{"id":5600,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5600"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"uma-qualquer-noite-de-oracao-no-meio-da-amazonia-dos-sem-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-qualquer-noite-de-oracao-no-meio-da-amazonia-dos-sem-terra\/","title":{"rendered":"Uma qualquer noite de ora\u00e7\u00e3o&#8230; no meio da Amaz\u00f3nia dos Sem Terra"},"content":{"rendered":"<p>Cheg\u00e1mos h\u00e1 tr\u00eas dias a Bel\u00e9m do Par\u00e1, a sul do delta do Amazonas. Depois de cerca de uma semana e meia da partida de Aveiro, at\u00e9 Manaus por avi\u00e3o, e, da\u00ed, de barco Rio Amazonas fora, onde fomos vendo e reflectindo um mundo novo que nos entrava olhos a dentro e nos ligava a um estado original da cria\u00e7\u00e3o, a um sentido, a uma ideia, a um vislumbre da vontade de Deus \u2013 o equil\u00edbrio entre o Homem e tudo o resto \u2013 o Amor entre todos e a inesgotabilidade da Vida!<\/p>\n<p>Toda essa pureza fomos vendo, at\u00e9 chegarmos ao Bairro da Pedreira, onde fica a Escola Salesiana do Trabalho que nos acolhe. Um bairro perif\u00e9rico, pobre, cheio de barracas, sem rosto, sem nome e sem mem\u00f3ria\u2026 Percebemos aqui uma certa pureza e beleza inicial, mas agora n\u00e3o nos lugares, nas pessoas.<\/p>\n<p>Reuni\u00e3o do Grupo B\u00edblico<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que come\u00e7a a hist\u00f3ria de ontem. Dirigimo-nos a uma casa, na companhia do Irm\u00e3o Ant\u00f3nio, salesiano h\u00e1 42 anos (dizia a brincar que estava na hora de mudar de con-grega\u00e7\u00e3o\u2026 j\u00e1 era muito tempo desde a sua terra italiana e long\u00ednqua de Turim). Com simplicidade, fomos atr\u00e1s dele pelo meio do caminho de luzes, gatos de electricidade, lama e formigas, pessoas e lixo, por entre barracas com furos de balas nas paredes.<\/p>\n<p>Fomos a casa de uma fam\u00edlia. \u00cdamos ao encontro semanal do grupo b\u00edblico \u2013 um grupo de pessoas que se juntam nas moradias de 10 metros de comprimento por 10 de largura, as melhores pelo menos.<\/p>\n<p>Muitas vezes, a porta, que parece ser de uma barraca de madeira, abre-se n\u00e3o para um corredor escuro e mofo mas para um conjunto enorme de casinhas min\u00fasculas, cada qual com a sua fam\u00edlia de seis filhos.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio, a sujidade, a madeira comida suspiram num clamor desesperado de dignidade. Como \u00e9 poss\u00edvel viver aqui, pergunto-me eu do alto das minhas sand\u00e1lias de marca\u2026<\/p>\n<p>Onde Deus mora<\/p>\n<p>Na casa desta fam\u00edlia, onde entramos descal\u00e7os, qual sinal de vida, h\u00e1 um certo respeito no gesto. \u00c0 entrada, muitos chinelos, cal\u00e7ado simples. Uma imagem que falou de carinho, de rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas. Falou de um espa\u00e7o sagrado. Aquele barraco transformou-se num pal\u00e1cio. Deus morava ali, na casa e em cada pessoa daquela comunidade. Tudo descal\u00e7o, ent\u00e3o, pois Deus ia falar aos Homens naquela noite quente e irrespir\u00e1vel. Deus ia ouvir o pedido de socorro dos seus amados filhos e ia responder, ia libertar do pesado que a pobreza an\u00f3nima arrasta para si.<\/p>\n<p>Religiosamente descontra\u00eddos, sentimo-nos em casa ao ouvirmos o repetido \u201csejam bem vindos\u201d! Os dedos dos nossos p\u00e9s, sentem bem a madeira gasta e pisada do suor e do cansa\u00e7o daquela gente. Sentimos o ch\u00e3o t\u00e3o doce e polido nos p\u00e9s\u2026 sentimos a plenitude do momento.<\/p>\n<p>Ali reunidos, ia-se falar da Vida, da comunidade, dos problemas, em desabafos, em alegrias que persistem neste peda\u00e7o de c\u00e9u ou inferno. N\u00e3o sei como lhe chamar ainda.