{"id":6660,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6660"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"ser-e-ter","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ser-e-ter\/","title":{"rendered":"Ser e ter"},"content":{"rendered":"<p>1. Fazem parte dos verbos fundamentais da nossa exist\u00eancia. Andam de m\u00e3os dadas e de p\u00e9s atados: o ser e o ter. \u00c0s vezes s\u00f3s, muitas vezes acompanhados do saber, do fazer, do dar, do amar.<\/p>\n<p>O nosso viver confronta-se invariavelmente entre a liberdade de se ser, a necessidade de se ter, a responsabilidade de se dar, a capacidade de se fazer, a exig\u00eancia de se saber, o impulso de se amar.<\/p>\n<p>Mas, num tempo impulsionado cada vez mais pelas tecnologias poderosas e pela obsess\u00e3o da circunst\u00e2ncia, \u00e9 entre o ser e o ter que nos vemos constantemente desafiados. <\/p>\n<p>\u00c9 de tal modo assim, que na linguagem corrente nos deixamos aliciar pela hegemonia do ter, mesmo se com isso apenas estamos a ser.<\/p>\n<p>Usa-se e abusa-se do ter, para se expressar uma ac\u00e7\u00e3o, um movimento, um processo, um estado de alma at\u00e9.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o s\u00f3i dizer-se \u201cpenso\u201d, mas \u201ctenho uma ideia\u201d, \u201cquero\u201d mas \u201ctenho vontade\u201d; ou um \u201ctenho um desejo\u201d, quando nos bastaria t\u00e3o simplesmente a conjuga\u00e7\u00e3o do verbo desejar. E, n\u00e3o raro, at\u00e9 nos damos conta de que, em vez de \u201csermos\u201d, dizemos que \u201ctemos uma vida\u201d\u2026<\/p>\n<p>Este tipo de linguagem denuncia a supremacia quase inconsciente e perigosamente alienante do ter sobre o ser, no nosso quotidiano.<\/p>\n<p>At\u00e9 os problemas que nos consomem em cada dia j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o do dom\u00ednio do ser mas do ter. Por isso, dizemos \u201cEu tenho um problema\u201d o que significa que transformamos a percep\u00e7\u00e3o do problema em qualquer coisa que passamos a possuir: o pr\u00f3prio problema!&#8230; E este vinga-se passando de possu\u00eddo a possuidor. <\/p>\n<p>2. Na vida, come\u00e7a-se por se ser antes de ter. O Verbo antes da verba. Na morte, deixa de se ser, ainda que se possa ter. Por\u00e9m, o ter n\u00e3o d\u00e1 eternidade, mesmo que por via testament\u00e1ria ou sucess\u00f3ria. Mas o ser pode ser duradouro, por via consangu\u00ednea ou cromossom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Como escrevia Verg\u00edlio Ferreira, \u201c\u00e9-se por dentro; por fora, est\u00e1-se\u201d. O ser ilumina-se por sinais interiores, enquanto o ter exibe sinais exteriores. Por isso, a riqueza est\u00e1 no ser, ainda que continuemos a medir pelo ter aquilo que n\u00e3o somos capazes de avaliar pelo ser. <\/p>\n<p>Ao ser est\u00e1 associada a utopia. Ao ter, a ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao ser est\u00e1 associado o reconhecimento. Ao ter, o sucesso e o fracasso.<\/p>\n<p>Por isso, no ser se vive e no ter se ganha e se perde.<\/p>\n<p>O ser congrega na diferen\u00e7a. O ter desagrega pela soma.<\/p>\n<p>O ser desdobra-se atrav\u00e9s do livro da vida. O ter pressup\u00f5e o livro de cheques.<\/p>\n<p>O ser exige o ser melhor, como princ\u00edpio. O ter exige o ter mais, como meta.<\/p>\n<p>O ser \u00e9 a parte imersa no iceberg. O ter \u00e9 a parte emersa.<\/p>\n<p>O ser \u00e9 um caminho. O ter \u00e9 uma paragem.<\/p>\n<p>O ser aperfei\u00e7oa-se na partilha, na autenticidade, na doa\u00e7\u00e3o. O ter consome-se no individualismo, no cinismo, no consumismo. <\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do ter, o ser n\u00e3o precisa de euros para se mensurar, apesar da desvaloriza\u00e7\u00e3o dos recursos n\u00e3o monetariz\u00e1veis, como a sabedoria, a generosidade, a disponibilidade, o bom senso, a persist\u00eancia, a paci\u00eancia, a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>O ser e o ter, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o inimigos ou incompat\u00edveis. A converg\u00eancia do ser e do ter \u00e9 a base de liga\u00e7\u00e3o entre o imperativo de se ser e a liberdade de se ter. <\/p>\n<p>Por isso, o espa\u00e7o privilegiado de sinfonia entre o ser e o ter \u00e9 a fam\u00edlia. E um espa\u00e7o decisivo de sintonia entre o ser e o ter pode e deve ser a empresa. Pela \u00e9tica, pelo respeito, pela responsabilidade social.<\/p>\n<p>E at\u00e9 (ou sobretudo) na religi\u00e3o, ser-se em f\u00e9 \u00e9 mais profundo e verdadeiro do que ter-se f\u00e9. Por isso, o deserto como s\u00edmbolo da liberta\u00e7\u00e3o e o Serm\u00e3o da Montanha como ren\u00fancia \u00e0 estrutura do ter. E a vida para al\u00e9m da morte, em que o ser se torna eterno e o ter se transforma em poeira. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Fazem parte dos verbos fundamentais da nossa exist\u00eancia. Andam de m\u00e3os dadas e de p\u00e9s atados: o ser e o ter. \u00c0s vezes s\u00f3s, muitas vezes acompanhados do saber, do fazer, do dar, do amar. 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