{"id":6841,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6841"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"especialistas-do-juizo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/especialistas-do-juizo\/","title":{"rendered":"Especialistas do&#8230; Ju\u00edzo"},"content":{"rendered":"<p>Em cima da linha <!--more--> Sempre que somos sujeitos a uma aprecia\u00e7\u00e3o, e a todo o momento isso acontece, corremos o risco de ser apanhados nas malhas estreitas que recolhem todo o lixo e todo o peixe. N\u00f3s somos o que somos e somos quem somos num perfeito equil\u00edbrio de valores, aptid\u00f5es e feitios. Acontece que aquilo que \u00e9 inesgot\u00e1vel fonte de enriquecimento, pela complementaridade resultante das diferen\u00e7as, se converte numa torrente polu\u00edda pela ac\u00e7\u00e3o de muitos dos que a si se julgam com uma medida e julgam os outros com outra.<\/p>\n<p>Em tempo de Quaresma, somos convidados a fazer uma verdadeira autoavalia\u00e7\u00e3o. \u00c0 luz da consci\u00eancia individual, express\u00e3o inequ\u00edvoca da verdade de Deus, assumimos a realidade daquilo que somos: nem mais nem menos. Por aqui se realiza a nossa humildade, ao reconhecermos a nossa verdade. Somos aquilo que somos: pecado e virtude.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, este caminho n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de percorrer, pois n\u00e3o se torna agrad\u00e1vel para ningu\u00e9m a aceita\u00e7\u00e3o da parte negativa da nossa vida. Da\u00ed, o culto da apar\u00eancia, que nos leva a mostrar aos outros aquilo que n\u00e3o somos mas gostamos de aparentar: gostamos sempre de parecer melhores do que aquilo que somos, mostrando a nossa arrelia quando o negativo aparece, ainda que levemente expresso, na opini\u00e3o dos outros. Isso faz parte do nosso pr\u00f3prio pecado. Por outro lado, pretendemos sempre que o nosso lado positivo seja visto, reconhecido e aumentado pelos outros, at\u00e9 porque da\u00ed resulta sempre algum \u201cincha\u00e7o\u201d, sempre apetecido. Quando a considera\u00e7\u00e3o que os outros tinham por n\u00f3s se desmorona por qualquer imponder\u00e1vel, ficam marcas de azedume e de t\u00e9dio, que procuramos remendar com novos \u201cbal\u00f5es\u201d de apar\u00eancia, talvez, agora, mais sofisticados. E, se os nossos empreendimentos e actividades n\u00e3o recebem a \u201cjusta\u201d homenagem, a palavra ingratid\u00e3o sempre est\u00e1 na ponta da l\u00edngua.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ainda outra faceta. Essa \u00e9 a da opini\u00e3o que os outros, na minha aus\u00eancia, t\u00eam a meu respeito. E aqui, sabemo-lo n\u00f3s por uma experi\u00eancia tantas vezes amarga, \u00e9 uma verdadeira confus\u00e3o. H\u00e1 gente interessada em passar por cima e, para o conseguir, \u00e9 necess\u00e1rio abater ou pisar o de baixo; h\u00e1 gente que projecta nos outros muitos dos seus erros e defeitos, para que n\u00e3o lhes sejam apontados a si; h\u00e1 gente sem escr\u00fapulos que levanta a poeira para poder fugir sem ser notada; h\u00e1 gente habilidosa para ludibriar, que consegue alcan\u00e7ar os seus intentos ocultos e mesquinhos sob a capa de sorrisos e simpatias; numa palavra: h\u00e1 especialistas de destrui\u00e7\u00e3o dos outros pelos caminhos da suspei\u00e7\u00e3o e da mentira, da intriga e do talvez.<\/p>\n<p>Desta maneira se constr\u00f3i um tribunal por onde passam todos os dias mil casos para serem julgados por quem n\u00e3o tem que fazer e se diverte a julgar os outros, e, se n\u00e3o h\u00e1 mat\u00e9ria,&#8230; inventa-se, calunia-se, imagina-se, mas condena-se mesmo sem processo sum\u00e1rio que permita aos atingidos serem ouvidos. Depois, quando se descobre o enredo do processo, h\u00e1 que esconder e negar. Eis o processo dos detractores: tudo est\u00e1 sujeito ao seu implac\u00e1vel ju\u00edzo. S\u00e3o especialistas no ju\u00edzo de aprecia\u00e7\u00e3o dos outros. S\u00f3 eles fazem o ju\u00edzo de valor certo e irrefut\u00e1vel. Assim julgam e assim se enganam, mas \u00e9 a arte deles.<\/p>\n<p>E porque todos somos afectados, para nos tranquilizarmos perante o ju\u00edzo de tais assassinos, a Quaresma, se a tomamos a s\u00e9rio, faz-nos pensar profundamente, e conduz-nos, inevitavelmente, a uma conclus\u00e3o verdadeira, seja na vertente da minha rela\u00e7\u00e3o com o exterior, seja na vertente da rela\u00e7\u00e3o do exterior para comigo. Essa conclus\u00e3o pode resumir-se no seguinte: \u00c9 verdade que eu n\u00e3o sou t\u00e3o bom quanto pare\u00e7o ou procuro parecer aos olhos dos outros, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou t\u00e3o mau como tantos me julgam! H\u00e1 em mim uma verdade que s\u00f3 eu e Deus conhecemos totalmente. E essa \u00e9 a minha sorte grande: \u00e9 esse Deus que me conhece at\u00e9 ao mais profundo de mim pr\u00f3prio, no pecado e na virtude, que me h\u00e1-de julgar num tribunal de amor e de perd\u00e3o. \u00c9 isso que me salva e liberta!<\/p>\n<p>Ai de mim se eu tivesse de ser julgado pelos outros: da\u00ed eu sairia sempre condenado!<\/p>\n<p>N\u00e3o quero ligar, n\u00e3o posso ligar a esses especialistas do ju\u00edzo, porque s\u00f3 o ju\u00edzo de Deus coloca todas as coisas no seu devido lugar. E porque n\u00e3o tenho medo desse Ju\u00edzo Verdadeiro, tamb\u00e9m n\u00e3o tenho medo do ju\u00edzo falso elaborado por um qualquer pecador como eu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em cima da linha<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-6841","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6841","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6841"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6841\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}