{"id":6134,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6134"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-insustentavel-leveza-do-gas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-insustentavel-leveza-do-gas\/","title":{"rendered":"A insustent\u00e1vel leveza do g\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>Educar&#8230; Hoje <!--more--> N\u00e3o sei com que periodicidade, na minha adolesc\u00eancia, ajudei a levar uma botija de g\u00e1s do r\u00e9s-do-ch\u00e3o para o segundo andar, num pr\u00e9dio sem elevador, subindo 45 degraus. Apesar do mau jeito, um estratagema paterno equilibrava o peso na subida. Quando apareceram as rodinhas para as botijas de g\u00e1s, a aquisi\u00e7\u00e3o minorou o esfor\u00e7o nuns escassos seis metros. Recentemente, o g\u00e1s canalizado veio facilitar-nos a vida. <\/p>\n<p>Confesso que nunca mais tinha pensado no esfor\u00e7o que fazia para ter \u00e1gua quente no banho \u2013 que era interrompido abruptamente por uma chuveirada fria, reveladora da falta de g\u00e1s e da nossa imprevid\u00eancia! H\u00e1 cerca de um m\u00eas, essas recorda\u00e7\u00f5es de esfor\u00e7o e trabalho, aprendido na adolesc\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 pelo carregamento de botijas escadas acima, mas tamb\u00e9m por causa dele, vieram ao de cima. Foi uma publicidade a garrafas de g\u00e1s, cujo peso n\u00e3o \u00e9 superior ao de uma pluma, que me trouxe \u00e0 mem\u00f3ria os factos j\u00e1 apresentados. E tive de me render \u00e0 evid\u00eancia que uma pluma \u00e9 bem mais leve que os 13 kg l\u00edquidos da garrafa de g\u00e1s da minha adolesc\u00eancia; que nunca me passou pela cabe\u00e7a a profiss\u00e3o de \u201cmenina do g\u00e1s\u201d (mais uma para acrescentar \u00e0s idealizadas por crian\u00e7as e adolescentes: pol\u00edcia, bombeiro, actor, astronauta, menina do g\u00e1s). Outra evid\u00eancia: quando eu ajudava a transportar a garrafa de g\u00e1s, n\u00e3o era t\u00e3o alta como a \u201cmenina do g\u00e1s\u201d, nem me vestia t\u00e3o bem como ela! Por tudo isso, a profiss\u00e3o n\u00e3o me assentaria!<\/p>\n<p>Discuti esta op\u00e7\u00e3o profissional com alguns amigos, alegando que o facto de terem escolhido uma rapariga t\u00e3o bonita, numa indument\u00e1ria t\u00e3o reduzida, reduzia, enfim, os sonhos de tantas meninas que gostariam de seguir aquelas passadas, abra\u00e7ando tal profiss\u00e3o. Foi-me respondido que estava a ver mal, que o an\u00fancio era realmente bonito e n\u00e3o tinha nada que se lhe apontasse de negativo. Ali\u00e1s, recentemente, ganhou um Pr\u00e9mio de melhor an\u00fancio publicit\u00e1rio. Quando argumentei que a publicidade era machista, porque promovia o voyeurisme e a explora\u00e7\u00e3o gratuita do corpo feminino, a contra-argumenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fez esperar. Afinal, n\u00e3o seria eu capaz de me abstrair daquele grupo de homens a comentar e a apreciar a menina que passa, formosa e segura (ao contr\u00e1rio da Leonor de Cam\u00f5es que vai \u00e0 fonte \u201cfermosa e n\u00e3o segura\u201d), numa farda reduzida, mas n\u00e3o indecorosa, porque na praia os biquinis s\u00e3o mais decotados? Tamb\u00e9m n\u00e3o consegui convencer os meus amigos, quando lhes pedi que ouvissem o an\u00fancio radiof\u00f3nico. Ouve-se qualquer coisa como: um grupo de homens re\u00fane-se na casa de um deles, minutos antes de chegar a \u201cmenina do g\u00e1s\u201d. H\u00e1 um que diz ter inventado uma reuni\u00e3o \u00e0 \u00faltima da hora, para poder ir ali, pois conv\u00e9m que a mulher n\u00e3o saiba desta \u201cescapadinha\u201d (que n\u00e3o \u00e9 infidelidade). Rematou-se a discuss\u00e3o: estes an\u00fancios \u201cpluma\u201d s\u00e3o obras de arte, que n\u00e3o pretendem transmitir qualquer ideia sexista. S\u00f3 mais uma informa\u00e7\u00e3o: os meus amigos, que participaram da discuss\u00e3o, s\u00e3o homens e mulheres. <\/p>\n<p>A minha opini\u00e3o: n\u00e3o posso deixar de reagir, pois, mesmo concordando que o filme, em termos est\u00e9ticos, est\u00e1 bem feito, esta publicidade perpetua uma atitude social do comportamento masculino face \u00e0 presen\u00e7a feminina. H\u00e1 an\u00fancios que apresentam a situa\u00e7\u00e3o inversa, o que \u00e9 de igual modo reprov\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sugest\u00e3o: fa\u00e7a o mesmo exerc\u00edcio de discuss\u00e3o com os seus amigos a prop\u00f3sito de outro an\u00fancio. N\u00e3o se lembra de nenhum? E aquele \u201cExplica-me como se eu fosse muito burra.\u201d?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Educar&#8230; Hoje<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-6134","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6134","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6134"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6134\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}