{"id":6006,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6006"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"tirar-a-barriga-de-miserias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/tirar-a-barriga-de-miserias\/","title":{"rendered":"&#8220;Tirar a barriga de mis\u00e9rias&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Em cima da linha <!--more--> H\u00e1 dias recebi uma mensagem de correio electr\u00f3nico com uma interessante abordagem em rela\u00e7\u00e3o ao tempo do Natal. N\u00e3o era de cariz religioso, nem de boas festas, mas dizia respeito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e aos excessos que, nestas e noutras alturas, todos n\u00f3s cometemos. Ent\u00e3o, essa mensagem dizia que o que nos faz mal n\u00e3o \u00e9 o que comemos desde o Natal at\u00e9 ao Ano Novo, mas o que comemos e bebemos desde o Ano Novo at\u00e9 ao Natal. <\/p>\n<p>Dir-me-\u00e3o que, no tempo de Natal, dada a riqueza da \u00e9poca quer em valores religiosos quer em valores humanos, sociais e familiares, fazer uma abordagem ao comer e beber ser\u00e1 despropositado. Todavia, atrevo-me a pensar um pouco sobre o assunto.<\/p>\n<p>J\u00e1 por v\u00e1rias vezes, sobretudo quando se fala de festas, tais como casamentos, anivers\u00e1rios, conv\u00edvios, etc., ouvi dizerem-me, esfregando as m\u00e3os com ar de muita alegria, esta express\u00e3o: \u201cVamos tirar a barriga de mis\u00e9rias!\u201d. Confesso e compreendo que os dias festivos devem ter \u201crancho melhorado\u201d, porque tamb\u00e9m por a\u00ed passa a oportunidade de partilhar alegrias e tristezas da vida, quando, sentados a uma mesa, esquecemos o rel\u00f3gio e as toneladas de preocupa\u00e7\u00f5es que o dia a dia nos vai trazendo. <\/p>\n<p>Apesar de reconhecer e apreciar todos os aspectos positivos que as festas familiares, sociais e religiosas nos proporcionam, causa-me alguma inquieta\u00e7\u00e3o a forma como se faz a abordagem ao assunto. At\u00e9 parece que vivemos no meio das maiores car\u00eancias de ordem econ\u00f3mica e alimentar. Talvez at\u00e9 seja por brincadeira, talvez at\u00e9 por h\u00e1bito. N\u00e3o creio que se diga do fundo do cora\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, se analisarmos os factos, n\u00e3o deixaremos de chegar a uma triste conclus\u00e3o. Veja-se a forma como as pessoas comem e bebem, repare-se na quantidade de comida e bebida que ingerimos, atente-se na lista intermin\u00e1vel de saborosos pratos que constituem as ementas em dias desses. D\u00e1 mesmo a impress\u00e3o de que andamos em falta h\u00e1 muito tempo! <\/p>\n<p>Vamos reconhecer que hoje, a respeito de alimenta\u00e7\u00e3o, nada nos falta nem em qualidade nem em quantidade. Basta para tanto passarmos os olhos pelas lojas de venda desses produtos. Temos tudo, a toda a hora e ao longo de todo o ano. Na verdade, neste aspecto, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para queixas.<\/p>\n<p>Mas este tempo de Natal, necessariamente, traz-nos \u00e0 mem\u00f3ria a vida (sobreviv\u00eancia) de muitos milh\u00f5es de pessoas que t\u00eam queixas, muitas queixas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o nos seus aspectos mais b\u00e1sicos. O banco alimentar contra a fome, que recolhe alimentos a\u00ed por todo o lado, n\u00e3o \u00e9 um passatempo para brincar aos pobrezinhos. Dezenas de institui\u00e7\u00f5es estendem, nesta altura, a m\u00e3o \u00e0 caridade e generosidade, aos sentimentos e \u00e0s emo\u00e7\u00f5es de milhares de pessoas, que n\u00e3o ficam indiferentes aos gritos da mis\u00e9ria e da fome. E estes, os que verdadeiramente passam fome, e s\u00e3o a maior parte dos habitantes do nosso planeta, precisam mesmo \u00e9 de tirar a barriga de mis\u00e9rias, e n\u00e3o somente neste tempo t\u00e3o prop\u00edcio do Natal, mas todos os dias do ano. Sabemos que a fome n\u00e3o vai acabar porque o processo da mis\u00e9ria \u00e9 diariamente crescente, enquanto que o da ajuda \u00e9 meramente ocasional. <\/p>\n<p>Quem, passado o Natal, se lembra da multid\u00e3o incont\u00e1vel dos que precisam? Eles s\u00e3o os refugiados, eles s\u00e3o os leprosos, eles s\u00e3o as crian\u00e7as a morrer \u00e0 fome, as crian\u00e7as abandonadas, maltratadas e violadas, eles s\u00e3o os m\u00e1rtires de uma guerra promovida pelos donos do mundo, eles s\u00e3o os marginais e marginalizados, eles s\u00e3o os idosos, doentes e abandonados, eles s\u00e3o as v\u00edtimas do atraso e do subdesenvolvimento. Numa palavra: Eles s\u00e3o os outros, os an\u00f3nimos, e eles s\u00e3o \u201capenas\u201d a maioria. Consequ\u00eancia clara de uma (in)justi\u00e7a social e pol\u00edtica absolutamente selvagem, que, ainda por cima, vai convencendo os mais distra\u00eddos de ser este o destino inevit\u00e1vel da humanidade. <\/p>\n<p>B\u00e1rbara humanidade que come at\u00e9 lhe chegar com o dedo, que estraga a sa\u00fade por excessos de comida, e, simultaneamente, ignora e deixa morrer \u00e0 m\u00edngua milh\u00f5es de seres humanos (? )&#8230;<\/p>\n<p>Dar uma ajuda, ainda que pequena, \u00e9 importante, mas n\u00e3o basta! Apesar das nossas dificuldades econ\u00f3micas, ou da nossa abund\u00e2ncia econ\u00f3mica \u2013 tudo depende da refer\u00eancia que tomarmos \u2013 precisamos de criar um forte esp\u00edrito de partilha continuada e uma consci\u00eancia social muito apurada. <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m nasceu para ser pobre e para morrer \u00e0 fome! A trag\u00e9dia acontece quando quem tem a barriga cheia n\u00e3o quer pensar em quem tem a barriga vazia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em cima da linha<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-6006","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6006"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6006\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}