{"id":6468,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6468"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"os-pasteloes-dos-noticiarios-televisivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-pasteloes-dos-noticiarios-televisivos\/","title":{"rendered":"Os pastel\u00f5es dos notici\u00e1rios televisivos"},"content":{"rendered":"<p>Chegamos ao c\u00famulo de ter, diariamente, maratonas que come\u00e7am \u00e0s 13 e acabam depois das 14 h, e \u00e0 hora do jantar nada se faz por menos de hora e meia.<\/p>\n<p>Assim sendo, os portugueses deveriam ser os melhor informados da Europa. Mas n\u00e3o! O \u201clixo\u201d informativo em altas doses n\u00e3o serve para nada, a n\u00e3o ser para entreter os incautos e preencher, a baixo custo, a antena. <\/p>\n<p>Numa competi\u00e7\u00e3o, a meu ver ins\u00f3lita, os canais abertos de televis\u00e3o em Portugal transmitem \u00e0 hora do almo\u00e7o e do jantar uns aut\u00eanticos pastel\u00f5es informativos!<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos pa\u00edses mais evolu\u00eddos, cujos canais s\u00e3o pr\u00f3digos e selectivos nos telejornais, raramente ultrapassando os 20 ou 30 minutos, em Portugal \u00e9 um fartar de pequenas, m\u00e9dias e grandes not\u00edcias.<\/p>\n<p>Chegamos ao c\u00famulo de ter, diariamente, maratonas que come\u00e7am \u00e0s 13 e acabam depois das 14 h, e \u00e0 hora do jantar nada se faz por menos de hora e meia.<\/p>\n<p>A maced\u00f3nia de not\u00edcias cobre tudo: pol\u00edtica, crime, curiosidades, desastres, viol\u00eancia, julgamentos, \u201csexocracia\u201d, treinos de futebol, publicidade encapotada, entrevistas sobre tudo e quase nada. <\/p>\n<p>H\u00e1 not\u00edcias nacionais, internacionais, regionais, locais, paroquiais, dom\u00e9sticas, todas misturadas, e n\u00e3o raro repetidas como se novas fossem. E se uma esta\u00e7\u00e3o diz mata, logo outra diz esfola! <\/p>\n<p>Assim sendo, os portugueses deveriam ser os melhor informados da Europa. Mas n\u00e3o! O \u201clixo\u201d informativo em altas doses n\u00e3o serve para nada, a n\u00e3o ser para entreter os incautos e preencher, a baixo custo, a antena. <\/p>\n<p>O alinhamento, esse ent\u00e3o \u00e9 um verdadeiro labirinto. Nunca se sabe como abre um telejornal; e a passagem de uma not\u00edcia \u00e0 seguinte \u00e9 um verdadeiro mist\u00e9rio da l\u00f3gica informativa.<\/p>\n<p>De h\u00e1 uns tempos a esta parte, ainda temos que conviver com um ecr\u00e3 prenhe de pseudo informa\u00e7\u00e3o: al\u00e9m da hora, que \u00e9 a \u00fanica informa\u00e7\u00e3o \u00fatil para os retardat\u00e1rios, temos as temperaturas (mesmo se em Bombaim ou Quito!), os sem\u00e1foros do tr\u00e2nsito em Lisboa ou Porto, quase sempre ficcionados, e que muito devem \u201cinteressar\u201d para Bragan\u00e7a ou Aveiro, a imagem em formato pequeno da not\u00edcia a ser dada, o cen\u00e1rio se poss\u00edvel dantesco atr\u00e1s do pivot (fogo, cat\u00e1strofe, viol\u00eancia\u2026) e, para quem se quiser distrair, uma banda corrida de resumo noticioso sem crit\u00e9rio, mal concisa e, n\u00e3o raro, cheia de erros de ortografia. Confesso que j\u00e1 estive mais longe de concretizar a ideia de tapar a parte inferior do ecr\u00e3, para n\u00e3o ter que suportar aquela mistela de dicas noticiosas.<\/p>\n<p>Ah! Depois, h\u00e1 os opinadores profissionais em dia certo e os entrevistados ocasionais em dia incerto da semana. Os primeiros, implac\u00e1veis, ditam senten\u00e7as, os segundos quando podem, respondem no intervalo das longas perguntas que mais parecem coment\u00e1rios. Tudo isto, al\u00e9m dos directos a n\u00e3o perder, por causa do joelho de um jogador ou de um \u201cciclone\u201d de 40 quil\u00f3metros por hora, feitos por jornalistas que mais parecem em est\u00e1gio do Fundo Social Europeu!<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 coisas boas: alguns pivots excelentes, alguns comentadores preparados e alguns rep\u00f3rteres apetrechados. Mas o resto\u2026<\/p>\n<p>Noticiar tantas coisas boas que acontecem no nosso pa\u00eds n\u00e3o capta audi\u00eancia. Se s\u00f3 nos orient\u00e1ssemos pelo caudal noticioso, o pa\u00eds era, por certo, n\u00e3o recomend\u00e1vel\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 um facto que j\u00e1 n\u00e3o temos censura de l\u00e1pis azul. Mas passou a haver um insidioso e anestesiado meio de direccionar os notici\u00e1rios: a omiss\u00e3o. O que n\u00e3o d\u00e1 n\u00e3o existe e para existir \u00e9 preciso que apare\u00e7a. Nessa mat\u00e9ria, h\u00e1 mestres e ag\u00eancias especializadas\u2026<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o voltar aos notici\u00e1rios de meia-hora? Por que n\u00e3o dispensar o abomin\u00e1vel histrionismo com que vemos lidas not\u00edcias estapaf\u00fardias? Por que n\u00e3o um curso de portugu\u00eas que evite os \u201cv\u00e3o haver\u201d, os \u201cinterviu\u201d, os \u201ctem a haver\u201d (em vez do \u201ctem a ver\u201d). Fresquinho na minha mem\u00f3ria est\u00e1 a voz de ontem num notici\u00e1rio a comentar a nova enc\u00edclica papal e a falar com mestria de \u201cagap\u00e9\u201d (assim se leu, mais parecendo \u201c\u00e1gua-p\u00e9\u201d\u2026), em vez de \u00e1gape. Santo Deus!<\/p>\n<p>Merecemos todos mais! Ou n\u00e3o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegamos ao c\u00famulo de ter, diariamente, maratonas que come\u00e7am \u00e0s 13 e acabam depois das 14 h, e \u00e0 hora do jantar nada se faz por menos de hora e meia. Assim sendo, os portugueses deveriam ser os melhor informados da Europa. Mas n\u00e3o! 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