{"id":5646,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5646"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"devemos-ser-pessoas-de-relacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/devemos-ser-pessoas-de-relacao\/","title":{"rendered":"&#8220;Devemos ser pessoas de rela\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Correio do Vouga &#8211; Foi ordenado di\u00e1cono em Janeiro. \u00c9 importante ser di\u00e1cono, ou trata-se de uma quase mera formalidade a caminho do presbiterado?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Alves &#8211; Para mim foi importante ser di\u00e1cono, mas quase como est\u00e1gio de uma forma de ser e estar, diferente de quando se est\u00e1 num semin\u00e1rio. No entanto, acho que \u00e9 uma etapa desnecess\u00e1ria, talvez por isso mesmo, porque a Igreja ainda coloca muito como etapa. N\u00e3o existe perman\u00eancia no minist\u00e9rio e, no meu entender, existe ainda muita confus\u00e3o no exerc\u00edcio do minist\u00e9rio de di\u00e1cono e no minist\u00e9rio do presb\u00edtero. A Igreja n\u00e3o perdia nada em entender os graus no sacramento da ordem de forma diferente, n\u00e3o como etapas que se sucedem, mas como minist\u00e9rios diferentes unidos ao bispo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na par\u00f3quia de \u00cdlhavo. Qual tem sido o seu trabalho?<\/p>\n<p>O trabalho tem sido diverso: tenho estado mais ligado ao sector da adolesc\u00eancia e da juventude, acompanho a equipa redactorial do jornal Fam\u00edlia Paroquial, iniciei dois grupos de forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 b\u00e1sica, tenho animado algumas ditas Celebra\u00e7\u00f5es da Palavra e tamb\u00e9m presido a algumas celebra\u00e7\u00f5es de matrim\u00f3nio e funerais.<\/p>\n<p>Em seu entender, qual deve ser a \u00e1rea de trabalho pastoral que deve receber mais tempo e mais esfor\u00e7o de um padre?<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo dizer qual \u00e1rea. Acho que depende muito da par\u00f3quia ou do servi\u00e7o em que se est\u00e1, das necessidades e oportunidades. Considero, no entanto, que se deve privilegiar o contacto e a rela\u00e7\u00e3o com as pessoas. Olho \u00e0 minha volta e vejo os padres muito fechados nas suas casas e nos seus afazeres\u2026 e tamb\u00e9m vou sentindo isso. \u00c0s vezes temos medo da rela\u00e7\u00e3o, do contacto e do tacto. Sinto que devemos ser pessoas de rela\u00e7\u00e3o, estar no mundo para servir o mundo, sempre no esfor\u00e7o da transforma\u00e7\u00e3o; isso n\u00e3o se faz apenas atr\u00e1s da secret\u00e1ria nem atr\u00e1s do amb\u00e3o!<\/p>\n<p>Fala-se, por vezes, que o cristianismo perde significado na vida das pessoas. Tem notado isso no seu trabalho?<\/p>\n<p>Tenho notado que as pessoas, na sua maioria, ainda s\u00e3o crist\u00e3s e cat\u00f3licas de baptismo. O cristianismo, e tudo o que ele encerra desde a doutrina, \u00e0 moral e \u00e0 pastoral, muitas vezes \u00e9 visto como uma ideologia ou uma atitude perante a vida. Parece-me que a maioria n\u00e3o est\u00e1 convertida a Cristo, talvez a duas ou tr\u00eas ideias que Ele ensinou, mas n\u00e3o \u00e0 pessoa viva de Jesus Cristo. Isto para j\u00e1 n\u00e3o falar da Igreja, que muitas vezes se transforma como que num \u2018shopping\u2019, que as pessoas exigem que esteja sempre aberto, para comprar o que querem e quando querem. Sinto que j\u00e1 n\u00e3o vamos por tradicionalismos legalistas, mas \u00e0s vezes nem com ideias de vanguarda e criatividades espor\u00e1dicas\u2026 talvez nos faltem testemunhas vivas e palp\u00e1veis de pessoas convertidas a Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Nestes dez meses de di\u00e1cono, que acontecimentos pessoais o marcaram mais?