f3s mais algu\u00e9m. De gerar uma vida.<\/p>\n<p>Um filho deixa de ser uma abstrac\u00e7\u00e3o, quando sentimos a primeira impress\u00e3o \u00edntima de que deix\u00e1mos de ser apenas um. E quando ouvimos, atrav\u00e9s de m\u00e1quinas, o som ampliado do seu cora\u00e7\u00e3o acelerado, a transbordar de vida.<\/p>\n<p>Mais tarde, comove profundamente o seu primeiro choro e a imagem inteira da sua fragilidade. O instante em que o vemos ainda despido, em que lhe tocamos pela primeira vez e em que sentimos a sua respira\u00e7\u00e3o inaugural. Comove sentir o seu calor, descobrir os seus tra\u00e7os e v\u00ea-lo existir fora de n\u00f3s, depositado sobre n\u00f3s ou no colo ainda inseguro de quem chora em sil\u00eancio ao nosso lado.<\/p>\n<p>Naquele momento exacto, ningu\u00e9m sabe ao certo como vai ser amanh\u00e3, como ser\u00e1 o outro dia e todos os dias que h\u00e3o-de vir. \u00c9 ali que recome\u00e7a tudo e tudo muda. O cheiro em casa, o espa\u00e7o \u00e0 nossa volta, as horas do dia e a consist\u00eancia das noites transformam-se para sempre. Os gestos, os sons, os h\u00e1bitos, as pessoas e todas as coisas ficam infinitamente diferentes do que eram at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>Depois, em cada dia, h\u00e1 uma surpresa. Um olhar fixo de reco-nhecimento, um sorriso de entrega, uma m\u00e3o que prende a nossa m\u00e3o, um choro aflito que nos faz chorar, um riso dobrado que nos contagia ou um passo hesitante que nos obriga a ficar ainda mais pr\u00f3ximos. <\/p>\n<p>A voz que se vai revelando e as perguntas que vai deixando no ar surpreendem-nos e ensinam-nos coisas que mais ningu\u00e9m nunca nos poderia ensinar.<\/p>\n<p>Nos primeiros anos sentimo-nos, como ele, fortes e fr\u00e1geis, seguros e inseguros, felizes e angustiados; e \u00e9 a soma de tantas emo\u00e7\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5s que nos faz crescer e perceber que a vida \u00e9 uma matem\u00e1tica delicada. H\u00e1 e haver\u00e1 sempre coisas que n\u00e3o vamos entender nem saber fazer.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz mal, pois a certeza de que tudo tem mais sentido, porque simplesmente ele existe, ajuda incrivelmente a viver os dias f\u00e1ceis e dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Na verdade, deixamos at\u00e9 de contar os anos que passam por n\u00f3s, para somar apenas os que contam para ele. Como se a nossa idade deixasse de ser importante e existisse apenas a idade dele.<\/p>\n<p>Catorze anos j\u00e1 s\u00e3o muitos anos, Tudo o que me lembro agora destes anos vividos juntos, e sempre t\u00e3o pr\u00f3ximos, foi muito bom e muito feliz. Por tudo e por nada.<\/p>\n<p>E \u00e9 pelas grandes coisas, pelos pequenos momentos, pelas longas conversas, por todos os risos e cada l\u00e1grima, e pelos sil\u00eancios verdadeiros, cuja subst\u00e2ncia s\u00f3 n\u00f3s conhecemos, que hoje rezo e agrade\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-5493","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5493","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5493"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5493\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5493"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5493"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5493"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}