{"id":5593,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5593"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"vazio-preocupante-e-perigoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/vazio-preocupante-e-perigoso\/","title":{"rendered":"Vazio preocupante e perigoso"},"content":{"rendered":"<p>Li, h\u00e1 poucos dias, palavras sensatas de um conhecido e apreciado historiador italiano que analisava os pol\u00edticos actuais do seu pa\u00eds, em confronto com os de d\u00e9cadas passadas. Dizia ter saudades dos tempos de luta do democrata crist\u00e3o De Gasperi e do comunista Togliati. \u201cSabia-se o que eles queriam,  o que pensavam e quais os princ\u00edpios e a ideologia que inspiravam o seus projectos, decis\u00f5es e lutas pelo bem comum\u201d. Foi acrescentando que eram pol\u00edticos com ideias e convic\u00e7\u00f5es e, apesar de advers\u00e1rios, se respeitavam mutuamente, como respeitavam as regras da democracia que, ap\u00f3s o fascismo, come\u00e7ava a implantar-se no pa\u00eds. Alargava, por fim, a sua cr\u00edtica ao que se estava passando nesses dias, por motivo das elei\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e das reac\u00e7\u00f5es ouvidas. \u201cQue diferen\u00e7a!\u201d<\/p>\n<p>Num encontro recente com gente respons\u00e1vel de duas dezenas de pa\u00edses da Europa, foi comum reconhecer-se que parecia estar a terminar o tempo da pol\u00edtica com conte\u00fados e saber, orientada por gente convicta. Por todo o lado, dominam os interesses, a \u00e2nsia do poder, o vazio ideol\u00f3gico, a perda do sentido de servi\u00e7o \u00e0 comunidade no seu conjunto. Frequentemente, os pol\u00edticos de tope s\u00e3o pessoas com quem n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dialogar, porque dizem, desdizem e contradizem, segundo as circunst\u00e2ncias, os interesses do momento e os jogos de poder. De dois nossos vizinhos, cidad\u00e3os de um pa\u00eds que est\u00e1 na ribalta, ouvi, com manifesta amargura: \u201cOs pol\u00edticos que nos governam mentem, mentem vergonhosamente, e, com um sorriso descarado, negam o que acabaram de dizer e que toda a gente ouviu. Uma l\u00e1stima!\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o deixo de reconhecer, porque \u00e9 essa a minha convic\u00e7\u00e3o e a tenho repetido muitas vezes, que a pol\u00edtica \u00e9 uma actividade digna, s\u00e9ria e necess\u00e1ria, e que h\u00e1 muita gente a trabalhar neste campo, com reconhecida dignidade e compet\u00eancia, que merece o nosso respeito e gratid\u00e3o. N\u00e3o por mera simpatia ou motivos partid\u00e1rios, mas por um dever de cidadania. Por\u00e9m, a Europa parece ter sido invadida por um enxame inc\u00f3modo de pol\u00edticos med\u00edocres ou pouco mais do que h\u00e1beis, que foram alcan\u00e7ando os postos do poder e neles se aguentam por manobras e apoios, prepot\u00eancias e favores, mas que n\u00e3o conseguem disfar\u00e7ar a pobreza das ideias, a debilidade dos crit\u00e9rios, a personalidade fr\u00e1gil, a aus\u00eancia de sentido&#8230;<\/p>\n<p>Deparamos, \u00e9 verdade, com gente na cadeira do poder, por vezes mais no interm\u00e9dio do que no cimeiro, com valores morais e \u00e9ticos, ideias claras, crit\u00e9rios ajustados, projectos fundamentados, vontade, saber e honestidade para ir mais longe. Na hora das decis\u00f5es, por\u00e9m, ou \u00e9 torpedeada por um funcion\u00e1rio de carreira, mais ou menos discreto, com secret\u00e1ria na sala do lado, ou esbarra com interesses de cima, a quem n\u00e3o faltam raz\u00f5es de ocasi\u00e3o para dizer, com um sorriso, que n\u00e3o pode ser assim.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, come\u00e7aram j\u00e1 os jogos de circo, porque n\u00e3o se sabe se vai ou n\u00e3o haver referendo, e porque voltamos a um clima de pr\u00e9-campanha. Sacodem-se os capotes, limpam-se as armas, aventam-se as insinua\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Pouco se fala de bem comum, de responsabilidade pol\u00edtica, de pa\u00eds acima dos partidos, de servi\u00e7o p\u00fablico para al\u00e9m dos interesses privados, de subsidiariedade, onde esta \u00e9 poss\u00edvel e mais eficaz.  Este vazio tem de ser denunciado e contrariado. Dizer que \u00e9 fruta do tempo, pouco ou nada resolve, porque n\u00e3o falta gente, dentro e fora do poder, que s\u00f3 gosta desta fruta de passagem. H\u00e1 que apoiar ou denunciar, quando \u00e9 caso disso. <\/p>\n<p>O dever c\u00edvico de aplaudir ou dizer que o rei vai nu, n\u00e3o se pode exprimir apenas quando nos tocam ou n\u00e3o nos direitos pessoais ou nos interesses corporativos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li, h\u00e1 poucos dias, palavras sensatas de um conhecido e apreciado historiador italiano que analisava os pol\u00edticos actuais do seu pa\u00eds, em confronto com os de d\u00e9cadas passadas. 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