{"id":673,"date":"2010-02-17T10:55:00","date_gmt":"2010-02-17T10:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=673"},"modified":"2010-02-17T10:55:00","modified_gmt":"2010-02-17T10:55:00","slug":"ah-se-eu-soubesse-nao-mudaria-nada-ou-mudaria-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ah-se-eu-soubesse-nao-mudaria-nada-ou-mudaria-tudo\/","title":{"rendered":"Ah, se eu soubesse&#8230; N\u00e3o mudaria nada ou mudaria tudo?"},"content":{"rendered":"<p>(DISPOSI\u00c7\u00c3O N.\u00ba0) &#8211; \u201cEstamos cansados de ouvir esse Serm\u00e3o da Montanha, mas \u00e9 bom que, de vez em quando, o coloquemos nessas grandes linhas da cultura e da hist\u00f3ria. Jesus viveu h\u00e1 dois mil anos. Antes dele, Arist\u00f3teles e Buda fizeram a mesma pergunta: \u201cComo seremos n\u00f3s felizes?\u201d Depois deles, Jesus tamb\u00e9m fez a mesma pergunta. Tr\u00eas grandes homens da hist\u00f3ria da cultura: Arist\u00f3teles, da cultura grega; Buda, de todo o Oriente, e Jesus, o nosso Salvador\u201d (J. B. Lib\u00e2nio, S. J.).<\/p>\n<p>(DISPOSI\u00c7\u00c3O N.\u00ba1) \u2013 \u201cA felicidade est\u00e1 sempre onde a colocamos, mas nunca a colocamos onde estamos\u201d. Esse \u00e9 um paradoxo. Outro paradoxo da nossa condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 sempre procurar pela felicidade fora de n\u00f3s mesmos. E quando a encontramos, a empurramos um pouco mais para continuar a busca. Confundimos Felicidade com Satisfa\u00e7\u00e3o. A satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 transit\u00f3ria e vem de fora para dentro \u2013 das coisas agindo sobre n\u00f3s \u2013 como um per\u00edodo de f\u00e9rias, carro ou telem\u00f3vel novos, um programa de carnaval, uma roupa, etc&#8230; Mas a felicidade \u00e9 melhor do que a satisfa\u00e7\u00e3o porque vem de dentro. Vem da alma interior, da chama interna, do amor doado, da generosidade sem medida. A\u00ed reside em parte a diferen\u00e7a entre viver e ter uma vida. Temos uma vida, mas podemos viver v\u00e1rias vidas. A felicidade \u00e9 o que mais desejamos. A felicidade l\u00e1 do fundo at\u00e9 \u00e0 superf\u00edcie da pele, no brilho dos olhos. Ela vem da Gra\u00e7a e \u00e9 simples; s\u00f3 precisamos ser honestos connosco. Ah, se eu soubesse&#8230; N\u00e3o mudaria nada ou mudaria tudo?<\/p>\n<p>(DISPOSI\u00c7\u00c3O N.\u00ba1.1.) \u2013 No estilo inconfund\u00edvel, lemos em Eduardo Galeano as contra-indica\u00e7\u00f5es das verdadeiras \u201cPOBREZAS\u201d:<\/p>\n<p>\u201cPobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que n\u00e3o t\u00eam tempo para perder tempo.<\/p>\n<p>Pobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que n\u00e3o tem sil\u00eancio e nem podem compr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Pobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que t\u00eam pernas que se esqueceram de andar, como as asas das galinhas, que se esqueceram de voar.<\/p>\n<p>Pobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que comem lixo e pagam por ele como se fosse comida.<\/p>\n<p>Pobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que t\u00eam o direito de respirar merda, como se fosse ar, sem pagar nada por ela.<\/p>\n<p>Pobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que n\u00e3o t\u00eam liberdade sen\u00e3o para escolher entre um e outro canal de televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Pobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que vivem dramas passionais com as m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>Pobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que sempre s\u00e3o muitos e sempre est\u00e3o s\u00f3s.<\/p>\n<p>Pobres, verdadeiramente pobres, s\u00e3o os que n\u00e3o sabem que s\u00e3o pobres\u201d. <\/p>\n<p>(DISPOSI\u00c7\u00c3O N.