{"id":556,"date":"2010-02-10T10:19:00","date_gmt":"2010-02-10T10:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=556"},"modified":"2010-02-10T10:19:00","modified_gmt":"2010-02-10T10:19:00","slug":"sao-macaio-deu-a-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/sao-macaio-deu-a-costa\/","title":{"rendered":"\u00abS\u00e3o Macaio deu \u00e0 costa&#8230;\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu*<\/p>\n<p>* \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4)<\/p>\n<p>Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n<p> <!--more--> VI DOMINGO TEMPO COMUM &#8211; C     <\/p>\n<p>Assim reza a tradicional cantiga a\u00e7oreana afamada por Zeca Afonso. Com nome t\u00e3o \u00abfeliz\u00bb, como \u00e9 que este navio veio a naufragar? Trata-se, na verdade, de uma forma simplificada de \u00abMac\u00e1rio\u00bb, adjectivo que, no grego antigo (antes de Cristo), s\u00f3 era aplic\u00e1vel aos seres divinos, significando que eles est\u00e3o isentos de todos os cuidados humanos. Com o tempo, aplicou-se aos seres humanos, quando a situa\u00e7\u00e3o destes fazia lembrar o bem-estar dos deuses. Estranhamente, \u00e9 com este adjectivo que S. Lucas classifica os que agora se encontram em sofrimento, por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0queles que parecem estar bem na vida.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o se sentiria em seguran\u00e7a, viajando num navio de nome t\u00e3o promissor?<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que n\u00e3o basta ter bom nome \u2013 embora convenha muito ser bem parecido!<\/p>\n<p>Quando S. Lucas fala dos \u00abmac\u00e1rios\u00bb que choram, que t\u00eam fome, que s\u00e3o pobres\u2026 e dos \u00abn\u00e3o mac\u00e1rios\u00bb que s\u00e3o ricos, fartos, e gozam de boa vida\u2026 n\u00e3o estar\u00e1 a pensar que as coisas n\u00e3o s\u00e3o o que parecem? <\/p>\n<p>\u00c9 que nem uns nem outros se definem pelo nome \u2013 como ningu\u00e9m neste mundo. Nem h\u00e1, nesta vida, \u00abnomea\u00e7\u00f5es definitivas\u00bb.<\/p>\n<p>O texto de S. Lucas \u00e9 mesmo chocante: quer pelo realismo t\u00e3o cru, quer pela dureza do estilo ao invectivar os \u00abagora felizes\u00bb. Ali\u00e1s, esta dureza condiz t\u00e3o pouco com o estilo habitual de Lucas, que h\u00e1 quem ponha em d\u00favida a autenticidade dos \u00abais\u00bb amea\u00e7adores. Por\u00e9m, a ant\u00edtese felizes\/infelizes \u00e9 uma figura liter\u00e1ria frequente em todo o Antigo Testamento e particularmente nos livros prof\u00e9ticos. N\u00e3o se trata de modo nenhum de b\u00ean\u00e7\u00e3o para uns e maldi\u00e7\u00e3o para outros (o que seria um rid\u00edculo ju\u00edzo divino \u2013 o \u00abju\u00edzo final\u00bb \u00e9 que recompensa ou castiga a orienta\u00e7\u00e3o positiva ou negativa que cada ser humano livremente tomou), mas de alerta para uns e outros: quem est\u00e1 mal n\u00e3o se deve julgar condenado e quem est\u00e1 bem n\u00e3o se deve julgar premiado. Todas as situa\u00e7\u00f5es neste mundo servem para bem e para mal. Todos sabemos muito bem que a pobreza tamb\u00e9m leva ao crime e \u00e0 guerra \u2013 mas a riqueza e poder tamb\u00e9m o fazem e de um modo muito mais planeado e sofisticado, com a l\u00f3gica fria de quem pode ser o opressor e o abusador. Por outro lado, o esfor\u00e7o conjugado de uns e outros e a sabedoria de como investir na justi\u00e7a transformariam, como diziam os profetas (ver Isa\u00edas 2,4), as espadas em arados.<\/p>\n<p>Lucas revela, nos seus escritos, sensibilidade \u00e0 \u00abquest\u00e3o social\u00bb, sabendo que o verdadeiro disc\u00edpulo de Cristo tem que se preocupar pelo bem-estar de todos (este evangelista fala muito no que pode estar implicado em \u00abser disc\u00edpulo\u00bb). S\u00e3o os nossos sentimentos e ac\u00e7\u00f5es que fornecem a mat\u00e9ria-prima para o \u00abreino de Deus\u00bb, como num campo onde h\u00e1 trigo e joio. O aparecimento de Jesus \u00e9 visto como o enraizamento do tempo da justi\u00e7a \u2013 e de um modo que continua a chocar a humanidade e a desafi\u00e1-la para superiores \u00abperformances\u00bb.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a de justi\u00e7a \u00e9 fundamental, mas definha sem o exerc\u00edcio de actos justos, seja qual for a situa\u00e7\u00e3o na vida. No texto de Lucas, a aplica\u00e7\u00e3o ao presente mostra como \u00e9 neste que se v\u00ea o futuro.<\/p>\n<p>De resto, as leituras de hoje deixam transparecer que todos desejamos ser \u00abmac\u00e1rios\u00bb (mas nunca fiando, que j\u00e1 alerta a sabedoria popular: \u00abFia-te na Virgem e n\u00e3o corras\u2026\u00bb).<\/p>\n<p>Jeremias n\u00e3o quer apostar no que morre: aposta apenas naquele que \u00e9 Vida.<\/p>\n<p>Para S. Paulo, se n\u00e3o acreditamos que Jesus Cristo vive desta Vida, n\u00e3o vale a pena ter pretens\u00f5es de a vivermos algum dia. A experi\u00eancia de Cristo vivente \u00e9 como que o prot\u00f3tipo da nossa experi\u00eancia como seres ancorados na vida e n\u00e3o na morte, por muito que esta pare\u00e7a retirar-nos da vida (nem faz sentido p\u00f4r a vida ao mesmo n\u00edvel da morte).<\/p>\n<p>E para S. Lucas? A experi\u00eancia de Deus, t\u00e3o vis\u00edvel em Jesus, alargou os nossos horizontes de vida e mostrou como s\u00e3o insuficientes e erradas as regras de jogo de uma vida estreita. \u00c9 necess\u00e1rio apostar, mesmo nos neg\u00f3cios desta vida, numa seguran\u00e7a de grande vis\u00e3o e \u00aba longo prazo\u00bb. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por nos agarrarmos ao \u00abS\u00e3o Macaio\u00bb, que este deixa de ir ao fundo (e n\u00f3s com ele). \u00abToda a gente se salvou\u00bb, continua a cantiga. Pois, porque se afastaram a tempo do \u00abS\u00e3o Macaio\u00bb\u2026 <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu* * \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4) Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-556","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/556","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=556"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/556\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}