{"id":6374,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6374"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"jesus-ao-ver-as-multidoes-encheu-se-de-compaixao-por-elas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/jesus-ao-ver-as-multidoes-encheu-se-de-compaixao-por-elas\/","title":{"rendered":"&#8220;Jesus, ao ver as multid\u00f5es, encheu-Se de compaix\u00e3o por elas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2006 <!--more--> \u00c0 luz da compaix\u00e3o de Jesus pelas multid\u00f5es, Bento XVI reflecte nesta Quaresma sobre o desenvolvimento humano integral.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/p>\n<p>A Quaresma \u00e9 o tempo privilegiado da peregrina\u00e7\u00e3o interior at\u00e9 \u00c0quele que \u00e9 a fonte da miseric\u00f3rdia. Nesta peregrina\u00e7\u00e3o, Ele pr\u00f3prio nos acompanha atrav\u00e9s do deserto da nossa pobreza, amparando-nos no caminho que leva \u00e0 alegria intensa da P\u00e1scoa. Mesmo naqueles \u00abvales tenebrosos\u00bb de que fala o Salmista (Sl 23, 4), enquanto o tentador sugere que nos abandonemos ao desespero ou deponhamos uma esperan\u00e7a ilus\u00f3ria na obra das nossas m\u00e3os, Deus guarda-nos e ampara-nos. Sim, o Senhor ouve ainda hoje o grito das multid\u00f5es famintas de alegria, de paz, de amor. Hoje, como ali\u00e1s em todos os per\u00edodos, elas sentem-se abandonadas. E todavia, mesmo na desola\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria, da solid\u00e3o, da viol\u00eancia e da fome, que atinge indistintamente idosos, adultos e crian\u00e7as, Deus n\u00e3o permite que as trevas do horror prevale\u00e7am. De facto, como escreveu o meu amado Predecessor Jo\u00e3o Paulo II, h\u00e1 um \u00ablimite imposto ao mal, (\u2026) a Miseric\u00f3rdia Divina\u00bb (Mem\u00f3ria e identidade, 58). Foi nesta perspectiva que quis colocar, no in\u00edcio desta Mensagem, a observa\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica de que \u00abJesus, ao ver as multid\u00f5es, encheu-Se de compaix\u00e3o por elas\u00bb (Mt 9, 36). \u00c0 luz disto, queria deter-me a reflectir sobre uma quest\u00e3o muito debatida pelos nossos contempor\u00e2neos: o desenvolvimento. Tamb\u00e9m hoje o \u00abolhar\u00bb compassivo de Cristo pousa incessantemente sobre os homens e os povos. Olha-os ciente de que o \u00abprojecto\u00bb divino prev\u00ea o seu chamamento \u00e0 salva\u00e7\u00e3o. Jesus conhece as ins\u00eddias que se levantam contra esse projecto, e tem compaix\u00e3o das multid\u00f5es: decide defend\u00ea-las dos lobos, mesmo \u00e0 custa da sua pr\u00f3pria vida. Com aquele olhar, Jesus abra\u00e7a os indiv\u00edduos e as multid\u00f5es e entrega-os todos ao Pai, oferecendo-Se a Si mesmo em sacrif\u00edcio de expia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais que solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, a verdade<\/p>\n<p>Iluminada por esta verdade pascal, a Igreja sabe que, para promover um desenvolvimento integral, \u00e9 necess\u00e1rio que o nosso \u00abolhar\u00bb sobre o homem seja id\u00eantico ao de Cristo. De facto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, de modo algum, separar a resposta \u00e0s necessidades materiais e sociais dos homens da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades profundas do seu cora\u00e7\u00e3o. Isto deve ser ressaltado muito mais numa \u00e9poca como a nossa, de grandes transforma\u00e7\u00f5es, em que nos damos conta, de forma cada vez mais viva e urgente, da nossa responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o aos pobres do mundo. J\u00e1 o meu venerado Predecessor Papa Paulo VI com exactid\u00e3o classificava os danos do subdesenvolvimento como uma subtrac\u00e7\u00e3o de humanidade. Neste sentido, ele denunciava, na Enc\u00edclica Popu-lorum progressio, \u00abas car\u00eancias materiais dos que s\u00e3o privados do m\u00ednimo vital, e as