{"id":629,"date":"2010-02-17T09:30:00","date_gmt":"2010-02-17T09:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=629"},"modified":"2010-02-17T09:30:00","modified_gmt":"2010-02-17T09:30:00","slug":"temos-que-dedicar-mais-tempo-a-ouvir-as-pessoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/temos-que-dedicar-mais-tempo-a-ouvir-as-pessoas\/","title":{"rendered":"&#8220;Temos que dedicar mais tempo a ouvir as pessoas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Em\u00edlio Gonz\u00e1lez Maga\u00f1a, 57 anos, \u00e9 padre jesu\u00edta, professor de Teologia Espiritual na Universidade Gregoriana, em Roma. Mexicano, entrou para os jesu\u00edtas em 1978, depois de se ter formado em Contabilidade e de ter trabalhado seis anos para o Estado mexicano, fazendo auditorias a empresas. Foi ordenado em 1988. Fez o doutoramento em Teologia em Madrid e coordenou as seis universidades que a Companhia de Jesus tem no M\u00e9xico ao mesmo tempo que participou num projecto latino-americano de defini\u00e7\u00e3o do estilo de educa\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas. Desde h\u00e1 nove anos \u00e9 professor em Roma. Esteve em Aveiro para falar ao clero nas jornadas de forma\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 A proclama\u00e7\u00e3o do Ano Sacerdotal por Bento XVI significa que a identidade do padre est\u00e1 em crise, que precisa de ser discutida, aprofundada, valorizada, n\u00e3o s\u00f3 por padres, mas tamb\u00e9m por leigos?<\/p>\n<p>P.E EM\u00cdLIO MAGA\u00d1A &#8211; Sobretudo depois do Conc\u00edlio Vaticano, com o desejo de a Igreja dar aos leigos o seu lugar, houve muitos sacerdotes que entraram em crise. Efectivamente houve uma crise. Parece que estamos a sair, contudo, h\u00e1 em muitos sacerdotes, em muitos partes do mundo, uma falta de solidez naquilo que somos. A nossa identidade n\u00e3o est\u00e1 onde devia estar. Por vezes, o sacerdote procura noutros lados o que deveria encontrar no seu minist\u00e9rio. A identidade do sacerdote tem de estar sobretudo no cora\u00e7\u00e3o de Cristo, no servi\u00e7o, na entrega total do Senhor aos outros. O Ano Sacerdotal procura justamente que o sacerdote reflicta no que est\u00e1 chamado a ser e tamb\u00e9m no que as pessoas querem e precisam que seja. O Santo Padre insiste que temos de ser sobretudo homens de Deus, capacitados para responder aos desafios dos nossos dias, com uma alta prepara\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, sociol\u00f3gica pedag\u00f3gica, sim, mas acima de tudo homens de Deus, ao servi\u00e7o de Deus numa igreja determinada. E por isso apresenta-nos um modelo, o Cura d\u2019Ars, que foi um homem completamente entregue ao seu minist\u00e9rio sacerdotal. Foi algu\u00e9m com poucas luzes intelectuais, com uma prepara\u00e7\u00e3o sem grande brilho teol\u00f3gico, mas que se entregou at\u00e9 \u00e0 morte num servi\u00e7o recatado, que foi o do confession\u00e1rio e da ora\u00e7\u00e3o pelos pecadores, o da disponibilidade cont\u00ednua para as pessoas. \u00c9 o verdadeiro sentido de ser sacerdote hoje.<\/p>\n<p>At\u00e9 h\u00e1 pouco o Cura d\u2019Ars era um modelo esquecido. Para um p\u00e1roco de aldeia, podia ser um modelo adequado. Mas j\u00e1 nem h\u00e1 aldeias como havia\u2026 Os padres t\u00eam v\u00e1rias par\u00f3quias, muitos servi\u00e7os. A cultura das aldeias \u00e9 igual \u00e0 urbana. Ainda \u00e9 modelo?<\/p>\n<p>Pois. Temos uma grande tenta\u00e7\u00e3o de andar com senhores falsos. Por vezes, julgamos que o sacerdote bem preparado \u00e9 o que tem muitos livros publicados, muitas confer\u00eancias dadas, muitos pa\u00edses visitados. Pensamos que tem de ser um grande guru da teologia, da espiritualidade, da filosofia, da psicologia\u2026. H\u00e1 a\u00ed um grande erro. O sacerdote pode acreditar que \u00e9 mais porque aparece mais, porque tem mais \u00eaxito, porque publicou n\u00e3o sei quantas hist\u00f3rias\u2026 O Cura d\u2019Ars apresenta-se a todos os sacerdotes \u2013 foi nomeado o padroeiro de todos \u2013 como modelo de sacerdote simples, mas n\u00e3o tonto, simples, mas n\u00e3o ing\u00e9nuo. Simples. O Cura d\u2019Ars foi duramente criticado pelos seus pr\u00f3prios irm\u00e3os sacerdotes. Tamb\u00e9m isso nos faz pensar que, \u00e0s vezes, em vez de criarmos fraternidade sacerdotal, atacamo-nos, somos rivais.