{"id":5542,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5542"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"o-gandhi-do-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-gandhi-do-sertao\/","title":{"rendered":"O Gandhi do Sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Direitos Humanos <!--more--> Por vezes, algumas atitudes extremas podem suscitar, em n\u00f3s, certa estranheza, principalmente quando elas s\u00e3o tomadas por figuras da hierarquia da nossa Igreja. Passo a explicar: a figura a que me refiro chama-se Dom Frei Lu\u00eds Cappio, \u00e9 bispo da diocese de Barra, no estado nordestino da Bahia. Uma figura franzina de um frade franciscano, que tomou a decis\u00e3o \u2013 gigantesca, digna apenas de pessoas com uma craveira extraordin\u00e1ria \u2013 de entrar em greve de fome. Uma medida dr\u00e1stica, como forma de protesto contra o autismo das autoridades que se recusam a ouvir os clamores do povo pobre, sofrido e martirizado, do sert\u00e3o nordestino.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em causa \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Rio S. Francisco, o maior rio que corre no Nordeste Brasileiro. Um projecto megal\u00f3mano governamental, que, sob a capa (aparente) de querer levar as \u00e1guas do S\u00e3o Francisco a algumas regi\u00f5es semi-\u00e1ridas do sert\u00e3o nordestino, nada mais visa do que responder aos grandes interesses econ\u00f3micos do agroneg\u00f3cio, \u00e1vidos de come\u00e7arem a alargar os seus investimentos para novas fronteiras agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Dom Frei Lu\u00eds insurgiu-se, sobretudo, contra todo o processo de transposi\u00e7\u00e3o, iniciado nos gabinetes dos poderes, sem que tivesse sido dada ao povo a possibilidade efectiva de se pronunciar sobre os impactos que tal projecto ter\u00e1 na vida dos sertanejos, que sobrevivem nas margens do grande rio do Nordeste.<\/p>\n<p>Incapazes de ouvir a voz do povo, os pol\u00edticos poderosos de Bras\u00edlia e das capitais nordestinas deram a aprova\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o do projecto como acto consumado. <\/p>\n<p>Cansado de apelar a que os referidos poderes escutassem o sentimento e a raz\u00e3o do povo, Dom Frei Lu\u00eds, no Domingo 25 de Setembro, anunciou que, a partir do dia seguinte, ficaria em greve de fome. Para que os gritos do povo pudessem ser ouvidos!<\/p>\n<p>Assim, no dia 26 do m\u00eas passado, o bispo franciscano entrou na capela de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, no munic\u00edpio de Cabrob\u00f3, estado de Pernambuco, ribeirinho das margens do S. Francisco, onde iria passar, em ora\u00e7\u00e3o e atitude de escuta, a sua greve de fome.<\/p>\n<p>Tratou-se, sem d\u00favida, de um gesto extraordinariamente ousado. Ali\u00e1s, \u00e9 t\u00e3o extraordin\u00e1rio que gerou imenso desconforto, tanto nos pol\u00edticos como na Igreja.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o estamos acostumados a gestos ousados, como este, \u00e9 claro que os pol\u00edticos aproveitaram logo para rotular o acontecimento como \u201cvedetismo\u201d. N\u00e3o \u00e9. Na verdade, o protagonista deste facto nem sequer \u00e9 o bispo, mas o povo. E o gesto, que considero corajoso, \u00e9 de algu\u00e9m que sempre esteve ao servi\u00e7o do povo pobre e que sabe como os pobres pensam, sentem; e como a opini\u00e3o dos mais simples \u00e9 sempre desprezada. <\/p>\n<p>S\u00f3 assim o povo teve relev\u00e2ncia e a causa ganhou notoriedade. <\/p>\n<p>O povo teve o protagonismo que lhe \u00e9 justo e o que pede \u00e9 que, simplesmente, se repense o projecto e que ele avance s\u00f3 depois da revitaliza\u00e7\u00e3o de um rio que, com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, est\u00e1 moribundo. Nunca ao sabor dos interesses imediatistas dos influentes empres\u00e1rios agr\u00edcolas!<\/p>\n<p>Igualmente n\u00e3o fiquei surpreendido quando a alta hierarquia da Igreja, atrav\u00e9s da Congrega\u00e7\u00e3o para os Bispos, exigiu o fim deste \u201cgesto em obedi\u00eancia \u00e0 Santa S\u00e9\u201d. Espanta-me apenas que a argumenta\u00e7\u00e3o do Cardeal Battista, prefeito daquela Congrega\u00e7\u00e3o, tenha assentado na acusa\u00e7\u00e3o de que aquela forma de protesto seria contra \u201co preceito divino de n\u00e3o extinguir a vida\u201d.<\/p>\n<p>Quem conhece as formas de resist\u00eancia pac\u00edfica, preconizadas pela grande alma Mahatma Ghandi, sabe que a greve de fome \u00e9 um dos instrumentos de luta da n\u00e3o-viol\u00eancia. T\u00e3o dif\u00edcil que n\u00e3o se pode abusar deste instrumento de resist\u00eancia, at\u00e9 porque s\u00e3o necess\u00e1rias uma grande convic\u00e7\u00e3o e uma grande prepara\u00e7\u00e3o espiritual para levar a cabo tal ac\u00e7\u00e3o, t\u00e3o radicalmente corajosa.<\/p>\n<p>Na filosofia de vida crist\u00e3, o mart\u00edrio \u00e9 dar a vida por Amor \u00e0 Causa e ao pr\u00f3ximo. No caso de Dom Frei Lu\u00eds, entrar em greve de fome foi correr o risco de perder uma vida, justificada por um bem maior, a prec\u00e1ria vida dos milhares de sertanejos ribeirinhos do S\u00e3o Francisco. Com isso, ele devolveu ao seu povo a esperan\u00e7a e mostrou que resistir, hoje, \u00e9 poss\u00edvel, necess\u00e1rio; e \u00e9 urgente, como a luta em favor dos mais pobres. <\/p>\n<p>E doar a vida em favor de uma causa t\u00e3o justa, n\u00e3o pode jamais ser encarado como suic\u00eddio. Antes ser\u00e1 uma forma de partilha radical com todos aqueles que gritam de fome, que morrem de sede e que nunca s\u00e3o ouvidos.<\/p>\n<p>P.S. Frei Lu\u00eds terminou a greve de fome a 7 de Outubro, ap\u00f3s 11 dias de coragem e da promessa de suspens\u00e3o do Projecto. O governo comprometeu-se a repensar o Plano de Transposi\u00e7\u00e3o e a estud\u00e1-lo em parceria com os movimentos populares e a sociedade civil ribeirinha do rio S\u00e3o Francisco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direitos Humanos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-5542","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5542","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5542"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5542\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5542"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5542"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5542"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}