car\u00eancias morais dos que s\u00e3o mutilados pelo ego\u00edsmo&#8230; as estruturas opressivas, quer provenham dos abusos da posse ou do poder, da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores ou da injusti\u00e7a das transac\u00e7\u00f5es\u00bb (n. 21). Como ant\u00eddoto para esses males, Paulo VI sugeria n\u00e3o s\u00f3 \u00aba considera\u00e7\u00e3o crescente da dignidade dos outros, a orienta\u00e7\u00e3o para o esp\u00edrito de pobreza, a coopera\u00e7\u00e3o no bem comum, a vontade da paz\u00bb, mas tamb\u00e9m \u00abo reconhecimento, pelo homem, dos valores supremos, e de Deus que \u00e9 a origem e o termo deles\u00bb (ibid.). Nesta linha, o Papa n\u00e3o hesitava em propor, \u00abfinalmente e sobretudo, a f\u00e9, dom de Deus acolhido pela boa vontade do homem, e a unidade na caridade de Cristo\u00bb (ibid.). Por conseguinte, o \u00abolhar\u00bb de Cristo sobre a multid\u00e3o obriga-nos a afirmar os verdadeiros conte\u00fados daquele \u00abhumanismo total\u00bb que, sempre segundo Paulo VI, consiste no \u00abdesenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens\u00bb (ibid., n. 42). Por isso, a primeira contribui\u00e7\u00e3o que a Igreja oferece para o desenvolvimento do homem e dos povos n\u00e3o se consubstancia em meios materiais nem em solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas no an\u00fancio da verdade de Cristo, que educa as consci\u00eancias e ensina a aut\u00eantica dignidade da pessoa e do trabalho, promovendo a forma\u00e7\u00e3o duma cultura que corresponda verdadeiramente a todas as exig\u00eancias do homem.<\/p>\n<p>O dom de si mesmo \u00e9 insubstitu\u00edvel<\/p>\n<p>\u00c0 vista dos tremendos desafios da pobreza de grande parte da humanidade, a indiferen\u00e7a e o encerramento no pr\u00f3prio ego\u00edsmo apresentam-se em contraste intoler\u00e1vel com o \u00abolhar\u00bb de Cristo. O jejum e a esmola, juntamente com a ora\u00e7\u00e3o, que a Igreja prop\u00f5e de modo especial no per\u00edodo da Quaresma, s\u00e3o uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para nos conformar-mos \u00e0quele \u00abolhar\u00bb. Os exemplos dos Santos e as m\u00faltiplas experi\u00eancias mission\u00e1rias que caracterizam a hist\u00f3ria da Igreja constituem indica\u00e7\u00f5es preciosas quanto ao melhor modo de apoiar o desenvolvimento. Mesmo neste tempo da interdepend\u00eancia global, pode-se verificar como nenhum projecto econ\u00f3mico, social ou pol\u00edtico substitua aquele dom de si mesmo ao outro, que brota da caridade. Quem age segundo esta l\u00f3gica evang\u00e9lica, vive a f\u00e9 como amizade com o Deus encarnado e, como Ele, prov\u00ea \u00e0s necessidades materiais e espirituais do pr\u00f3ximo. Olha-o como mist\u00e9rio incomensur\u00e1vel, digno de infinito cuidado e aten\u00e7\u00e3o. Sabe que, quem n\u00e3o d\u00e1 Deus, d\u00e1 demasiado pouco; como dizia frequentemente a Beata Teresa de Calcut\u00e1, a primeira pobreza dos povos \u00e9 n\u00e3o conhecer Cristo. Por isso, \u00e9 preciso levar a encontrar Deus no rosto misericordioso de Cristo: sem esta perspectiva, uma civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 constru\u00edda sobre bases s\u00f3lidas.<\/p>\n<p>Desenvolvimento baseado no respeito pela dignidade<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a homens e mulheres obedientes ao Esp\u00edrito Santo, surgiram na Igreja muitas obras de caridade, visando promover o desenvolvimento: hospitais, universidades, escolas de forma\u00e7\u00e3o profissional, micro-empresas. S\u00e3o iniciativas que, muito antes de outras f\u00f3rmulas da sociedade civil, deram provas de sincera preocupa\u00e7\u00e3o pelo homem por parte de pessoas animadas pela mensagem evang\u00e9lica. Estas obras apontam uma estrada por onde guiar tamb\u00e9m o mundo de hoje para uma globaliza\u00e7\u00e3o que tenha, ao centro, o verdadeiro bem do homem e conduza, assim, \u00e0 