{"id":6636,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6636"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"e-uma-questao-de-cultura-e-nao-de-oposicao-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/e-uma-questao-de-cultura-e-nao-de-oposicao-a-igreja\/","title":{"rendered":"&#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de cultura e n\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista com D. Manuel Clemente <!--more--> D. Manuel Clemente participou nas jornadas dos Cursilhos de Cristandade (ver p\u00e1gina 8), em Aveiro. Uma das ideias partilhadas com os participantes foi a da n\u00e3o confessionaliza\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es da vida. \u201cN\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es confessionais, nem devem ser. S\u00e3o quest\u00f5es de humanidade e cidadania\u201d, disse o bispo auxiliar de Lisboa, acrescentando que, num debate, o interlocutor pode recusar o di\u00e1logo ao confrontar-se com algu\u00e9m que toma determinadas posi\u00e7\u00f5es por definir-se como cat\u00f3lico, mais ou menos seguindo este racioc\u00ednio: \u201cTu \u00e9s cat\u00f3lico, tens as tuas posi\u00e7\u00f5es; eu n\u00e3o sou, tenho as minhas\u201d. E acaba o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Ora, aborto, clonagem, reprodu\u00e7\u00e3o m\u00e9dica assistida, eutan\u00e1sia, cria\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es, entre outras, s\u00e3o antes de mais quest\u00f5es de humanidade e cidadania. E nessa base devem ser abordadas. Claro que, \u201cse \u00e9 crist\u00e3o, tem raz\u00f5es redobradas para ser competente\u201d, disse D. Manuel Clemente, que acedeu a responder a estas perguntas do Correio do Vouga, no final dos trabalhos.<\/p>\n<p>\u00c9 prejudicial abordar as quest\u00f5es da vida a partir da f\u00e9 crist\u00e3?<\/p>\n<p>Jesus Cristo radicaliza e ilumina as respostas. Mas as perguntas \u2013 e as respostas no seu princ\u00edpio \u2013 s\u00e3o da humanidade inteira e desde sempre. Foi com humanidade que n\u00f3s, a pouco e  pouco, fomos descobrindo o que era a vida. N\u00f3s acreditamos na Cria\u00e7\u00e3o e nos seus dinamismos. Por isso, descobrir cada vez mais o que somos como humanidade e o que devemos uns aos outros como cidad\u00e3os, isso \u00e9 um quinh\u00e3o comum a todos os homens e mulheres \u00e0 superf\u00edcie da terra. N\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es confessionais.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o crist\u00e3, neste debate, \u00e9 para ser vivida, mas n\u00e3o invocada&#8230;<\/p>\n<p>Em Jesus Cristo, vemos uma radicaliza\u00e7\u00e3o da resposta, porque Ele faz da vida \u2013 e da vida de todos e de cada um \u2013 um absoluto. Ele pr\u00f3prio entrega a sua vida e a partir da\u00ed a vida tem um valor infinito. Ora, isso \u00e9 uma motiva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 com a  qual n\u00f3s devemos enriquecer n\u00e3o digo tanto o debate, mas a nossa presen\u00e7a. Agora as quest\u00f5es da vida s\u00e3o, antes de mais, quest\u00f5es de humanidade e de cidadania e \u00e9 nesse terreno que devem ser colocadas. <\/p>\n<p>Considera que h\u00e1 uma \u201coposi\u00e7\u00e3o concertada \u00e0 Igreja\u201d, como dizem algumas pessoas, nas quest\u00f5es da vida e da sexualidade?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 de agora. Estamos diante de um debate cultural que tem j\u00e1 pelo menos duzentos anos. \u00c9 aquilo a que n\u00f3s chamamos liberalismo. Eu resumo: de h\u00e1 duzentos anos para c\u00e1, tudo aquilo que era posto em termos de colectivo, passou a ser posto e cada vez mais em termos de indiv\u00edduo. As liberdades s\u00e3o entendidas sobretudo como elas se jogam na vida de cada um e no seu desejo e como possibilidades t\u00e9cnicas. Cada um hoje tem a possibilidade de autoconstruir como nunca teve. Tecnicamente tem essas possibilidades. Ora, ligando individualismo e t\u00e9cnica, hoje em dia parece que basta ser poss\u00edvel fazer-se, transformar-se ou ser outra coisa para que seja leg\u00edtimo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, ent\u00e3o, de uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja enquanto tal.