{"id":7010,"date":"2006-04-27T16:30:00","date_gmt":"2006-04-27T16:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7010"},"modified":"2006-04-27T16:30:00","modified_gmt":"2006-04-27T16:30:00","slug":"os-ramos-da-cerejeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-ramos-da-cerejeira\/","title":{"rendered":"Os ramos da cerejeira"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia <!--more--> \u201cTenho saudades do meu av\u00f4. \u00c0s vezes, sonho com ele e vejo-me sentada ao seu lado, na cadeira rente ao ch\u00e3o, que os netos disputavam para ficar mais perto dele a ouvir as hist\u00f3rias que contava como ningu\u00e9m. Vejo-o enorme, sentado no seu cadeir\u00e3o de bra\u00e7os, com as pernas cruzadas e os \u00f3culos de meia-lua sobre a ponta do nariz, a ler o jornal concentrado e, ao mesmo tempo, muito atento a tudo \u00e0 sua volta. Vejo-o com todo o tempo do mundo a ter tempo para todos. Lembro-me da sua voz, das suas cores e da maneira como os olhos riam. Era um homem alto, lindo, cabelo imaculadamente branco, olhos azul-escuro que acinzentavam conforme a luz dos dias, andar compassado e tranquilo. Um andar de quem conhece a terra que pisa. (&#8230;) O tempo em que o meu av\u00f4 e a minha av\u00f3 eram vivos foi o tempo mais feliz da nossa fam\u00edlia. Amados pelos filhos e netos, eram igualmente venerados pelas noras e genros.<\/p>\n<p>O dia do piquenique anual, feito \u00e0 sombra da cerejeira mais antiga e perfumada das terras do meu av\u00f4, era um dia inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Vinham homens para assar o borrego e mulheres para ajudar a estender as toalhas na terra inclinada sobre a vinha.<\/p>\n<p>N\u00f3s divert\u00edamo-nos uns com os outros, divididos entre o prazer dos assados, as anedotas do tio Guilherme e os saltos para o tanque que todos os anos era limpo e cheio de \u00e1gua fresca.<\/p>\n<p>Alguns desses dias foram filmados e ficaram gravados para sempre. As imagens est\u00e3o gastas e n\u00e3o t\u00eam som mas, de cada vez que as vejo ou me lembro delas, oi\u00e7o as vozes com uma estranha nitidez. (&#8230;)<\/p>\n<p>Um dia, o meu av\u00f4 deitou-se, adormeceu e n\u00e3o voltou a acordar. Morreu exactamente como viveu.\u201d<\/p>\n<p>Se deixo aqui aquilo que escrevi h\u00e1 alguns anos, \u00e9 porque todas estas mem\u00f3rias e sentimentos continuam muito presentes e n\u00e3o sei dizer as mesmas coisas por outras palavras. Por outro lado, se recordo parte do que ent\u00e3o escrevi, \u00e9 justamente por ter referido a velha cerejeira.<\/p>\n<p>Foi por causa desta \u00e1rvore e de tudo o que vivemos \u00e0 sombra dos seus ramos que o gesto de algu\u00e9m, que eu s\u00f3 conhecia de nome mas era \u00edntimo da minha fam\u00edlia, me tocou de uma forma t\u00e3o profunda. Manuel Vieira, o padre \u201cManel\u201d, de quem tanto ouvi falar, mas com quem nunca me tinha cruzado por vivermos vidas diferentes, em lugares distantes, foi ter comigo \u00e0 entrada de um encontro onde participei recentemente e ao qual cheguei em cima da hora, cheia de nervos e sobressaltos. Manuel Vieira apresentou-se, abriu um sorriso enorme e estendeu a m\u00e3o com uma carta para mim. O envelope continha qualquer coisa invulgar e, mesmo atrasada, n\u00e3o resisti a abri-lo logo ali. Tinha tr\u00eas ramos de \u00e1rvore e um papel escrito dos dois lados. Os pequenos ramos estavam unidos por um el\u00e1stico e tinham sido cuidadosamente embrulhados num saquinho de pl\u00e1stico para os proteger melhor.<\/p>\n<p>Olhei com ar interrogativo, enquanto algu\u00e9m me puxava pelo bra\u00e7o para descer as escadas do enorme audit\u00f3rio, onde j\u00e1 estavam sentadas centenas de pessoas \u00e0 minha espera. N\u00e3o resisti a ler o papel enquanto me apresentavam \u00e0 plateia. E o que o papel dizia era muito simples e muito po\u00e9tico:<\/p>\n<p>\u201cPassei em Aldeia Velha na manh\u00e3 do dia 16 e parei \u00e0 sombra da cerejeira, ao lado da casa de campo. Subi \u00e0 parede e colhi um raminho desta cerejeira j\u00e1 velhinha mas ainda conhecida por ser a cerejeira do seu av\u00f4. Agora fala \u00e0 neta. Penso que as coisas, mesmo insignificantes, quandos nos ligam \u00e0 vida passada ou presente, deixam de ser insignificantes, para se tornarem importantes e mensageiras.\u201d Pode crer, querido padre Manuel Vieira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-7010","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7010"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7010\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}