{"id":6007,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6007"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"havera-razoes-economicas-para-ser-contra-a-despenalizacao-do-aborto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/havera-razoes-economicas-para-ser-contra-a-despenalizacao-do-aborto\/","title":{"rendered":"Haver\u00e1 raz\u00f5es econ\u00f3micas para ser contra a despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto?"},"content":{"rendered":"<p>Pensar a vida <!--more--> O tema que me foi dado fez-me pensar na despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto por um prisma diferente do habitual. Deverei come\u00e7ar por esclarecer o leitor de que fui, sou e serei contra a licitude do aborto a pedido. E sou-o por muitas raz\u00f5es, que t\u00eam a ver com alguns dos princ\u00edpios sobre os quais creio que uma sociedade justa e fraterna deve ser constru\u00edda, como o do respeito da vida humana em todas as suas formas e estados, o da harmonia com a Natureza ou o da responsabilidade das pessoas pelas suas ac\u00e7\u00f5es. Em momento algum, no entanto, tinha eu tentado olhar para esta quest\u00e3o a partir da minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica como economista. Vejamos o que resultou\u2026<\/p>\n<p>Haver\u00e1 raz\u00f5es da economia para ser contra a despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto a pedido at\u00e9 um qualquer prazo adivinhado atrav\u00e9s de uma humana busca do instante, diferente do da fecunda\u00e7\u00e3o (?!), em que teria in\u00edcio a \u201cverdadeira\u201d vida? Assim de chofre, talvez pare\u00e7a que n\u00e3o. A ci\u00eancia que estuda a escolha das utiliza\u00e7\u00f5es alternativas de recursos escassos, com vista a satisfazer as necessidades das pessoas, a ci\u00eancia que estuda o lado \u201cmaterial\u201d do desenvolvimento, a ci\u00eancia que se constituiu \u00e0 volta de um modelo que, no essencial, sup\u00f5e que \u00e9 na liberdade dos indiv\u00edduos (enquanto consumidores e enquanto produtores) que assenta a efici\u00eancia do sistema produtivo, esta ci\u00eancia n\u00e3o parece ter nada a ver com quest\u00f5es como a origem de uma vida ou a licitude de um comportamento que elimina um ser que nem consome nem produz. De um certo ponto de vista, poderia at\u00e9 argumentar-se que, havendo gente que deseja abortar (a \u201cprocura\u201d\u2026), o sistema econ\u00f3mico acaba por criar um ramo de actividade (a \u201coferta\u201d que satisfaz essa procura) que vai mobilizar recursos da sociedade, p\u00fablicos ou privados, e gerar um valor acrescentado que ser\u00e1 distribu\u00eddo sob a forma de sal\u00e1rios, lucros e rendas. O aborto a pedido pode ser visto, portanto, como uma oportunidade de neg\u00f3cio, com efeitos positivos na dinamiza\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que os economistas sabem hoje que um dos problemas que mais afligem as sociedades desenvolvidas \u00e9 o da brutal quebra da fecundidade, que se verifica h\u00e1 algumas d\u00e9cadas: as pessoas, de facto, deixaram pura e simplesmente de ter filhos, por raz\u00f5es que n\u00e3o cabe aqui abordar, e o conjunto dessas muitas decis\u00f5es individuais tem efeitos funestos sobre o futuro dos sistemas de seguran\u00e7a social, sobre o futuro dinamismo e grau de inova\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f3mico, etc. Neste contexto, poder\u00edamos ser tentados a argumentar economicamente contra o aborto a pedido, pelos seus \u00f3bvios efeitos antinatalistas. Tal implicaria, no entanto, assumir um princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade em que a vontade da pessoa se deve subjugar aos interesses do colectivo: seria, por assim dizer, algo semelhante, embora de sinal contr\u00e1rio, ao que se passa com a pol\u00edtica chinesa de um filho por fam\u00edlia. <\/p>\n<p>Querer\u00e1 isto tudo dizer que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel argumentar economicamente contra a despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto a pedido? Apesar de tudo, creio que se pode. \u00c9 que, apesar de os economistas pouco falarem disso, os neg\u00f3cios, a confian\u00e7a nos mercados e o desenvolvimento das economias implicam necessariamente um fundamento \u00e9tico nas sociedades \u2013 basta ver como n\u00e3o se desenvolvem as sociedades em que campeia a corrup\u00e7\u00e3o\u2026 N\u00e3o arrisco muito, portanto, se disser que tudo o que, nos dias de hoje, contribua para refor\u00e7ar a \u00e9tica do respeito para com o outro, para acentuar o \u201cdever ser\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao que parece ser, para condenar o facilitismo e acentuar a responsabilidade de cada um tem efeitos fant\u00e1sticos sobre o potencial de desenvolvimento econ\u00f3mico das sociedades. E o combate \u00e0 licitude do aborto a pedido \u00e9 um importante factor deste combate.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo Barbosa de Melo<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo Barbosa de Melo, economista, assistente na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreve a convite da ADAV\/Aveiro \u2013 Associa\u00e7\u00e3o de Apoio e Defesa da Vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensar a vida<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-6007","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6007","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6007"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6007\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}