{"id":7000,"date":"2006-04-27T16:04:00","date_gmt":"2006-04-27T16:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7000"},"modified":"2006-04-27T16:04:00","modified_gmt":"2006-04-27T16:04:00","slug":"a-pessoa-com-deficiencia-uma-realidade-escondida-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-pessoa-com-deficiencia-uma-realidade-escondida-2\/","title":{"rendered":"A pessoa com defici\u00eancia, uma realidade escondida?"},"content":{"rendered":"<p>Fernando Vieira, formado em psicologia, trabalha h\u00e1 28 anos na CERCIAV (Cooperativa para a educa\u00e7\u00e3o e Reabilita\u00e7\u00e3o dos Cidad\u00e3os Inadaptados de Aveiro). Desde 1997 \u00e9 presidente da direc\u00e7\u00e3o desta institui\u00e7\u00e3o, que se dedica \u00e0s pessoas com defici\u00eancia. Porque a CERCIAV est\u00e1 a comemorar 30 anos, Fernando Vieira foi o convidado do F\u00f3rum Universal, no dia 5 de Abril, no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura. Aqui ficam excertos das suas palavras.<\/p>\n<p>Pessoa com defici\u00eancia<\/p>\n<p>\u201cA pessoa com defici\u00eancia, uma realidade escondida?\u201d Brincando um pouco com as palavras, a pessoa com defici\u00eancia \u00e9 uma realidade escondida, cada vez menos. O ideal \u00e9 que, ao tornar-se manifesta, n\u00e3o se d\u00ea por ela. Cada vez mais.<\/p>\n<p>Direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A CERCIAV come\u00e7ou com a escola especial, h\u00e1 30 anos, ao lado do Conservat\u00f3rio de Aveiro [hoje, as instala\u00e7\u00f5es principais ficam na Gafanha da Nazar\u00e9]. Na altura, a preocupa\u00e7\u00e3o era o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, depois de s\u00e9culos em que as pessoas com defici\u00eancia mental foram metidas em asilos. Muitos dos nossos utentes mais velhos nunca foram \u00e0 escola. Alguns foram apenas um m\u00eas, uma semana ou um dia. Naquela altura, havia psiquiatras ou neurologistas que passavam um atestado a dizer que \u201ceste menino tem um atraso mental \u2013 reparem na linguagem \u2013 que impede qualquer aprendizagem\u201d. Invariavelmente, escreviam-se montes de atestados para estes meninos sa\u00edrem da escola.<\/p>\n<p>As primeiras tr\u00eas CERCI surgiram em 1975. A de Aveiro surgiu com uma parceria em que havia respons\u00e1veis do Hospital, do Servi\u00e7o de Pediatria, do Magist\u00e9rio Prim\u00e1rio, da Seguran\u00e7a Social. J\u00e1 se percebia que isto tinha de ter v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es. Parcerias. N\u00e3o pod\u00edamos trabalhar sozinhos.<\/p>\n<p>Direito ao trabalho<\/p>\n<p>Prioridade inicial: que todas as crian\u00e7as com defici\u00eancia fossem a uma escola, mesmo que fosse uma escola especial. Os irm\u00e3os v\u00e3o para uma escola regular, eles v\u00e3o para uma escola especial. Ao fim de tarde, regressam todos a casa. Quando atingiam 14, 15 anos, punha-se outra quest\u00e3o: o direito ao trabalho. N\u00e3o podiam continuar eternamente na escola.