{"id":5737,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5737"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"um-cenario-de-requiem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-cenario-de-requiem\/","title":{"rendered":"Um cen\u00e1rio de requiem"},"content":{"rendered":"<p>1. O recente Dia dos fi\u00e9is defuntos e a recorda\u00e7\u00e3o dos 250 anos da ocorr\u00eancia do Terramoto de 1755 caracterizaram os primeiros dias de Novembro. Dois momentos comemorados em pleno Outono, tendo a morte e a destrui\u00e7\u00e3o como pano de fundo, mas com um horizonte de renova\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o, de vit\u00f3ria da Vida.<\/p>\n<p>2. O diagn\u00f3stico da P. foi implac\u00e1vel: ainda que numa fase incipiente, a sua mama direita tem cancro. Pela primeira vez na vida, uma not\u00edcia obriga as suas convic\u00e7\u00f5es existenciais profundas a fazerem um up grade, a evoluir numa determinada direc\u00e7\u00e3o: a sua vida, o seu corpo \u2013 a nossa vida, o nosso corpo \u2013 fazem parte de um movimento finito que tem na morte o momento culminante. Viu claramente \u00e0 sua frente aquilo que, num livro recente [Senge, P., Scharmer, O., Jaworski, J. &#038; Flowers, B. (2005). Presence. An Exploration of Profound Change in People, Organizations, and Society, Nova Iorque, Currency Books], algu\u00e9m designa por cen\u00e1rio de requiem. Para a P. este cen\u00e1rio revelou-se um contexto importante de transforma\u00e7\u00e3o pessoal: decidiu relacionar-se de maneira mais serena com os seus pais &#8211; com quem mantinha rela\u00e7\u00f5es tensas e conflituosas -, redescobriu o valor da medita\u00e7\u00e3o como instrumento que favorece o sentido da vida, consolidou ainda mais os seus v\u00ednculos familiares e fez com que ela se revelasse aos amigos uma mulher consistente e capaz de absorver o embate que a vida lhe estava a propor.<\/p>\n<p>3. O cen\u00e1rio de requiem como contexto de transforma\u00e7\u00e3o exprime-se na seguinte pergunta: \u00abSe soubermos que amanh\u00e3 (para a semana\/daqui a um m\u00eas) morremos, o que muda, hoje, na nossa vida?\u00bb. A perspectiva da morte anunciada a breve prazo que altera\u00e7\u00f5es traz \u00e0 vida de uma pessoa? Para criarmos este cen\u00e1rio, por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio operarmos um desbaste pr\u00e9vio: desafiar a convic\u00e7\u00e3o inconsciente de que somos imortais, de que vamos andar por c\u00e1 para sempre. O que n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil. \u00c9 que ter a morte \u00e0 nossa frente provoca um medo aterrador e a ilus\u00e3o da imortalidade \u00e9 uma defesa implac\u00e1vel contra ele.<\/p>\n<p>4. Talvez seja por este motivo que ainda h\u00e1 quem se dedique ao exerc\u00edcio cego e leviano das intermit\u00eancias da morte: imaginemos que a morte n\u00e3o existe\u2026 imaginemos que \u00abno dia seguinte ningu\u00e9m morreu\u00bb (primeira frase do \u00faltimo livro de Jos\u00e9 Saramago, As intermit\u00eancias da morte). Paradoxalmente, a boa not\u00edcia \u00e9 que a morte existe mesmo e que ser humano implica ser mortal. E que no dia seguinte h\u00e1 sempre algu\u00e9m que morre. E que as nossas energias devem ser utilizadas n\u00e3o na nega\u00e7\u00e3o da morte, mas na busca de um sentido para a vida. A P. precisou de um cen\u00e1rio de requiem, precisou da morte \u00e0 sua frente para despertar. Precisou deste choque existencial para que a sua vida se transformasse. N\u00e3o ser\u00e1 o que todos n\u00f3s precisamos?<\/p>\n<p>5. N\u00e3o \u00e9 uma apologia da morte. A sua evid\u00eancia ultrapassa defesas e oposi\u00e7\u00f5es. \u00c9 sim afirmar que o segredo da morte est\u00e1 na vida transformada pelo bem e pela beleza, numa vida concentrada no essencial, na redescoberta e actualiza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 realmente humano. E ser humano \u00e9 ser capaz do Divino, do Eterno, do Vitorioso sobre todas as mortes. \u00c9 receber a vida como um dom, para a entregarmos na morte com um sopro de agradecimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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