<\/p>\n<p>Este debate vem da base liberal, que \u00e9 hoje sobretudo individual e at\u00e9 individualista, e p\u00f5e a quest\u00e3o em termos que dificilmente aceitam qualquer chamada de aten\u00e7\u00e3o para o colectivo, para o interesse geral, para aquilo que a todos diz respeito: \u201cPorque \u00e9 que eu, como indiv\u00edduo, n\u00e3o posso fazer, se eu quero?\u201d O que est\u00e1 em causa \u00e9 mais amplo do que ser propriamente contra a Igreja. \u00c9 uma quest\u00e3o de cultura.<\/p>\n<p>A Igreja est\u00e1 disposta a dialogar com todos os sectores da sociedade, mesmo com aqueles que a ela se op\u00f5em nestas quest\u00f5es? Ultimamente, a prop\u00f3sito da Gaudium et Spes, tem-se falado muito da nova atitude eclesial perante o mundo&#8230; Mas, com quem defende \u201cquest\u00f5es fracturantes\u201d, como o casamento homossexual, o di\u00e1logo \u00e9 dif\u00edcil ou mesmo imposs\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>O que a Gaudium et Spes fez foi sobretudo p\u00f4r a Igreja \u00e0 escuta e na interpreta\u00e7\u00e3o dos chamados sinais dos tempos. Mas os sinais dos tempos, como o Conc\u00edlio os encara, s\u00e3o os sinais dos tempos enquanto tempos do Esp\u00edrito. Ou seja, n\u00f3s acreditamos que o Esp\u00edrito de Deus, que \u00e9 a alma da Cria\u00e7\u00e3o, a pouco e pouco vai desdobrando as suas potencialidades em cada gera\u00e7\u00e3o humana. Quando falamos em gera\u00e7\u00e3o humana, estamos a falar de humanidade. E quando falamos de humanidade, ainda antes de uma posi\u00e7\u00e3o religiosa, ou seja, numa posi\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica, encaramo-la naquilo que \u00e9 a sua base geral: a alteridade masculino\/feminino&#8230;<\/p>\n<p>Essa alteridade vai sempre existir, mas alguns querem viver como se n\u00e3o existisse&#8230;<\/p>\n<p>Hoje, por aquilo que h\u00e1 pouco referi acerca das escolhas de cada indiv\u00edduo e das possibilidades t\u00e9cnicas para o conseguir em termos de transforma\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio corpo, a complementaridade masculino\/feminino parece estar em causa, mas realmente n\u00e3o est\u00e1. Qualquer transforma\u00e7\u00e3o ou possibilidade tecnol\u00f3gica \u2013 mudar o sexo ao longo da exist\u00eancia, por exemplo \u2013 n\u00e3o contraria aquilo que continua a ser uma evid\u00eancia at\u00e9 para a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da humanidade: a alteridade masculino\/feminino.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma cultura \u201chomo\u201d (e n\u00e3o \u201chetero\u201d), negando essa alteridade, fecha cada indiv\u00edduo em si mesmo e, portanto, dificulta a aceita\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a do outro que a pr\u00f3pria diferen\u00e7a do sexo induz. Tudo quanto seja fechar-se no \u201chomo\u201d, nesse sentido unissexual, ou atenuar a alteridade como pr\u00f3pria da humanidade parece-nos ser, mas em termos pura e simplesmente humanos, para j\u00e1, um atentado ao crescimento da humanidade. Isto n\u00e3o significa que n\u00e3o se atenda ao percurso individual, ao crescimento de cada um, ao respeito pelas suas etapas. Mas sem desistir deste horizonte de heterossexualidade.