<\/p>\n<p>Direito \u00e0 cidadania<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7ar do tempo, verifica-mos que tanto o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o como o direito ao trabalh\u00e3o faziam parte de um outro direito e de um outro conceito muito mais alargado, que \u00e9 o direito \u00e0 cidadania: ser considerado cidad\u00e3o e ser visto como cidad\u00e3o. Por sua vez, a cidadania sup\u00f5e a autodetermina\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a pessoa decidir sobre a sua vida: o que quer vestir, onde quer ir, o que quer viver, como quer viver&#8230;<\/p>\n<p>Defici\u00eancia superior \u00e0 pessoa<\/p>\n<p>Uso \u00f3culos e tenho miopia. O facto de usar um auxiliar de vis\u00e3o n\u00e3o p\u00f5e em causa a minha condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o. Se uso canadianas, toda a gente v\u00ea que tenho uma limita\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel da mobilidade. Por exemplo, tenho de sair mais cedo de casa para chegar a horas ao trabalho. Mas a minha condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 beliscada por causa disso. Mas, se eu andar de cadeira de rodas, n\u00e3o sei se a maneira de olhar para mim e o sentimento que desperto nas pessoas ser\u00e1 o mesmo. Quando as pessoas est\u00e3o de p\u00e9, eu estou sentado. Estou numa posi\u00e7\u00e3o inferior. Tenho de olhar para cima. J\u00e1 n\u00e3o estou ao mesmo n\u00edvel.<\/p>\n<p>Invertamos a situa\u00e7\u00e3o. Sou fisicamente perfeito. Mas ao n\u00edvel da cogni\u00e7\u00e3o, estou seriamente afectado. Tenho um funcionamento cognitivo semelhante ao de uma crian\u00e7a de quatro anos. Ser\u00e1 que algu\u00e9m vai olhar e ver em mim um cidad\u00e3o? A primeira tend\u00eancia ser\u00e1 lidarem comigo como se eu tivesse a idade que pare\u00e7o ter e n\u00e3o a idade que realmente tenho. Ou seja, lidarem como seu eu tivesse quatro anos, aquilo a que se chamava \u201cidade mental\u201d. E por isso tratam-me por \u201ctu\u201d, usam diminutivos, obrigam-me a ir para onde querem, obrigam-me a comer tudo e de tudo&#8230; Mandam em n\u00f3s. Esta \u00e9 a tend\u00eancia mais generalizada. S\u00f3 porque n\u00e3o funcionamos ao n\u00edvel intelectual como as pessoas que n\u00e3o t\u00eam defici\u00eancia! Onde est\u00e1 a pessoa? Onde est\u00e1 o cidad\u00e3o?<\/p>\n<p>Pessoa superior \u00e0 defici\u00eancia<\/p>\n<p>O desafio \u00e9: procurar ver a pessoa para l\u00e1 das defici\u00eancias. Trinta anos depois de aparecerem as CERCI, diz-se \u201cpessoa com defici\u00eancia\u201d. Antes havia \u201cdeficientes\u201d \u2013 sem pessoa. Quando muito, dizia-se \u201co Deficiente\u201d. Volto \u00e0 quest\u00e3o inicial: A pessoa com defici\u00eancia, uma realidade escondida? O ideal \u00e9 que, ao tornar-se manifesta, n\u00e3o se d\u00ea por ela. Felizmente, temos muitos exemplos de pessoas apoiadas pela CERCIAV que est\u00e3o integradas em ambientes de trabalho. Nota-se a pessoa, n\u00e3o se d\u00e1 pela defici\u00eancia. \u00c9 para isto que trabalhamos.<\/p>\n<p>Fala-se muito de assumir a diferen\u00e7a. Somos todos pessoas, mas todos diferentes. H\u00e1 pessoas que t\u00eam defici\u00eancia e outras que n\u00e3o t\u00eam. Isso \u00e9 um dado objectivo. Temos que lidar com ele. \u00c9 por isso que tem que haver pedagogias especiais numa escola. Se ela tem alunos com defici\u00eancia, \u00e9 importante que os professores saibam que a t\u00eam. S\u00f3 assim podem adaptar e utilizar metodologias diferenciadas para responder da forma mais adequada a essa pessoa. \u00c9 um aluno enquanto aluno; mas se tem uma defici\u00eancia, \u00e9 preciso estar bem caracterizada, para se poder intervir da forma mais adequada. J\u00e1 falar de normal e anormal, isso est\u00e1 ultrapassado.