<\/p>\n<p>A minha experi\u00eancia de voluntariado mission\u00e1rio em Mo\u00e7ambique. Foi uma boa oportunidade de ver uma cultura diferente, de experimentar a universalidade e a simplicidade da Igreja. <\/p>\n<p>Concluiu recentemente a licenciatura em Teologia. Quer resumir em tr\u00eas ou quatro frases o seu trabalho?<\/p>\n<p>Procurei ter dois pontos de partida: um livro apaixonante como o Apocalipse e a experi\u00eancia pessoal de contacto com pessoas deficientes e com o mundo do sofrimento. Procurei olhar para o Mist\u00e9rio Pascal como sinal de Vit\u00f3ria, que tamb\u00e9m ilumina a exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Ser padre \u00e9 o resultado de uma ades\u00e3o profunda a Jesus Cristo. Se algu\u00e9m lhe perguntar \u201ccomo fazer essa ades\u00e3o?\u201d, o que lhe responde?<\/p>\n<p>Talvez respondesse como Jesus: \u201cVai, vende tudo o que tens e d\u00e1 aos pobres\u201d, isto \u00e9, n\u00e3o fiques aqui parado, se j\u00e1 acreditas n\u2019Ele agora \u2018vai\u2019 e d\u00e1-te, entrega-te. Paulo VI rezava assim \u201cD\u00e1-me, Senhor, um cora\u00e7\u00e3o capaz de amar a todos, servir a todos, sofrer por todos\u201d.<\/p>\n<p>Lembra-se do primeiro dia em que desejou ser padre?<\/p>\n<p>Acho que n\u00e3o. Lembro-me que era crian\u00e7a e andava na prim\u00e1ria, quando comecei a dizer que queria ser padre.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n<p>Dar sentido ao sofrimento<\/p>\n<p>\u201cA nossa vit\u00f3ria na vit\u00f3ria de Cristo\u201d \u00e9 o t\u00edtulo da tese defendida por Jo\u00e3o Alves no Instituto Superior de Estudos Teol\u00f3gicos, em Coimbra, e que lhe concedeu o grau de licenciatura em Teologia. O trabalho consiste na an\u00e1lise de um texto b\u00edblico, do Livro do Apocalipse (Ap 11,17-18; 12,10b-12), que fala da vit\u00f3ria \u201cpor causa do sangue do cordeiro e por causa da palavra do seu testemunho\u201d. \u201cAgora chegou a salva\u00e7\u00e3o e o poder e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo\u201d (10b).<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria do fiel com Cristo \u2013 \u00e9 um dos sentidos da tese \u2013 nasce da aceita\u00e7\u00e3o de que Deus sofre com o seu Filho e, por extens\u00e3o, com a humanidade. Diz o autor: \u201cEm vez da concep\u00e7\u00e3o grega de um Deus essencialmente a-pathico, isto \u00e9, sem dor e sofrimento, temos agora o sofrimento de um Deus apaixonado, que se volta para a sua cria\u00e7\u00e3o e quer construir um sentido novo desde dentro, da sua realidade mais contradit\u00f3ria e sem-sentido, que \u00e9 o sofrimento e a morte\u201d.<\/p>\n<p>O trabalho explora os v\u00e1rios sentidos da morte de Jesus Cristo (como sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio; como reden\u00e7\u00e3o-resgate; e como satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva) e d\u00e1 pistas para entender o sofrimento. Uma das vias \u00e9 a \u201cparticipa\u00e7\u00e3o nos sofrimentos de Cristo\u201d (mist\u00e9rios pascais). O sofrimento, em vez de absurdo, pode ser obla\u00e7\u00e3o, prova\u00e7\u00e3o, convers\u00e3o ou Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Seria interessante que, excluindo a parte mais exeg\u00e9tica (an\u00e1lise t\u00e9cnica do texto), fosse tornada p\u00fablica (com algumas altera\u00e7\u00f5es e mais elementos) esta ilumina\u00e7\u00e3o crist\u00e3 sobre o sofrimento. Por vezes, esquecemo-nos que Cristo nos precedeu e que com Ele tamb\u00e9m podemos vencer o sofrimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Correio do Vouga &#8211; Foi ordenado di\u00e1cono em Janeiro. \u00c9 importante ser di\u00e1cono, ou trata-se de uma quase mera formalidade a caminho do presbiterado? Jo\u00e3o Alves &#8211; Para mim foi importante ser di\u00e1cono, mas quase como est\u00e1gio de uma forma de ser e estar, diferente de quando se est\u00e1 num semin\u00e1rio. 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