{"id":5567,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5567"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"sa-laicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/sa-laicidade\/","title":{"rendered":"S\u00e3 laicidade"},"content":{"rendered":"<p>A s\u00e3 laicidade constitui um dos temas mais candentes da miss\u00e3o da Igreja no mundo<\/p>\n<p>A s\u00e3 laicidade faz parte da compreens\u00e3o humana da vida e da sociedade. E mais ainda, da vis\u00e3o religiosa e crist\u00e3 de todas as realidades temporais. Laico \u00e9 quem assume uma escala de valores consent\u00e2nea com o ser humano. Laico \u00e9 quem aprecia e promove a humanidade como fonte de direitos e de deveres. Laico \u00e9 quem reconhece a dignidade da pessoa em si mesma, sem quaisquer outros t\u00edtulos de valora\u00e7\u00e3o. \u201cA maior tarefa que define o melhor do crist\u00e3o \u2013 afirma Rahner no seu \u00abCurso Fundamental sobre a F\u00e9\u00bb \u2013 \u00e9 a de  ser um homem\u201d.<\/p>\n<p>Todavia, a express\u00e3o \u201claico\u201d adquire outros sentidos na nossa linguagem. Surge frequentemente a designar seguidor do laicismo, indiferente face ao religioso, anticlerical, hostil \u00e0 influ\u00eancia da Igreja na sociedade. E, por outro lado, a afirmar os valores da consci\u00eancia individual, a remeter as cren\u00e7as para o \u00e2mbito privado, a lutar por um Estado controlador da educa\u00e7\u00e3o e garante da forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o, a esvaziar a sociedade dos valores que devem dignificar e enformar a conviv\u00eancia humana e respectivas organiza\u00e7\u00f5es. Tem, por isso, um sentido negativo e n\u00e3o deve ser confundido com leigo, embora procedam ambos da mesma etimologia.<\/p>\n<p>A laicidade do Estado, de acordo com os n\u00bas 74 e 76 da Gaudium et Spes, significa que o Estado \u00e9 aut\u00f3nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s religi\u00f5es ou \u00e0s Igrejas, embora mantenha com elas uma s\u00e3 coopera\u00e7\u00e3o, em ordem a realizar o bem comum da comunidade humana. N\u00e3o tem, por isso, de ser a-religioso ou anti-religioso. N\u00e3o tem que assumir o que a sociedade organizada, a partir de associa\u00e7\u00f5es livres de cidad\u00e3os, possa realizar. N\u00e3o tem que se intrometer em tudo e estabelecer regras atrofiadoras das iniciativas dos cidad\u00e3os e, menos ainda, dos crentes e das suas confiss\u00f5es religiosas. O Estado \u00e9 aut\u00f3nomo, para servir melhor e n\u00e3o estar sujeito a influ\u00eancias que desvirtuem a sua miss\u00e3o. N\u00e3o tem que ser confessional ou interferir na vida interna das Igrejas; dever\u00e1 antes respeitar e promover a liberdade religiosa, como direito fundamental dos cidad\u00e3os. Respeitar e promover, criando condi\u00e7\u00f5es que facilitem a sua realiza\u00e7\u00e3o plena e n\u00e3o restringindo o seu alcance \u00e0 esfera privada e intimista de cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>\u201cDai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar e a Deus o que \u00e9 de Deus\u201d \u00e9 senten\u00e7a que os Evangelhos conservam como resposta de Jesus aos seus interlocutores, aquando da disputa sobre a liceidade de pagar o tributo ao Impe-rador. Esta senten\u00e7a, embora dita num contexto preciso, n\u00e3o pode transpor-se, sem mais, para a situa\u00e7\u00e3o pluralista actual. Est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o apenas a import\u00e2ncia do den\u00e1rio (moral fiscal), mas o significado do pagamento (moral pol\u00edtica). Est\u00e1 sobretudo em causa o sentido religioso: quem \u00e9 Deus, que Jesus anuncia como Senhor, e a sua rela\u00e7\u00e3o com C\u00e9sar, o Imperador..<\/p>\n<p>A imagem gravada na moeda \u00e9 de C\u00e9sar, o divino Augusto. Traz\u00ea-la consigo era fazer uma profiss\u00e3o de f\u00e9. Como era poss\u00edvel, um judeu afirmar-se fiel observante da Lei e negar, ao mesmo tempo, um dos seus preceitos fundamentais: N\u00e3o ter\u00e1s outros deuses?!<\/p>\n<p>Dai-a a C\u00e9sar, pois pertence-lhe. Jesus reconhece a fun\u00e7\u00e3o de C\u00e9sar como imperador, mas n\u00e3o como divino Augusto. Por isso, acrescenta: \u201cE a Deus o que \u00e9 de Deus\u201d. Mas de Deus \u00e9 tudo, tamb\u00e9m C\u00e9sar no exerc\u00edcio do poder. \u00c9 tudo, sobretudo a transpar\u00eancia das consci\u00eancias, a honestidade de formas de proceder, a defini\u00e7\u00e3o de regras a observar. Ou seja, a vida pol\u00edtica, econ\u00f3mica, social e religiosa. Por isso, a Igreja, seguindo o exemplo de Jesus, salvaguarda a dignidade do poder e de quem o exerce, mas pronuncia-se sobre tudo o que \u201cfere\u201d a dignidade humana, desrespeita a vida ou debilita a for\u00e7a educadora da sociedade.<\/p>\n<p>A s\u00e3 laicidade constitui um dos temas mais candentes da miss\u00e3o da Igreja no mundo: na ac\u00e7\u00e3o pastoral, na evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura, na educa\u00e7\u00e3o integral, nos diversos \u00e2mbitos onde actuam os cidad\u00e3os-crist\u00e3os.<\/p>\n<p>P. Georgino Rocha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A s\u00e3 laicidade constitui um dos temas mais candentes da miss\u00e3o da Igreja no mundo A s\u00e3 laicidade faz parte da compreens\u00e3o humana da vida e da sociedade. E mais ainda, da vis\u00e3o religiosa e crist\u00e3 de todas as realidades temporais. Laico \u00e9 quem assume uma escala de valores consent\u00e2nea com o ser humano. 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