{"id":5511,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5511"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"partilha-da-mesma-fe-num-mundo-de-vicios-globais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/partilha-da-mesma-fe-num-mundo-de-vicios-globais\/","title":{"rendered":"Partilha da mesma f\u00e9 num mundo de v\u00edcios globais"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o, di\u00e1cono em \u00cdlhavo, K\u00e1tya, professora de Esgueira, e Marisa,enfermeira de Cacia, relatam-nos as suas viv\u00eancias mission\u00e1rias em Mo\u00e7ambique<\/p>\n<p>Mo\u00e7ambique: um mundo diverso, onde nem o portugu\u00eas consegue ser l\u00edngua m\u00e3e. Tivemos a felicidade de vir para uma das zonas mais pobres deste pa\u00eds, onde o calor atinge temperaturas altas. Aterr\u00e1-mos num aeroporto pobre e \u00e0 nossa volta v\u00edamos aquelas aldeias t\u00edpicas africanas, de barro e capim. Muita gente na estrada, a p\u00e9 e de bicicleta; passavam tamb\u00e9m pick-ups (como as nossas) e cami\u00f5es para o Malawi e a Z\u00e2mbia (nossas vizinhas). Cheg\u00e1mos a Moatize. A casa onde fic\u00e1mos \u00e9 da Miss\u00e3o Salesiana e, como nos tinham dito, \u00e9 a Miss\u00e3o mais pobre. N\u00e3o nos tem faltado nada daquilo que \u00e9 b\u00e1sico. Os primeiros dias foram de contacto com as pessoas e com a zona: tivemos v\u00e1rios encontros e visit\u00e1mos v\u00e1rias comunidades do mato. As pessoas parecem um pouco distantes mas; depois de iniciarmos uma conversa, at\u00e9 se mostram simp\u00e1ticas e acolhedoras. <\/p>\n<p>Fizemos de tudo um pouco: ac\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o a professores e orienta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica; sensibiliza\u00e7\u00e3o para a higiene oral e corporal nas escolas; apoio a diversos grupos paroquiais; visita \u00e0s comunidades do mato e celebra\u00e7\u00f5es da palavra. Acab\u00e1mos de passar um fim-de-semana em algumas comunidades junto \u00e0 fronteira com o Malawi. Experiment\u00e1mos a pobreza quase extrema do povo, mas tamb\u00e9m a sua generosidade, hospitalidade e firmeza de f\u00e9. As celebra\u00e7\u00f5es s\u00e3o longas e, para quem est\u00e1 habituado a \u2018ter missa\u2019 cronometrada, at\u00e9 s\u00e3o um pouco cansativas; mas a alegria e a simplicidade fazem-nos esquecer o tempo. Visit\u00e1mos comunidades onde o padre s\u00f3 passa de dois em dois meses e, algumas at\u00e9, poucas vezes num ano, mas que est\u00e3o organizadas e subsistem sem a presen\u00e7a habitual do padre. <\/p>\n<p>Nas escolas por onde pass\u00e1mos falta quase de tudo, ou melhor, talvez seja mais f\u00e1cil dizer o que t\u00eam: uns troncos a servir de bancos, uma mesa para o professor (que faz imensos quil\u00f3metros de bicicleta, por caminhos dif\u00edceis, e que apresenta muitas vezes falta de interesse pelo que faz), um quadro (ou em alguns casos, meio quadro) e umas estacas ao alto com um tecto em capim. Eis as nossas escolas cheias de crian\u00e7as. <\/p>\n<p>O hospital de Moatize \u00e9 aquilo que n\u00e3o \u00e9 um hospital: sujo, com fracas condi\u00e7\u00f5es e, talvez, pouco mais que o sentido meramente profissional de quem l\u00e1 trabalha. A religiosa que nos acompanhava trabalhava l\u00e1 e era uma lufada de ar fresco naquele ambiente. Infelizmente visit\u00e1mos o hospital provincial e o ambiente era degradante.<\/p>\n<p>Sentimos a injusti\u00e7a deste mundo em que vivemos. Uma crian\u00e7a vai de urg\u00eancia ao hospital e no dia seguinte os pais est\u00e3o na miss\u00e3o a pedir quatro euros para pagarem a despesa do filho, porque n\u00e3o t\u00eam. Como podemos dormir descansados quando h\u00e1 gente a morrer de fome, de falta de dinheiro? Como podemos viver descansados quando h\u00e1 gente que vai para a cadeia por injusti\u00e7a? Encontr\u00e1mos alegria no rosto das crian\u00e7as, for\u00e7a e coragem nos mais velhos, pureza de vida em algumas aldeias no mato, encontr\u00e1mos alegria e dedica\u00e7\u00e3o de muita gente\u2026 Encontr\u00e1mos pouca vontade pol\u00edtica de construir um mundo mais justo, mais fraterno e mais solid\u00e1rio. Encontr\u00e1mos os v\u00edcios pr\u00f3prios de um mundo global, onde em qualquer esquina se vende coca-cola, onde a Sida mata mesmo e tamb\u00e9m \u00e9 dos \u2018neg\u00f3cios\u2019 mais lucrativos, onde o \u2018deixa andar\u2019 \u00e9 lema, onde h\u00e1 gente que nos olha de lado e nos chama \u2018muzungu\u2019 (que quer dizer \u2018branco\u2019). No meio desta realidade, fazemos a experi\u00eancia de Igreja, partilhamos a mesma f\u00e9, e a f\u00e9 que nos une tamb\u00e9m aos irm\u00e3os luteranos, metodistas, mu\u00e7ulmanos. Fazemos a experi\u00eancia de uma igreja pobre e rica, onde existe gente que se dedica e onde existe gente que procura apenas o seu interesse, onde \u00e0s vezes se est\u00e1 com os mais pobres e onde, por vezes, interessa estar com o poder; sentimos uma Igreja aberta ao esp\u00edrito evangelizador, mas tamb\u00e9m tolhida por hierarquias de poder.<\/p>\n<p>\u00c9 este o nosso mundo&#8230;muito diferente e muito semelhante.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, K\u00e1tya e Marisa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o, di\u00e1cono em \u00cdlhavo, K\u00e1tya, professora de Esgueira, e Marisa,enfermeira de Cacia, relatam-nos as suas viv\u00eancias mission\u00e1rias em Mo\u00e7ambique Mo\u00e7ambique: um mundo diverso, onde nem o portugu\u00eas consegue ser l\u00edngua m\u00e3e. Tivemos a felicidade de vir para uma das zonas mais pobres deste pa\u00eds, onde o calor atinge temperaturas altas. 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