{"id":5743,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=5743"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"franca-os-paradoxos-da-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/franca-os-paradoxos-da-violencia\/","title":{"rendered":"Fran\u00e7a: os paradoxos da viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Colabora\u00e7\u00e3o dos Leitores <!--more--> A destrui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, nos sub\u00farbios de Paris e doutras cidades francesas, s\u00e3o puramente dantescas. Carros incendiados, moradores em estado de choque, as autoridades impotentes, no pano de fundo de uma sociedade que n\u00e3o consegue acreditar numa cena t\u00e3o surreal. <\/p>\n<p>Como se explica esta esp\u00e9cie de \u201centifada social\u201d? O nosso olhar constata uma viol\u00eancia primitiva e irracional, em que o \u00e1come presente \u00e9 uma explos\u00e3o social latente. Ficamos claramente convencidos de que se trata de um mal entranhado e n\u00e3o de algo epid\u00e9rmico. A sociedade moderna admite um princ\u00edpio de precaridade, onde ningu\u00e9m tem a certeza de nada: emprego, casa, futuro, cultura, direitos adquiridos&#8230; <\/p>\n<p>O que se passa em Fran\u00e7a tem que ver com uma imensa massa n\u00e3o inserida na sociedade. Aqui n\u00e3o cabe qualquer explica\u00e7\u00e3o de fundo racista, que, contudo, parece persistir em algumas franjas da sociedade francesa, adepta da solu\u00e7\u00e3o violenta da quest\u00e3o. \u00c9 claro que o modelo franc\u00eas de integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece, \u00e0 primeira vista, um paradigma a seguir. A compreens\u00e3o do fen\u00f3meno social \u201csui generis\u201d com que somos ali confrontados ajudar\u00e1 a compreender melhor: trata-se de gente nacional de uma esp\u00e9cie de \u201cterra de ningu\u00e9m\u201d, uma vez que claramente os la\u00e7os de perten\u00e7a n\u00e3o existem quer quanto ao pa\u00eds de acolhimento quer quanto aos pa\u00edses de origem. Fal\u00eancia da escolaridade, problemas sociais, sociedades perif\u00e9ricas, a fome de abund\u00e2ncia (em que o queimar autom\u00f3veis seria esp\u00e9cie de exorcismo: \u201cn\u00e3o consigo ter, ningu\u00e9m ter\u00e1!\u201d). Notemos que estamos perante um fen\u00f3meno que transcende a imagem da favela brasileira, pois aqui claramente o sentimento de ser brasileiro n\u00e3o desapareceu. Todo este surrealismo coloca-nos a pergunta: del\u00edrio ou vingan\u00e7a inconsciente? Estamos, todavia, perante um fen\u00f3meno que n\u00e3o permite uma colagem ao \u201cMaio de 68\u201d, porque este foi obra de fil\u00f3sofos, estudantes, meninos privilegiados, letrados e cultos. Estes s\u00e3o a ant\u00edtese de tudo isso; e como tal a sua viol\u00eancia parece arbitr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Este assunto tem duas cambiantes essenciais a considerar: 1\u00ba-  O caso local franc\u00eas; 2\u00ba &#8211; O bar\u00f3metro social que a Fran\u00e7a est\u00e1 a representar, no seu parece que \u201cdever hist\u00f3rico\u201d de antecipar os problemas. <\/p>\n<p>Quanto ao segundo aspecto, apenas compete dizer: estamos no caldeir\u00e3o do modelo americano, no \u00e1come de um capitalismo que tem contradi\u00e7\u00f5es mas n\u00e3o deixa de ser o modelo menos mau de todos. Quanto ao primeiro, parece claro que a sociedade francesa n\u00e3o sansiona a solu\u00e7\u00e3o violenta da quest\u00e3o, sendo certo todavia que n\u00e3o aceitar\u00e1 um paradigma social diferente do seu, porque isso repugnaria ao seu sentimento igualit\u00e1rio. A solu\u00e7\u00e3o passar\u00e1 ent\u00e3o por uma tentativa de reconcilia\u00e7\u00e3o, promessas, interac\u00e7\u00e3o com os Av\u00f3s, Pais e irm\u00e3os mais velhos, que sentir\u00e3o esta viol\u00eancia como uma fal\u00eancia pessoal e ter\u00e3o vontade de evitar a vergonha que representa a barb\u00e1rie dos seus