{"id":6472,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6472"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"um-pais-cada-vez-mais-estranho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-pais-cada-vez-mais-estranho\/","title":{"rendered":"Um pa\u00eds cada vez mais estranho"},"content":{"rendered":"<p>Portugal est\u00e1 a tornar-se um pa\u00eds estranho. Cada vez mais estranho. A sorte de todos n\u00f3s \u00e9 que h\u00e1 muita gente que n\u00e3o desiste e continua a lutar, de muitos modos, para salvar e construir o poss\u00edvel, contra ventos e mar\u00e9s.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que se destr\u00f3i ou se faz t\u00e1bua rasa do bom senso, do passado que justifica a nossa capacidade de n\u00e3o resigna\u00e7\u00e3o, do patrim\u00f3nio nacional que ainda resta, \u00e0 medida que s\u00f3 houver lugar ao sol para o \u201cnovo\u201d e o \u201cmoderno\u201d, diminui o discernimento l\u00facido de muitos, novos e menos novos, a possibilidade de racioc\u00ednio e a vontade de crescer e de actuar, como pessoas livres e em sociedade. <\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o que passam a comandar o barco os oportunistas e os grupos de press\u00e3o. Como quem dirige n\u00e3o tem tempo para ver o que se passa e conhecer a realidade, \u00e0s vezes nem capacidade para a reflectir e valorar, gera-se a mentalidade de que cada um \u00e9 rei e senhor de si pr\u00f3prio e que a sociedade tem de se adaptar, nas normas e leis, aos seus interesses e \u00e0s manias do mercado. N\u00e3o se pode contrariar ningu\u00e9m em mat\u00e9ria de desejos e costumes, mesmo que a maioria deixe de ser respeitada. Sobram pessoas e grupos como agentes da venda do que \u00e9 f\u00e1cil e agrad\u00e1vel \u00e0 plebe. A hora \u00e9 de quem n\u00e3o admite outra coisa sen\u00e3o ser aceite, sem condi\u00e7\u00f5es, no que quer e no que pensa. Dentro em pouco, s\u00f3 ser\u00e1 crime pun\u00edvel a fuga aos impostos e as transgress\u00f5es ao c\u00f3digo da estrada\u2026Uma nova invas\u00e3o de b\u00e1rbaros, uma selvajaria de punhos de renda com televis\u00e3o dispon\u00edvel para todos os planos\u2026Um fen\u00f3meno das cidades \u201ccultas\u201d a tentar impor-se ao pa\u00eds \u201cretr\u00f3grado\u201d\u2026 Como tudo isto \u00e9 estranho!<\/p>\n<p>Deputados a dar senten\u00e7as que nos arrepiam, sobre assuntos altamente complexos, dos quais muitas vezes ainda nem entenderam o sentido; senhores ministros a olhar o pa\u00eds de longe e a brincar com coisas s\u00e9rias, a pretexto de ci\u00eancia, de progresso tecnol\u00f3gico e de educa\u00e7\u00e3o alargada; pol\u00edticos a subir acima do chinelo para perorar, com presumida compet\u00eancia, sobre assuntos que os ultrapassam; profissionais da comunica\u00e7\u00e3o social a julgarem-se os maiores peritos sobre temas encomendados e que apenas v\u00eaem pela \u00fanica janela que lhes apontaram ou abriram\u2026 <\/p>\n<p>O povo paga os r\u00f3tulos que os inteligentes v\u00e3o distribuindo: conservadores e progressistas, direita e esquerda, amigos e cr\u00edticos. \u00c9 preciso corrigir os c\u00f3digos legais para satisfazer interesses e gostos pessoais. A Constitui\u00e7\u00e3o respeita-se ou contesta-se, consoante o lado dos ventos.<\/p>\n<p>Tudo isto vai dando lugar \u00e0 subvers\u00e3o do valor e dimens\u00e3o dos problemas que afectam as pessoas. Quem est\u00e1 a \u201ceducar\u201d os pol\u00edticos e a governar os governantes? A c\u00e9lebre contestat\u00e1ria holandesa do barco da Figueira; os novos grupos de minorias: os que prop\u00f5em \u201cprazeres alternativos\u201d ao consumo das drogas pesadas; a gente desinibida para explicar o sexo sem tabus nem vergonhas nas televis\u00f5es e nos jornais; os que gritam \u00e0 portas dos tribunais; a gente que pensa que o pa\u00eds ser\u00e1 educado e culto quando \u00e0s crian\u00e7as das escolas se der tudo a partir de fora\u2026<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que h\u00e1 pessoas com fome, o desemprego cresce, idosos sem dinheiro para medicamentos caros, jovens desesperados sem verem o futuro aberto, crian\u00e7as joguete de pais desavindos, fam\u00edlias sem m\u00e9dico, casais a deixar morrer o primeiro amor, injusti\u00e7as nas diversas rela\u00e7\u00f5es sociais, imigrantes explorados, problemas abafados\u2026<\/p>\n<p>Pessoa e sua dignidade, bem comum, responsabilidade social, defesa da fam\u00edlia, cidadania alargada, problemas actuais graves, s\u00e3o temas ausentes da informa\u00e7\u00e3o e da forma\u00e7\u00e3o. Os governantes t\u00eam sempre raz\u00e3o, aos jornalistas nada de censura, o povo cala-se com jogos e bombons, muitos intelectuais viraram narcisistas\u2026<\/p>\n<p>Esperamos que n\u00e3o desista quem luta e acredita na for\u00e7a da verdade. Ela vencer\u00e1. N\u00e3o repetindo o que n\u00e3o se repete, mas construindo em bases consistentes. \u00c9 urgente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal est\u00e1 a tornar-se um pa\u00eds estranho. Cada vez mais estranho. 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