{"id":6951,"date":"2006-04-12T17:25:00","date_gmt":"2006-04-12T17:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=6951"},"modified":"2006-04-12T17:25:00","modified_gmt":"2006-04-12T17:25:00","slug":"o-rosto-do-crucificado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-rosto-do-crucificado\/","title":{"rendered":"O rosto do crucificado"},"content":{"rendered":"<p>O mundo interior de Jesus brilha no seu rosto, sobretudo na paix\u00e3o dolorosa e na hora da expira\u00e7\u00e3o: amor de doa\u00e7\u00e3o que \u00e9 rejeitado, determina\u00e7\u00e3o firme e decidida de credenciar o que sempre havia defendido, autodom\u00ednio sereno face \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es dos inimigos, clamor de ajuda ante o sofrimento incontido, certeza absoluta e confian\u00e7a filial no Pai que nunca o deixa abandonado.<\/p>\n<p>O rosto do crucificado vai plasmando estes sentimentos de forma vis\u00edvel e interpelante. Face a ele, os circunstantes adoptam v\u00e1rias atitudes como reac\u00e7\u00e3o. Uns riem-se sarcasticamente. Outros batem no peito em sinal de arrependimento. Alguns choram compungidos pelo inocente que foi condenado e d\u00e3o sinais de manter n\u00e3o se sabe que expectativas. Um outro \u2013 o centuri\u00e3o \u2013 confessa reconhecidamente: \u201c De facto, este homem era mesmo o Filho de Deus\u201d.<\/p>\n<p>A confiss\u00e3o do centuri\u00e3o \u00e9 resultado de um processo denso, embora breve, iniciado possivelmente na noite em que Jesus esteve na pris\u00e3o e conclu\u00eddo no momento do \u00faltimo suspiro. Encontrando-se frente a Ele e \u201cao v\u00ea-lo expirar daquele maneira\u201d, a sua intui\u00e7\u00e3o sente-se confirmada pelos factos e declara, cheio de convic\u00e7\u00e3o: Jesus \u00e9 o Filho de Deus.<\/p>\n<p>Esta declara\u00e7\u00e3o faz parte da leitura da situa\u00e7\u00e3o vivida e da novidade que ela comporta. O centuri\u00e3o \u2013 distinto oficial romano \u2013 representa o mundo dos pag\u00e3os que chegam \u00e0 f\u00e9 e deixam de \u201cadorar\u201d os \u00eddolos do poder, da magia, do positivismo legal, do relativismo \u00e9tico, do subjectivismo de conveni\u00eancias, do culto do ego\u00edsmo, da cren\u00e7a privatizada, assumindo convictamente a perspectiva de sentido da vida proposto por Jesus Cristo. <\/p>\n<p>As mulheres presentes no Calv\u00e1rio j\u00e1 podem voltar para os seus locais de trabalho e miss\u00e3o \u2013 a Galileia, donde procediam \u2013 pois \u00e9 a\u00ed que o Senhor quer ser servido e o Evangelho tem de ser anunciado. <\/p>\n<p>Jos\u00e9 de Arimateia e Nicodemos \u2013 dois admiradores discretos de Jesus \u2013 vencem as hesita\u00e7\u00f5es e apresentam-se em p\u00fablico a prestar-Lhe as honras rituais prescritas pela lei judaica, impedindo assim a desonra suprema, a sepultura na \u201cvala comum\u201d. <\/p>\n<p>A cortina do Templo rasga-se completamente, abrindo todos os espa\u00e7os de acesso a Deus e mostran-do a fal\u00eancia do sistema religioso-pol\u00edtico-econ\u00f3mico montado pelos judeus. <\/p>\n<p>O projecto de Jesus contrasta radicalmente com as linhas program\u00e1ticas deste sistema. A prov\u00e1-lo, est\u00e3o os sinais mencionados que ficam como refer\u00eancias imprescind\u00edveis para os crist\u00e3os. <\/p>\n<p>Por isso, o amor de Deus-Pai \u00e9 a fonte da fraternidade universal; a verdade gera a liberdade respons\u00e1vel; a dignidade humana \u00e9 comum a todas as pessoas, sem discrimina\u00e7\u00e3o; os bens da natureza, da cultura e do trabalho constituem patrim\u00f3nio da humanidade que deve estar ao servi\u00e7o de todos, sendo acess\u00edvel a cada um; o mundo inteiro \u00e9 dom que cada gera\u00e7\u00e3o h\u00e1-de cultivar para o poder transmitir, mais humanizado, \u00e0 gera\u00e7\u00e3o vindoura; a conviv\u00eancia entre pessoas e povos constitui uma das prim\u00edcias do futuro que Deus nos oferece no seio da sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O centuri\u00e3o romano capta a novidade de Jesus, a partir do que observa e contempla, a partir do bom uso da capacidade de ver e reflectir, a partir do controle emocional e afectivo que lhe abre \u201cas portas do cora\u00e7\u00e3o\u201d. Encarregado de garantir a morte \u2013 Pilatos chama-o para se certificar do que havia acontecido a Jesus \u2013, deixa-se condoer e come\u00e7a a sentir e a ver com o cora\u00e7\u00e3o, a descobrir a nobreza das atitudes do crucificado, a apreciar a sua humanidade, a admirar a sua tenacidade paciente, a suspeitar e admitir a sua filia\u00e7\u00e3o divina. <\/p>\n<p>\u201cUm cora\u00e7\u00e3o que v\u00ea\u201d \u2013 afirma Bento XVI, na sua recente enc\u00edclica \u2013 torna-se o programa do crist\u00e3o, tal como foi de Jesus, do bom samaritano e de tantos outros ao longo da hist\u00f3ria. \u201cV\u00ea onde h\u00e1 necessidade de amor e age de acordo com isso\u201d. Espont\u00e2nea ou organizadamente, conforme as circunst\u00e2ncias e os recursos.<\/p>\n<p>Ver o rosto de Jesus na cruz \u00e9 sentir-se solid\u00e1rio com os crucificados da terra, \u00e9 dar \u00e2nimo aos \u201cvencidos da vida\u201d, \u00e9 propor a verdade por inteiro aos relativistas \u201camantes de meias verdades\u201d, \u00e9 proporcionar um sentido nobre para a vida a todos os que se contentam com os m\u00ednimos \u00e9ticos e anseiam por situa\u00e7\u00f5es em que usufruam o m\u00e1ximo de satisfa\u00e7\u00e3o. Para o crist\u00e3o, a cruz da paix\u00e3o \u00e9 a cruz florida da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo interior de Jesus brilha no seu rosto, sobretudo na paix\u00e3o dolorosa e na hora da expira\u00e7\u00e3o: amor de doa\u00e7\u00e3o que \u00e9 rejeitado, determina\u00e7\u00e3o firme e decidida de credenciar o que sempre havia defendido, autodom\u00ednio sereno face \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es dos inimigos, clamor de ajuda ante o sofrimento incontido, certeza absoluta e confian\u00e7a filial no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-6951","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6951","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6951"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6951\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6951"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6951"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6951"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}