{"id":5622,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5622"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"paraisos-efemeros-e-ansia-de-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/paraisos-efemeros-e-ansia-de-felicidade\/","title":{"rendered":"Para\u00edsos ef\u00e9meros e \u00e2nsia de felicidade"},"content":{"rendered":"<p>O contexto social e religioso destes dias de recorda\u00e7\u00e3o e saudade, dado os sentimentos pessoais que suscita, como as experi\u00eancias dolorosas, fruto das trag\u00e9dias naturais dos \u00faltimos meses e dias, conhecidas e vividas, ao longe e ao perto, deram-me ensejo para esta reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u00e2nsia de viver e de ser feliz comanda a vida de qualquer pessoa normal. \u201cExperimentar\u201d passou a projecto motivador de muitas vidas de jovens e adultos. Fazem-se poupan\u00e7as, parte-se \u00e0 procura de terras e mares distantes, que a publicidade vende chamando-lhes \u201cpara\u00edso\u201d, exorcizam-se medos de repeti\u00e7\u00e3o de cataclismos e, sabendo, embora, que tudo \u00e9 ef\u00e9mero, a decis\u00e3o de ir mais longe, ainda que apenas geograficamente, n\u00e3o se deixa vencer facilmente por perigos vividos. De um momento para o outro, todos ficamos a saber mais de ciclones e maremotos em de terras de outros, fustigadas por for\u00e7as incontrol\u00e1veis, que provocaram morte e destrui\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>\u00c9 a \u00e2nsia de felicidade, de bem-estar, de poder dizer e contar, de novas sensa\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias, se ex\u00f3ticas tanto melhor, que vai comandando a vida. E parte-se, assim, um m\u00eas depois, para terras e situa\u00e7\u00f5es que se haviam j\u00e1 riscado da lista das viv\u00eancias desejadas e poss\u00edveis. A vida, com o seu fasc\u00ednio, ainda que a estadia no para\u00edso seja de dez ou de quinze dias.<\/p>\n<p>Nesta semana, houve multid\u00f5es de gente nos cemit\u00e9rios. Um misto de gosto e de desgosto, de dor e de saudade, de lembrar e de esquecer. Os ingredientes parecem de festa: muita gente, muitas flores, muitos abra\u00e7os, encontros de um ano que cada ano se repetem, comunica\u00e7\u00e3o pessoal bem diferente da do vel\u00f3rio, de h\u00e1 muito ou pouco tempo. Como nos ritos de festa, tudo passa depressa.<\/p>\n<p>Pouco ou nada se fala de morte, porque a morte incomoda sempre e \u00e9 p\u00e1gina a virar, sem demora, para n\u00e3o perturbar a vida. Muitos v\u00e3o ao cemit\u00e9rio, lugar de mortos, sem passagem pelo templo, lugar de vivos. Alimento de uma nostalgia ou avivar de uma esperan\u00e7a, ou apenas a ilus\u00e3o de um \u00e2nsia que n\u00e3o se consegue abafar e a que n\u00e3o se pode dar muito tempo nem alimento, porque h\u00e1 sempre recorda\u00e7\u00f5es para esquecer e c\u00e1lices dif\u00edceis de beber at\u00e9 ao fim. <\/p>\n<p>Nem o ef\u00e9mero dos para\u00edsos sonhados, nem o rito que anualmente se repete nos cemit\u00e9rios, por mais que sejam longos os caminhos andados, parecem convidar a parar para ler a vida, descobrir o seu valor e penetrar no segredo, t\u00e3o profundo, como inc\u00f3modo, do sentido da vida e da morte. Ser\u00e1 que depressa volta tudo ao mesmo, neste frenesim que se vive e onde \u00e9 preciso ter a coragem de parar, para poder viver melhor e com mais sentido? Quando os mortos deixam de nos falar no sil\u00eancio dos cemit\u00e9rios, a vida dos vivos j\u00e1 tem pouco de vida e nada de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando a cat\u00e1strofe deixa de interpelar quem podia ter sido v\u00edtima ou quando o inesperado para outros, que a todos nos pode tocar, est\u00e1 arredado de qualquer reflex\u00e3o com mais sentido, \u00e9 sinal de que a correria da vida nos foi enchendo de nada.  <\/p>\n<p>O para\u00edso n\u00e3o pode ser ef\u00e9mero, porque ele faz parte insepar\u00e1vel da \u00e2nsia pessoal de felicidade. A morte n\u00e3o atrai a morte, porque tamb\u00e9m \u00e9 mestra de vida. Parar para reflectir n\u00e3o \u00e9 tempo perdido, porque o sentido do que se faz, d\u00e1 sempre valor novo ao tempo que nos resta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O contexto social e religioso destes dias de recorda\u00e7\u00e3o e saudade, dado os sentimentos pessoais que suscita, como as experi\u00eancias dolorosas, fruto das trag\u00e9dias naturais dos \u00faltimos meses e dias, conhecidas e vividas, ao longe e ao perto, deram-me ensejo para esta reflex\u00e3o. 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