paz aut\u00eantica. Com a mesma compaix\u00e3o que tinha Jesus pelas multid\u00f5es, a Igreja sente hoje tamb\u00e9m como sua miss\u00e3o pedir, a quem tem responsabilidades pol\u00edticas e compet\u00eancias no poder econ\u00f3mico e financeiro, que promova um desenvolvimento baseado no respeito da dignidade de todo o homem. Um indicador importante deste esfor\u00e7o h\u00e1-de ser a liberdade religiosa efectiva, entendida como possibilidade n\u00e3o simplesmente de anunciar e celebrar Cristo, mas de contribuir tamb\u00e9m para a edifica\u00e7\u00e3o de um mundo animado pela caridade. H\u00e1 que incluir neste esfor\u00e7o tamb\u00e9m a efectiva considera\u00e7\u00e3o do papel central que desempenham os aut\u00eanticos valores religiosos na vida do homem, enquanto resposta \u00e0s suas quest\u00f5es mais profundas e motiva\u00e7\u00e3o \u00e9tica para as suas responsabilidades pessoais e sociais. Tais s\u00e3o os crit\u00e9rios sobre os quais os crist\u00e3os dever\u00e3o aprender tamb\u00e9m a avaliar com sabedoria os programas de quem os governa.<\/p>\n<p>Erros crist\u00e3os<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esconder que foram cometidos erros ao longo da hist\u00f3ria por muitos que se professavam disc\u00edpulos de Jesus. N\u00e3o raramente eles, confrontados com problemas graves, pensaram que se deveria primeiro melhorar a terra e depois pensar no c\u00e9u. A tenta\u00e7\u00e3o foi considerar que, perante necessidades urgentes, se deveria em primeiro lugar procurar mudar as estruturas externas. Para alguns, isto teve como consequ\u00eancia a transforma\u00e7\u00e3o do cristianismo num moralismo, a substitui\u00e7\u00e3o do crer pelo fazer. Por isso, com raz\u00e3o observava o meu Predecessor, de venerada mem\u00f3ria, Jo\u00e3o Paulo II: \u00abA tenta\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 reduzir o cristianismo a uma sabedoria meramente humana, como se fosse a ci\u00eancia do bom viver. Num mundo fortemente secularizado, surgiu uma gradual seculariza\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o, onde se procura lutar sem d\u00favida pelo homem, mas por um homem dividido a meio, reduzido unicamente \u00e0 dimens\u00e3o horizontal. Ora, n\u00f3s sabemos que Jesus veio trazer a salva\u00e7\u00e3o integral\u00bb (Redemptoris missio, 11).<\/p>\n<p>\u201cOlhar\u201d que reanima<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente a esta salva\u00e7\u00e3o integral que a Quaresma nos quer guiar, tendo em vista a vit\u00f3ria de Cristo sobre todo o mal que oprime o homem. Quando nos voltarmos para o Mestre divino, nos convertermos a Ele, experimentarmos a sua miseric\u00f3rdia atrav\u00e9s do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, descobrire-mos um \u00abolhar\u00bb que nos perscruta profundamente e que pode reanimar as multid\u00f5es e cada um de n\u00f3s. Esse olhar devolve a confian\u00e7a a quantos n\u00e3o se fecharem no cepticismo, abrindo \u00e0 sua frente a perspectiva da eternidade feliz. Portanto, j\u00e1 na hist\u00f3ria \u2013 mesmo quando o \u00f3dio parece prevalecer \u2013, o Senhor nunca deixa faltar o testemunho luminoso do seu amor. A Maria, \u00abfonte viva de esperan\u00e7a\u00bb (Dante Alighieri, Para\u00edso, XXXIII, 12), confio o nosso caminho quaresmal, para que nos conduza ao seu Filho. De modo particular confio a Ela as multid\u00f5es que, provadas ainda hoje pela pobreza, imploram ajuda, apoio, compreens\u00e3o. Com estes sentimentos, a todos concedo de cora\u00e7\u00e3o uma especial B\u00ean\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica.<\/p>\n<p>BENEDICTUS PP. XVI<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2006<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-6374","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6374"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6374\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}