{"id":5741,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5741"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"testemunho-aberto-e-silencio-imposto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/testemunho-aberto-e-silencio-imposto\/","title":{"rendered":"Testemunho aberto e sil\u00eancio imposto"},"content":{"rendered":"<p>Foi numa par\u00f3quia distante, onde j\u00e1 n\u00e3o ia h\u00e1 muitos anos. Tinham-se feito obras de vulto como apoio pastoral ao templo, e o p\u00e1roco quis mostrar-me tudo. Pelo meio da visita, foi falando de um grande benfeitor, por sinal mu\u00e7ulmano, pessoa de haveres e de maior generosidade, com uma abertura extraordin\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o a todos quanto faziam alguma coisa pelos outros, fossem eles quem fossem. Como parecia proporcionar-se a ocasi\u00e3o, quis apresentar-me esse seu amigo. N\u00e3o foi poss\u00edvel. Eram os dias do Ramad\u00e3o e ele recolhia-se num sil\u00eancio orante. S\u00f3 aparecia quando era mesmo necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Este testemunho, que denunciava um grande respeito pelas normas da sua religi\u00e3o e por um amor efectivo ao seu pr\u00f3ximo, tocou-me e fez-me pensar.<\/p>\n<p>Na nossa sociedade, quem n\u00e3o tiver convic\u00e7\u00f5es profundas corre o rico de ser in\u00fatil e abafado pelos seus interesses ou por um sil\u00eancio que lhe \u00e9 imposto e a que n\u00e3o resiste, pelas mais variadas raz\u00f5es. H\u00e1 hoje um clima social que parece querer atirar para a clandestinidade aqueles que decidem fazer o seu caminho com liberdade interior. O ambiente em que, por vezes, se vive pesa, atrofia, denigre, mormente quando se trata de aspectos religiosos mais respeitantes \u00e0 pessoa individual e menos a express\u00f5es p\u00fablicas tradicionais. Mesmo assim, n\u00e3o falta quem se incomode com a manifesta\u00e7\u00e3o religiosa p\u00fablica, ainda que respeitosa e s\u00e9ria, vendo sempre a\u00ed agress\u00e3o gratuita aos n\u00e3o crentes e polui\u00e7\u00e3o a mais num Estado laico. <\/p>\n<p>O sil\u00eancio, imposto a outrem, \u00e9 sempre um ataque injusto \u00e0 liberdade de express\u00e3o, qualquer que seja a forma de imposi\u00e7\u00e3o. A liberdade religiosa \u00e9, se for tomada a s\u00e9rio, a mais construtiva das express\u00f5es da liberdade humana. Exprime a profundidade interior, o compromisso de uma vida, o sentido da ac\u00e7\u00e3o, a pobreza pessoal de quem s\u00f3 aposta no material e se resigna ao vazio e ao ef\u00e9mero. Ela convida \u00e0 abertura ao transcendente, n\u00e3o se conforma com o meramente exterior, denuncia as formas de mentira e opress\u00e3o. Por isso tem sido, ao longo da hist\u00f3ria, a liberdade mais perseguida, porque a mais inc\u00f3moda para quem n\u00e3o se sente interiormente livre e p\u00f5e a sua for\u00e7a no poder, seja ele pol\u00edtico, material, ideol\u00f3gico ou mesmo religioso de cariz fan\u00e1tico. Por\u00e9m, a mesma hist\u00f3ria vai dizendo que \u00e9 a \u00fanica liberdade que sobrevive a persegui\u00e7\u00f5es e ataques, cal\u00fanias e declara\u00e7\u00f5es de morte, porque \u00e9 aquela que qualquer pessoa pode guardar dentro de si e expressar e cultivar, mesmo quando o clima \u00e9 adverso. \u201cO que est\u00e1 dentro de n\u00f3s e Deus nos deu, ningu\u00e9m o rouba, se a gente n\u00e3o quiser\u201d. Assim me disse um homem humilde, mas convicto, an\u00f3nimo para mim, como eu para ele, quando, numa manh\u00e3 de Domingo, lhe dei boleia na estrada, que ambos percorr\u00edamos.<\/p>\n<p>Quem tiver for\u00e7a interior para afirmar, em qualquer circunst\u00e2ncia, o mundo da sua f\u00e9, ser\u00e1 sempre vencedor. Um testemunho aberto e p\u00fablico de uma f\u00e9 convicta e coerente, \u00e0 revelia dos ventos laicistas que sopram e v\u00e3o consolando os instalados que se negam \u00e0 procura do que o cora\u00e7\u00e3o lhes exige, e constipando muita gente de religi\u00e3o f\u00e1cil, recebida por tradi\u00e7\u00e3o, mas nunca acolhida, motivada e alimentada, \u00e9 sempre um ar novo e reconfortante numa sociedade envelhecida e vazia de sentido.<\/p>\n<p>O confronto, religioso ou n\u00e3o, entre pessoas s\u00e9rias, n\u00e3o \u00e9 oposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 express\u00e3o de respeito e de m\u00fatuo enriquecimento, de abertura e de toler\u00e2ncia activa. Para se afirmar aquilo em que se acredita n\u00e3o \u00e9 preciso destruir o outro que n\u00e3o tem o mesmo credo pol\u00edtico ou religioso. Os que lutam contra outra pessoa, n\u00e3o tendo no horizonte sen\u00e3o a sua destrui\u00e7\u00e3o, ainda que seja por displic\u00eancia ou mera sobranceria, denunciam pobreza moral e menos respeito para consigo pr\u00f3prios. Estas pessoas, que as h\u00e1 e gozam do favor da comunica\u00e7\u00e3o social, empobrecem sempre a sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi numa par\u00f3quia distante, onde j\u00e1 n\u00e3o ia h\u00e1 muitos anos. Tinham-se feito obras de vulto como apoio pastoral ao templo, e o p\u00e1roco quis mostrar-me tudo. 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