<\/p>\n<p>Um dos temas de que falou ao clero de Aveiro foi esse, o da fraternidade presbiteral. Um leigo poderia interrogar-se: \u201c\u00c9 preciso falar da fraternidade aos padres? Eles n\u00e3o deveriam ser os primeiros promotores da fraternidade entre eles?\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 um ponto que, de facto, devemos corrigir. Primeiro, temos de rezar muito para percebermos que somos causa de esc\u00e2ndalo porque n\u00e3o somos irm\u00e3os. A fraternidade sacerdotal \u00e9 algo em que temos de crescer muito. E isso passa por v\u00e1rios \u00e2mbitos: aprender a trabalhar em equipa; aprender a valorizar as riquezas e o carisma dos outros; aprender a ajudar e a ser ajudado. \u00c9 o que nos diz S. Paulo: somos um corpo. Se eu n\u00e3o estou sereno, se n\u00e3o me aceito, invejo os carismas do outro, invejo o sacerdote que tem \u00eaxito em alguma \u00e1rea da pastoral, que tem \u00eaxito como confessor, professor ou pregador. Temos de apostar na fraternidade sacerdotal para pedir aos nossos irm\u00e3os leigos que vivam como irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Faz parte de uma comunidade, os jesu\u00edtas. Mas os padres diocesanos n\u00e3o t\u00eam comunidade. S\u00e3o poucos os que vivem em equipa. Isso n\u00e3o dificulta a fraternidade?<\/p>\n<p>O padre diocesano tem algumas desvantagens em rela\u00e7\u00e3o aos religiosos, mas insisto em algo muito simples: crer n\u00e3o somente com a cabe\u00e7a mas com o cora\u00e7\u00e3o de que fazem parte de um presbit\u00e9rio. \u201cO presbit\u00e9rio da minha diocese \u00e9 a minha fam\u00edlia e a minha comunidade\u201d \u2013 insisto muito nisto. O desafio de uma fraternidade sacerdotal diocesana \u00e9 crer que \u00e9 poss\u00edvel serem irm\u00e3os, \u00e9 aprender a trabalhar juntos, aprender a criar espa\u00e7os de unidade, de colabora\u00e7\u00e3o, de respeito, de visitas m\u00fatuas, de ajuda, de se corrigirem. \u00c9 preciso aceitar as diferen\u00e7as e ter a valentia e a coragem para receber e pedir ajuda quando as coisas n\u00e3o v\u00e3o bem. A fraternidade sacerdotal ajuda a suportar os fracassos, porque o sacerdote enfrenta realmente essa possibilidade. A fraternidade sacerdotal ajuda-me a sentir o apoio dos outros. Com fraternidade, eu n\u00e3o sou julgado, n\u00e3o sou criticado, mas sou apoiado, impulsionado, corrigido. \u00c9 importante sentir que algu\u00e9m est\u00e1 comigo e me ajuda a corrigir erros. Na vida diocesana, como na vida religiosa, \u00e9 um risco muito grande que n\u00e3o nos ajudem ou que n\u00e3o nos deixemos ajudar. \u00c0s vezes ficamos escandalizados com alguns irm\u00e3os, mas tamb\u00e9m somos motivo de esc\u00e2ndalo quando n\u00e3o nos respeitamos, quando dizemos mal uns dos outros, quando n\u00e3o criamos corpo de igreja, quando criamos grupos contra o bispo\u2026 H\u00e1 muitos temas para rezar, rever e corrigir. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o temos o direito a incentivar os nossos irm\u00e3os leigos a viver em fam\u00edlia e em fidelidade\u2026 Para poder exigir, temos de come\u00e7ar por n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Uma das queixas que mais se ouvem da parte dos leigos \u00e9 que os padres n\u00e3o t\u00eam tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 algo que n\u00f3s, padres, temos de rever. Antes, o sacerdote estava mais dispon\u00edvel para escutar as pessoas. Obviamente, as pessoas n\u00e3o iam ao psic\u00f3logo. O sacerdote, sem ser psic\u00f3logo, entendia as pessoas, escutava-as e fazia a sua miss\u00e3o pastoral da cura de almas, de estar com a pessoa, de cuidar da pessoa. Creio que temos de rever o tempo que dedicamos a ouvir as pessoas. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, porque requer muita paci\u00eancia, muito tempo, muito amor para escutar. Requer saber escutar. De facto, as pessoas n\u00e3o encontram padres com uma grande disponibilidade para ouvi-las. E n\u00f3s, padres, em muitos casos, esquecemos de assumir mais o minist\u00e9rio da direc\u00e7\u00e3o espiritual e o sacramento da confiss\u00e3o. \u00c9 urgente voltar a valorizar o sacramento da confiss\u00e3o e ajudar as pessoas atrav\u00e9s da direc\u00e7\u00e3o espiritual. Isto requer uma prepara\u00e7\u00e3o e sobretudo a atitude de querer ouvir as pessoas.