<\/p>\n<p>Depois da partilha da vida, procuram na Palavra solu\u00e7\u00f5es, caminhos para as coisas da vida que vivem e que sonham.<\/p>\n<p>Religi\u00e3o com sentido<\/p>\n<p>Aqui, a religi\u00e3o serve mesmo para alguma coisa de muito concreto e o Amor transparece na vida desta gente que pouco tem de seu materialismo. S\u00e3o pobres mesmo, os pobres dos pobres.<\/p>\n<p>E com eles descobri o elementar suporte da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o do Brasil dos Sem Terra, ali, num barraco cheio de gente que mal sabia ler e escrever, aprendi uma coisa muito bonita. Abrindo os olhos \u00e0 diferen\u00e7a, percebo que esta gente tem uma espiritualidade ancestral muito profunda, e, ao mesmo tempo, a realidade f\u00edsica sendo muito pobre e sofredora, d\u00e1 ingredientes para as seitas obterem o dinheiro, o pouco que as pessoas possam ainda ter. Pregam que temos de sofrer muito na vida e rezar muito a Deus, pagar a Deus com dinheiro para um dia ganhar o c\u00e9u e beijar a felicidade. Mas agora&#8230; agora sofrer e pagar. Aproveitam-se das pessoas e da sua bondade, da sua candura.<\/p>\n<p>A beleza e o desafio que a Igreja Cat\u00f3lica prop\u00f5e \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o do sofrimento, da pobreza, que dar\u00e1 a felicidade&#8230; mas j\u00e1 hoje, j\u00e1 agora! Jesus viveu mostrando o Reino dos C\u00e9us j\u00e1 aqui, para o agora e sempre, e n\u00e3o s\u00f3 para depois! Temos \u00e9 de chegar a Deus; e isso \u00e9 simples para as pessoas que aqui est\u00e3o na mesma sala que n\u00f3s.<\/p>\n<p>Pobreza gera solidariedade, solidariedade gera a gra\u00e7a, comunh\u00e3o, paz&#8230; Destas, a Gra\u00e7a liga-nos a Deus, Deus \u00e9 a Gra\u00e7a suprema, e nesta Gra\u00e7a sabemos que podemos falhar, podemos errar, mas que h\u00e1 Algu\u00e9m que nos carrega ao colo, que estamos salvos por Ele, se tivermos consci\u00eancia disso. <\/p>\n<p>A Gra\u00e7a embala do Mundo<\/p>\n<p>Ali, naquela salinha, com gente sentada em cadeiras, no ch\u00e3o, eu percebo que, por mim, nunca chegaria a lado nenhum, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso, pois pela Gra\u00e7a somos levados pela m\u00e3o com o maior carinho do Mundo! Chegando \u00e0 Gra\u00e7a, chegamos a Deus, se chegamos a Deus, estamos libertos da opress\u00e3o, da pobreza, da viol\u00eancia, de todo o mal que assola este bairro que n\u00e3o chega a ser uma favela sequer.<\/p>\n<p>Liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada de pol\u00edtica. Aqui, social quer dizer comunidade; na Europa social quer dizer comunismo. Aqui, luta quer dizer empenho, projecto, sonho&#8230; na Europa quer dizer outras coisas&#8230; \u00c9 preciso lavar os olhos para entender a Am\u00e9rica Latina e a pureza dos seus sonhos e a legitimidade da sua paix\u00e3o por Jesus e pelo que Ele viveu e provou.<\/p>\n<p>No andar da noite, chocou-me imenso a refer\u00eancia que, na minha pequenez e insignific\u00e2ncia, ouvi, como todos, um problema que dilacera a esperan\u00e7a e escurece as veias de muitas m\u00e3es.<\/p>\n<p>Os gangs do bairro. A Escola dos Salesianos est\u00e1 no meio do campo de batalha. O barreiro, onde antes era lama, e a Pedreira. Os mi\u00fados dos Gangs enfrentam-se, matam-se mesmo. S\u00e3o putos mais novos que eu. H\u00e1 dois dias apenas, mataram um. Em Janeiro passado, mataram o filho da Dona Isabel, uma senhora pequenina que se sentava ao meu lado na roda apertada da sala.<\/p>\n<p>Chocou-me e doeu-me a frustra\u00e7\u00e3o, o desespero das l\u00e1grimas daquela senhora. Senti ali a incapacidade angustiante de quem n\u00e3o pode fazer nada&#8230; Ser\u00e1 que podia? Ser\u00e1 que entenderia o que aquela senhora estava a passar? N\u00e3o, julgo que n\u00e3o, que nunca perceberei enquanto n\u00e3o for pai.