pr\u00f3ximos. <\/p>\n<p>Para quem, como eu, viveu em Fran\u00e7a na situa\u00e7\u00e3o de imigrante, qualquer que seja a solu\u00e7\u00e3o do diferendo em causa, \u00e9 preciso evidenciar um aspecto pouco salientado at\u00e9 hoje: h\u00e1 comunidades perfeitamente integra-das, como s\u00e3o a comunidade portuguesa ou ainda as do leste europeu. Diria, ent\u00e3o, que o falhan\u00e7o \u00e9 n\u00e3o tanto do modelo de integra\u00e7\u00e3o, mas da qualidade dos seus destinat\u00e1rios. <\/p>\n<p>Um dado cultural est\u00e1 bem patente: algumas comunidades implicadas n\u00e3o acolhem os modelos ocidentais, onde o trabalho, o progresso, a responsabilidade pela sua subsist\u00eancia e promo\u00e7\u00e3o pessoal e a livre concorr\u00eancia em geral s\u00e3o valores chave. Sem podermos transfor-mar os nossos valores em paradigma universal, n\u00e3o podemos, contudo, permitir que eles sejam, sem mais, \u201cqueimados\u201d. A comunh\u00e3o nos valores universais garante a inser\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o pessoal em todos os aspectos a qualquer imigrante. <\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o que se vive em Fran\u00e7a \u00e9, ali\u00e1s, paradoxal: deveria ser considerado valor universal a solidariedade com os imigrantes, sejam eles de que origem forem. Tal foi o que aconteceu em Fran\u00e7a. N\u00e3o podemos deixar de repudiar o tratamento que se d\u00e1 aos imigrantes africanos a tentar entrar pela fronteira de Ceuta. O excesso de zelo do estado social franc\u00eas, que elegeu como paradigma a protec\u00e7\u00e3o social m\u00e1xima, tem tamb\u00e9m aqui culpas no cart\u00f3rio e padece do mesmo referido paradoxo. No meio da nuvem de fumos dos carros incendiados, vemos claramente que a Fran\u00e7a est\u00e1 a pagar por um excesso de miseric\u00f3rdia que inspirou este pa\u00eds a acolher tantos emigrantes. \u00c9 inaceit\u00e1vel tamb\u00e9m a ac\u00e7\u00e3o daqueles que, tendo sido recebidos com miseric\u00f3rdia, agora pagam com viol\u00eancia. A viol\u00eancia aqui representa uma trai\u00e7\u00e3o e uma falta de mem\u00f3ria hist\u00f3rica da referida miseric\u00f3rdia. A reclamar uma uni\u00e3o forte de toda a sociedade, como coadjuvante da ac\u00e7\u00e3o do Estado e destinada a fazer uma revolu\u00e7\u00e3o cultural, que dever\u00e1 incidir em todos aqueles que comungam de ideais racistas, convencendo-os dos benef\u00edcios da fraternidade universal, t\u00e3o historicamente enra\u00edzada no ide\u00e1rio franc\u00eas, mas tamb\u00e9m e sobretudo nos imigrantes em causa, que dever\u00e3o caminhar na direc\u00e7\u00e3o de uma verdadeira  cultura de m\u00e9rito e de trabalho. <\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tempo de paliativos; e uma vez que tal ambiente \u00e9 comum a todo o mundo ocidental, importa que nas sedes pr\u00f3prias (nomeadamente na sede das Comunidades Europeias) se equacionem os movimentos de acultura\u00e7\u00e3o e incultura\u00e7\u00e3o, que, sem ferir a dignidade pessoal do ser humano, s\u00e3o todavia uma clara contrapartida do benef\u00edcio do acolhimento: ser acolhido \u00e9 um benef\u00edcio, com as inerentes responsabilidade da cidadania que, segundo defendemos, \u00e9 um direito universal.<\/p>\n<p>Daniel  Loureiro  (emigrante em Fran\u00e7a de 1975 a 1985) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colabora\u00e7\u00e3o dos Leitores<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-5743","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espaco-comum"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5743","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5743"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5743\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5743"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5743"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5743"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}