{"id":5612,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5612"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"vida-partilhada-com-os-sem-abrigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/vida-partilhada-com-os-sem-abrigo\/","title":{"rendered":"Vida partilhada com os sem-abrigo"},"content":{"rendered":"<p>LIVRO <!--more--> Nos pa\u00edses desenvolvidos, o \u00faltimo degrau da sociedade, a caminho da mais completa desumaniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 ocupado pelos sem-abrigo. N\u00e3o t\u00eam fam\u00edlia. N\u00e3o t\u00eam trabalho. N\u00e3o t\u00eam casa. N\u00e3o t\u00eam amigos. N\u00e3o t\u00eam conhecidos. N\u00e3o t\u00eam amor pr\u00f3prio. \u00c9 a forma mais completa de exclus\u00e3o social. A economia falhou. A fam\u00edlia falhou. A sociedade falhou. O Estado falhou. O pr\u00f3prio falhou.<\/p>\n<p>No nordeste de Fran\u00e7a e na B\u00e9lgica (de Paris a Bruxelas), o casal Michel Collard e Colette Gambiez juntam-se aos sem-abrigo. N\u00e3o para os ajudar, mas para ser como eles. Partilham dia a noite, de cidade em cidade, a vida dos sem-abrigo. Por detr\u00e1s dessa atitude est\u00e3o apelos evang\u00e9licos e franciscanos (ele \u00e9 um ex-franciscano), mas tal n\u00e3o \u00e9 afirmado aos sem-abrigo.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas li\u00e7\u00f5es a tirar com a leitura deste livro (que \u00e9 apoiado pela C\u00e1ritas portuguesa). Uma poder\u00e1 ser compreender o que vai na cabe\u00e7a de um sem-abrigo (talvez a mais importante para quem se interessa pelos pobres e a pobreza). Um par\u00e1grafo do livro entre os mil do g\u00e9nero: \u201cCerta manh\u00e3, vemos ca\u00eddo no passeio um belo peda\u00e7o de queijo, que algu\u00e9m j\u00e1 trincara. Max diz-nos que o recebeu de uma mer-cearia que oferece regularmente restos de queijo, e que foi ele que o deitou fora. Este comportamento \u00e9 frequente e magoa-nos. Na verdade, \u00e9 dif\u00edcil ver algu\u00e9m desperdi\u00e7ar aquilo que foi dado. Mas explica que agiu assim, porque tem dor de dentes. N\u00e3o \u00e9 uma desculpa com-pletamente falsa, pois ele tem uma p\u00e9ssima dentadura, e o queijo estava duro. Contudo, h\u00e1 raz\u00f5es mais profundas subjacentes a esse gesto, raz\u00f5es menos racionais e mais reais, ligadas \u00e0 psicologia do homem pobre. Sentindo-se mal consigo mesmo, o pobre j\u00e1 n\u00e3o sabe o que quer verdadeiramente: tem fome e n\u00e3o tem fome, tudo ao mesmo tempo. Deitar fora os alimentos \u00e9 uma maneira de expressar essa dificuldade de viver. Al\u00e9m disso, sente a vergonha e o desgosto constantes de ter de mendigar para viver; est\u00e1 farto de depender a toda a hora da sopa e da fatia de p\u00e3o. Contudo, parece-lhe indecente recusar a oferta a quem lha d\u00e1, embora n\u00e3o deseje verdadeiramente o objecto da mesma: deram-lhe uma sandu\u00edche, quando, secretamente, ele esperava receber dinheiro para comprar batatas fritas&#8230; (&#8230;) Dev\u00edamos ver sempre nestes gestos chocantes o sinal e o grito de uma infelicidade mais profunda\u201d.<\/p>\n<p>Viver do outro lado da barreira permite-lhes compreender melhor os meandros contradit\u00f3rios dos pobres, mas h\u00e1 uma outra li\u00e7\u00e3o, mais desconcertante: n\u00e3o \u00e9 pobre quem quer; \u00e9 quem pode (isto \u00e9, quem n\u00e3o consegue ser outra coisa). Michel e Colette esfor\u00e7am-se por ser como os sem-abrigo. Mas n\u00e3o s\u00e3o sem-abrigo, como alguns lhes apontam: \u201cOh, est\u00e1s a ver, eles tamb\u00e9m andam ao lixo, mas est\u00e3o limpos\u201d (&#8230;) \u201cN\u00e3o s\u00e3o vagabundos verdadeiros; t\u00eam os p\u00e9s muito limpos&#8230;\u201d \u201cContinuam juntos nos momentos de prova e mis\u00e9ria, \u00e9 raro [entre os sem-abrigo]\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito mais. Mas isso fica para a leitura do livro, com passagens que, se fosse num telejornal, surgiriam com a advert\u00eancia: \u201cPodem ferir a sensibilidade do espectador\u201d. Mas, se ferirem, \u00e9 porque ainda n\u00e3o estamos insens\u00edveis de todo.<\/p>\n<p>Obra: Quando o exclu\u00eddo se torna o eleito. Vida partilhada com os sem-abrigo<\/p>\n<p>Autores: Michelk Collard e Colette Gambiez<\/p>\n<p>Editora: Paulinas<\/p>\n<p>328 p\u00e1ginas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LIVRO<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[66],"tags":[],"class_list":["post-5612","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5612"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5612\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}