<\/p>\n<p>A enc\u00edclica de Bento XVI ao falar do \u201ceros\u201d (amor ascendente, amor que procura, tipicamente o amor entre homem e mulher), para al\u00e9m do habitual \u201c\u00e1gape\u201d (amor descendente, amor oblativo), falou do amor de uma forma pouco habitual nos documentos oficiais&#8230;<\/p>\n<p>As palavras, como o Papa diz, degradaram-se bastante. Perderam muito do seu significado. E o que o Papa faz, at\u00e9 como fil\u00f3sofo que \u00e9, \u00e9 recuperar o sentido original das palavras, para recome\u00e7ar a conversa a partir da\u00ed. Ele diz mesmo: \u00e9 preciso antes de mais fazer uma elucida\u00e7\u00e3o terminol\u00f3gica. Quando falamos do \u201ceros\u201d, falamos desta apet\u00eancia que n\u00f3s temos pelas coisas, pelos outros&#8230; \u00c9 qualquer coisa de espont\u00e2neo em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Bento XVI liga \u201ceros\u201d e \u201c\u00e1gape\u201d. N\u00e3o est\u00e1vamos habituados a isso&#8230;<\/p>\n<p>O que o Papa diz \u2013 e isso \u00e9 uma verdade human\u00edstica a que o pr\u00f3prio cristianismo d\u00e1 muita \u00eanfase \u2013 \u00e9 que, se esta apet\u00eancia se fecha em si pr\u00f3pria como satisfa\u00e7\u00e3o de um apetite, acaba por se degradar. O \u201ceros\u201d deve ser uma abertura para crescer, n\u00e3o apenas no aproveitamento do outro, mas no acolhimento do outro e na obla\u00e7\u00e3o ao outro. Deve levar-nos, portanto, a algo que n\u00e3o seja apenas em nosso benef\u00edcio, mas que nos realize no encontro com o outro e no servi\u00e7o do outro. Ou seja, transformado em \u201c\u00e1gape\u201d. \u00c9 fundamental que esta apet\u00eancia que eu tenho pelos outros n\u00e3o se feche, no sentido ego\u00edsta do termo, mas que seja uma abertura a encontrar-me com os outros e al\u00e9m de mim.<\/p>\n<p>Surpreendeu-o a enc\u00edclica?<\/p>\n<p>Surpreendeu-me no sentido em que n\u00e3o estaria \u00e0 espera que fosse esse tema, mas uma vez que ele apareceu, acho que n\u00e3o pode ser mais actual. Esta compreens\u00e3o da humanidade de cada um na oferta e no encontro mais al\u00e9m, onde o outro tamb\u00e9m se pode encontrar, ai isso \u00e9 da maior oportunidade para este debate cultural a que me referia atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O Congresso Internacional para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o (ICNE), para quem n\u00e3o est\u00e1 em Lisboa, pareceu muito virado para a religiosidade popular, principalmente por causa da prociss\u00e3o de velas que levou \u00e0 rua meio milh\u00e3o de pessoas. O que foi mais importante no ICNE?<\/p>\n<p>O mais importante da sess\u00e3o de Lisboa \u2013 o ICNE decorre em v\u00e1rias cidades europeias \u2013 foi o facto de v\u00e1rias comunidades crist\u00e3s da cidade, paroquiais e n\u00e3o s\u00f3, se terem descoberto \u00e0 volta da miss\u00e3o, quer dizer, terem percebido que aquilo que elas celebram constantemente, aquilo que elas v\u00e3o transmitindo aos seus membros, \u00e9 algo que t\u00eam para oferecer \u00e0 cidade. Por isso, n\u00e3o apenas durante a semana do congresso, mas um ano e meio antes, criaram ocasi\u00f5es para apresentar aos seus concidad\u00e3os de rua, bairro ou meio, aquilo que \u00e9 o cristianismo. E continuam ac\u00e7\u00f5es nesse sentido nas comunidades crist\u00e3s, em umas mais do que em outras, concerteza.<\/p>\n<p>O grande fruto do INCE \u00e9 a consci\u00eancia da miss\u00e3o?<\/p>\n<p>O que deu mais nas vistas foi aquela grande prociss\u00e3o da luz. Mas o que mais fica do congresso \u00e9 esta experi\u00eancia mission\u00e1ria das comunidades crist\u00e3s. Ou seja, entender que a miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusivamente nem principalmente dos especialistas da miss\u00e3o, mas \u00e9 a vida das comunidades crist\u00e3s que se encontram, oferecendo aos outros aquilo que guardam mas que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para elas. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com D. 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