<\/p>\n<p>Apenas boas inten\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Tento que n\u00e3o organizemos nada no dia da pessoa com defici\u00eancia. Fico sempre de p\u00e9 atr\u00e1s com os dias disto e daquilo. Quase sempre n\u00e3o passam de boas inten\u00e7\u00f5es. Mas h\u00e1 aspectos positivos. Hoje, nas nossas ruas, quase todos os passeios t\u00eam acessos desnivelados para pessoas que andam em cadeiras de rodas.<\/p>\n<p>Quem hoje convive com pessoas com defici\u00eancia, amanh\u00e3, quando for professor ou empres\u00e1rio, estar\u00e1 muito mais sens\u00edvel. Ser\u00e1 muito mais f\u00e1cil abrir as portas.<\/p>\n<p>Apoios necess\u00e1rios<\/p>\n<p>Na defici\u00eancia mental n\u00e3o h\u00e1 adapta\u00e7\u00f5es, como com um cego ou algu\u00e9m que trabalhe de cadeira de rodas. Nesses casos, os postos de trabalho podem ser adaptados. Com a defici\u00eancia mental, a rentabilidade sofre; donde, a empresa, para continuar a ter uma pessoa com defici\u00eancia mental, tem de ter alguma comparticipa\u00e7\u00e3o do Estado. E essa comparticipa\u00e7\u00e3o deveria manter-se enquanto fosse necess\u00e1ria. Toda a vida, se necess\u00e1rio. Isso faria com que muitas mais pessoas pudessem estar em locais de trabalho.<\/p>\n<p>Empres\u00e1rios sens\u00edveis<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios, que, ao contr\u00e1rio das ideias feitas, n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 a olhar para os cifr\u00f5es, est\u00e3o muito sens\u00edveis a aceitar estas pessoas nas suas empresas. Durante um, dois ou tr\u00eas anos, n\u00e3o t\u00eam de pagar, porque as pessoas com defici\u00eancia t\u00eam uma bolsa de forma\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que, com expectativas normalmente baixas, ao fim de um ou dois anos de os terem e verem como s\u00e3o capazes de funcionar, s\u00e3o eles pr\u00f3prios que t\u00eam a iniciativa de dar mais qualquer coisa. S\u00e3o eles que dizem: \u201cEle trabalha para mim, ele produz, at\u00e9 me sinto mal que ele receba s\u00f3 a bolsa que voc\u00eas lhe d\u00e3o\u201d. A alguns, at\u00e9 temos de dizer: \u201cN\u00e3o d\u00ea tanto\u201d.<\/p>\n<p>Afectividade <\/p>\n<p>em v\u00e1rias modalidades<\/p>\n<p>As pessoas com defici\u00eancia mental vivem os sentimentos e a sexualidade como qualquer um de n\u00f3s. Quanto mais os conhecemos, mais os vemos a funcionar mais parecidos connosco do que diferentes de n\u00f3s. J\u00e1 assisti ao nascimento de alguns namoros, que come\u00e7am com um olhar comprometido, uma m\u00e3o dada, um beijo furtivo. Algumas institui\u00e7\u00f5es pro\u00edbem.<\/p>\n<p>O conceito que aceito \u00e9 este: tal como no trabalho n\u00e3o t\u00eam todos as mesmas sa\u00eddas profissionais \u2013 alguns podem ter um contrato de trabalho, outros s\u00e3o integrados a n\u00edvel de emprego protegido e outros t\u00eam s\u00f3 trabalho ocupacional -, h\u00e1 pessoas capazes de constituir fam\u00edlia, outros podem ter uma rela\u00e7\u00e3o afectiva, mas n\u00e3o t\u00eam capacidade para criar filhos; outros n\u00e3o t\u00eam capacidade para viver um com o outro. S\u00e3o eternamente namorados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Vieira, formado em psicologia, trabalha h\u00e1 28 anos na CERCIAV (Cooperativa para a educa\u00e7\u00e3o e Reabilita\u00e7\u00e3o dos Cidad\u00e3os Inadaptados de Aveiro). Desde 1997 \u00e9 presidente da direc\u00e7\u00e3o desta institui\u00e7\u00e3o, que se dedica \u00e0s pessoas com defici\u00eancia. 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