<\/p>\n<p>CV &#8211; O padre tem de estar sempre a aprender a ser padre?<\/p>\n<p>PADRE EM\u00cdLIO MAGA\u00d1A &#8211; O sacerdote de hoje tem de aprender com os 30 anos de solid\u00e3o e de vida oculta de Jesus. N\u00e3o sabemos praticamente nada desse tempo. O que significa? Significa aprender a servir, aprender a ser homem, no anonimato, na mais recatada solid\u00e3o. H\u00e1 aqui um paradoxo e o sacerdote tem de aprender isso. Enquanto o homem do nosso tempo quer subir, quer ser importante, quer ter dinheiro, que ter um nome, ser reconhecido, brilhar, Deus esconde-se. O homem quer subir e Deus esconde-se. H\u00e1 aqui uma mensagem muito importante para o sacerdote: aprender a partir da encarna\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Jesus encarnou num povo pobre, esquecido, insignificante. O sacerdote de hoje tem de formar-se nisso: n\u00e3o aspirar ao brilho, mas a ser como Jesus. Ali\u00e1s, hoje ser sacerdote j\u00e1 nem \u00e9 motivo de orgulho para uma fam\u00edlia, como era noutros tempos. <\/p>\n<p>Poder\u00e1 ser essa, tamb\u00e9m, uma raz\u00e3o para a crise vocacional na Europa? Ou reside na identidade do pr\u00f3prio sacerdote?<\/p>\n<p>A crise vocacional n\u00e3o acontece s\u00f3 por causa de uma crise de identidade sacerdotal ou porque n\u00e3o soubemos contagiar os jovens com a nossa voca\u00e7\u00e3o. As fam\u00edlias reduziram-se notavelmente, t\u00eam um ou dois filhos. Antes a fam\u00edlia promovia a voca\u00e7\u00e3o sacerdotal. Agora n\u00e3o. \u00c9 preciso animar a fam\u00edlia como s\u00edtio onde se forma a voca\u00e7\u00e3o, ajud\u00e1-las a ser ge-nerosas, falar-lhes do sacerd\u00f3cio como uma possibilidade antiga de ser feliz e fazer felizes os outros\u2026 A fam\u00edlia \u00e9 fundamental na promo\u00e7\u00e3o vocacional. As fam\u00edlias pequenas t\u00eam de ser generosas quando um filho pensa na possibilidade de ser padre. Por outro lado, toca-nos dar outra imagem do sacerd\u00f3cio. O padre d\u00e1 uma imagem de tristeza, de cansa\u00e7o, como se tiv\u00e9ssemos escolhido uma voca\u00e7\u00e3o se segunda. Parece que vivemos com um complexo de inferioridade em rela\u00e7\u00e3o aos cientistas, professores ou advogados e um complexo de superioridade em rela\u00e7\u00e3o aos leigos, aos di\u00e1conos permanentes, \u00e0s mulheres. Por isso, tornamo-nos clericalistas. Temos de mudar a imagem e de saber criar comunidade com o que somos: sacerdotes simples, com problemas, com sonhos, com dificuldades, gra\u00e7as e qualidades. Temos de nos entregar ao Senhor nesta Igreja com o que temos e somos.<\/p>\n<p>O que foi determinante na sua voca\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A minha vida era normal. Pensava em casar-me. Estava muito apaixonado, mas sentia que havia mais alguma coisa. A minha m\u00e3e era muito crente. O meu pai, sendo crente, era muito pr\u00e1tico. Era m\u00e9dico e tinha uma grande caridade. Encontrei na minha fam\u00edlia algo que tenho agora na comunidade de jesu\u00edtas: possibilidade de explicita\u00e7\u00e3o da f\u00e9 no culto e do culto no servi\u00e7o. Tive tamb\u00e9m o exemplo de dois tios padres (um jesu\u00edta e outro diocesano) e uma tia religiosa. Falaram-me do sacerd\u00f3cio. Mas, decisivo para mim, foi querer viver intensamente. Os espanh\u00f3is t\u00eam uma express\u00e3o de que gosto muito: \u201cvivir a tope\u201d (viver ao m\u00e1ximo). Eu queria viver ao m\u00e1ximo, com mais liberdade para amar, para me entregar. Encontrei isso no profundo amor a um Senhor que, com o tempo, fui percebendo melhor, no amor a um Deus que me chama a dar as minhas mis\u00e9rias e debilidades para que outros tenham vida. Foi e continua a ser isto o fundamental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em\u00edlio Gonz\u00e1lez Maga\u00f1a, 57 anos, \u00e9 padre jesu\u00edta, professor de Teologia Espiritual na Universidade Gregoriana, em Roma. Mexicano, entrou para os jesu\u00edtas em 1978, depois de se ter formado em Contabilidade e de ter trabalhado seis anos para o Estado mexicano, fazendo auditorias a empresas. Foi ordenado em 1988. 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