<\/p>\n<p>A Dona Isabel sentia-se dorida, confusa. Achava-se pecadora, porque tanto rezava na inoc\u00eancia da sua f\u00e9 e aquela trag\u00e9dia aconteceu na mesma. Acha-se pecadora, porque se n\u00e3o Deus protegia. A sensa\u00e7\u00e3o trespassante que me invadiu ali \u00e0 frente daquela senhora, pequenina, com um rosto de dor e revolta, a chorar \u00e0 minha frente, n\u00e3o a posso descrever. Foi uma sensa\u00e7\u00e3o de vertigem de quem cai e n\u00e3o pode fazer nada para parar.<\/p>\n<p>A juventude n\u00e3o tem escola, as pessoas s\u00e3o sem terra que vieram de outros lugares, onde perderam o seu s\u00edtio, as suas planta\u00e7\u00f5es de onde tiravam o que comiam e ganhavam. Fogem para as cidades \u00e0 procura do sonho da prosperidade; mas gente pura, gente da terra, n\u00e3o tem como trabalhar nas burocracias e trabalheiras t\u00e9cnicas da dita civiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tendo emprego, cresce a cintura de pobreza \u00e0 volta das cidades, as periferias pobres grassam, o desemprego, a mis\u00e9ria levam \u00e0 viol\u00eancia, que n\u00e3o leva a mais lado nenhum. \u00c9 um beco.<\/p>\n<p>As autoridades n\u00e3o fazem nada, o mundo n\u00e3o v\u00ea o que se passa; e esta \u00e9, por isso, a pior das guerras: ningu\u00e9m as v\u00ea, ningu\u00e9m as sente. \u00c9 uma guerra sem nome a dos gangs, a dos filhos desta gente boa, mas que n\u00e3o tem m\u00e3os para segurar a revolta que sente.<\/p>\n<p>Gente que n\u00e3o tem nome sequer. N\u00e3o s\u00e3o refugiados, n\u00e3o sofrem guerras militares, n\u00e3o \u00e9 gente que n\u00e3o lute pela vida, n\u00e3o \u00e9 gente de m\u00e1 fama, n\u00e3o s\u00e3o parasitas gratuitos, n\u00e3o t\u00eam associa\u00e7\u00f5es de defesa, n\u00e3o aparecem na televis\u00e3o, os pol\u00edticos de reac\u00e7\u00e3o barata n\u00e3o falam deles nos intervalos do parlamento. Esta gente n\u00e3o existe, n\u00e3o tem outro nome que o de Ningu\u00e9m. Chamam-se Nada e Ningu\u00e9ns, assim como n\u00f3s somos Manu\u00e9is e Joaquins. A maior pobreza, a mais miser\u00e1vel \u00e9 isto: a ang\u00fastia de n\u00e3o ter um Nome nem um lugar no Mundo.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o meio onde estamos e trabalhamos. \u00c9 por aqui que vamos escutando e falando. Temos falado de Portugal, de \u00c1frica, das Miss\u00f5es e da pobreza de l\u00e1. Temos partilhado olhares e sorrisos. Estranho a sensa\u00e7\u00e3o de lhes falar do que vi por \u00c1frica&#8230; Quem raio sou eu para lhes falar de fome, de necessidades, de pobreza?<\/p>\n<p>S\u00e3o eles que nos ensinam a n\u00f3s, s\u00e3o eles que nos abrem os olhos, o cora\u00e7\u00e3o, as m\u00e3os e a cabe\u00e7a, para compreender o Mundo e nunca mais regressar \u00e0 indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Aqui, seguem s\u00f3 algumas impress\u00f5es do que est\u00e1 a ser este tempo em Miss\u00e3o, segue a hist\u00f3ria de uma senhora, uma no meio de tantas, que anda curvada na rua e que ningu\u00e9m conhece neste infinito Brasil de tantos contrastes, de tanta injusti\u00e7a, de tanta for\u00e7a, que apesar de tudo continua a caminhar e a florescer. \u00c9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria desta Igreja que luta sempre ao lado de quem mais precisa e mais sofre, sempre com a mesma arma infal\u00edvel: Jesus Cristo, sofreu isto tudo na pele tamb\u00e9m&#8230; mas lutou, acreditou no Amor e deixou que o matassem sem se calar nunca&#8230; e imagine-se&#8230; est\u00e1 vivo, est\u00e1 em Gra\u00e7a&#8230; livre!<\/p>\n<p>Pedro, Paulo e Ana Laura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheg\u00e1mos h\u00e1 tr\u00eas dias a Bel\u00e9m do Par\u00e1, a sul do delta do Amazonas. 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