\u00ba1.2.) \u2013 Vale a projec\u00e7\u00e3o vision\u00e1ria e laica de Jacques Attali, no seu dicion\u00e1rio do s\u00e9culo XXI, no verbete \u201cCONSUMIDOR\u201d:<\/p>\n<p>\u201cInsepar\u00e1vel do produtor. Co-produzir\u00e1 os produtos e as experi\u00eancias que consumir. Sempre que o mercado se impuser, todos os comportamentos se alinhar\u00e3o pelo consumidor, preocupado apenas com o seu pr\u00f3prio interesse. O cidad\u00e3o rico n\u00e3o aceitar\u00e1 mais submeter-se \u00e0 decis\u00e3o de uma maioria pobre. O doente rico n\u00e3o aceitar\u00e1 mais sacrificar-se \u00e0s exig\u00eancias da solidariedade. O apaixonado n\u00e3o aceitar\u00e1 mais seguir os caminhos da sedu\u00e7\u00e3o. O mundo inteiro tornar-se-\u00e1, para o consumidor solvente, um supermercado aberto a todos os seus caprichos. Um dia, muito mais tarde, o consumidor, libertado da ascend\u00eancia do mercado, poder\u00e1 voltar a ser um cidad\u00e3o doente ou apaixonado feliz com suas contradi\u00e7\u00f5es finalmente recuperadas e assumidas\u201d.<\/p>\n<p>(DISPOSI\u00c7\u00c3O &#8211; FINAL E HIST\u00d3RIA)<\/p>\n<p>Diante de Arist\u00f3teles, a Felicidade \u00e9 \u201cvirtude como justa medida\u201d; diante de Buda que se pergunta sobre a fonte da nossa infelicidade e responde que a causa s\u00e3o os Desejos. Desejamos demais. Desejamos quase tudo e, a cada n\u00e3o, uma decep\u00e7\u00e3o, uma enorme frustra\u00e7\u00e3o. Finalmente, veio Jesus e fala das Bem-Aventuran\u00e7as e na vers\u00e3o de Lucas, acrescenta o famoso \u201cAi de v\u00f3s\u201d&#8230; a maldi\u00e7\u00e3o duma felicidade a todo o custo, o-sem-pre\u00e7o, a vida sem regras, a amoralidade generalizada&#8230; Em que ficamos&#8230; por isso, num mundo RICO, n\u00e3o podemos esquecer das POBREZAS (at\u00e9 melhor seria das mis\u00e9rias&#8230;), elas n\u00e3o s\u00e3o invis\u00edveis. Jesus \u00e9 realista, isso \u00e9 encarna\u00e7\u00e3o. Num mundo de terapia \u00e0 for\u00e7a para conquis-tar a Felicidade, n\u00e3o esque\u00e7amos que n\u00e3o somos \u2018doentes\u2019, ou consumidores, ou cidad\u00e3os; somos tudo isso, mas seremos muito mais: Pessoas com o Dever de sermos Felizes! Sempre insatisfeitas, mas nunca azedas ou ressentidas!<\/p>\n<p>Diz a hist\u00f3ria do n\u00e1ufrago [simpatias a Umberto Eco], ao nadar v\u00e1rios dias foi parar numa praia, exausto dormiu. No dia seguinte, ao procurar comida, faminto, viu um jabuti na forquilha de um galho de \u00e1rvore e pensou: \u201cjabuti n\u00e3o sobe em galho de \u00e1rvore, coitado, vou tir\u00e1-lo de l\u00e1\u201d. Subiu na \u00e1rvore e, ao pegar o jabuti com muita pena, recebeu uma flechada nas costas e morreu.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: Se na sua vida existem \u201cjabutis\u201d, n\u00e3o mexa neles, \u2018algu\u00e9m\u2019 os colocou l\u00e1, deixe-os quietos, siga em frente. Conquiste primeiro o Espa\u00e7o; o Caminho vem na decorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias fundamentais:<\/p>\n<p>(1) AAVV, Ah, Se Eu Soubesse&#8230; Brasil \u2013 Org. Richard Edler e Marcio Moreira, Neg\u00f3cio Editora,2001; (2) ATTALI, Jacques, Dicion\u00e1rio do s\u00e9culo XXI, Editora Record, 2001;(3) LIB\u00c2NIO, J.B. (S.J.), Um Outro Olhar: Colet\u00e2nea de Homilias, Volume III, BIG Editora Gr\u00e1fica, s.d.; (4) GALEANO, Eduardo, De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, L&#038;PM Pocket, 2009.<\/p>\n<p> Nota final: \u201cPerguntam-me qual ataque inesperado, neste Ano Sacerdotal: O que \u00e9 um padre feliz? A)\u201dHumano demais\u201d (P.e F\u00e1bio de Melo); B)\u201cRequiem\u201d (Mozart); C)\u201dI\u2019ve Been High\u201d (R.E.M.) \u2013 Pedro Jos\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(DISPOSI\u00c7\u00c3O N.\u00ba0) &#8211; \u201cEstamos cansados de ouvir esse Serm\u00e3o da Montanha, mas \u00e9 bom que, de vez em quando, o coloquemos nessas grandes linhas da cultura e da hist\u00f3ria. Jesus viveu h\u00e1 dois mil anos. 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