{"id":7014,"date":"2006-04-27T16:44:00","date_gmt":"2006-04-27T16:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7014"},"modified":"2006-04-27T16:44:00","modified_gmt":"2006-04-27T16:44:00","slug":"uma-pedrada-no-charco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-pedrada-no-charco\/","title":{"rendered":"Uma pedrada no charco"},"content":{"rendered":"<p>Foi a grande not\u00edcia da semana. Com honras de p\u00e1ginas inteiras nos grandes jornais e tempo nobre nos programas televisivos. Mais um casino, em Lisboa! \u00c9 o nono no pa\u00eds. Mas j\u00e1 se anunciam mais quatro. Depois se ver\u00e1. Na inaugura\u00e7\u00e3o, muita gente importante, que jogo \u00e9 v\u00edcio e prazer para gente rica ou que o deseja ser sem grande trabalho. \u00c9 ainda v\u00edcio de gente de cabe\u00e7a perdida; e esta tamb\u00e9m n\u00e3o falta por a\u00ed. Entretanto, palavras de consola\u00e7\u00e3o: vai haver uma sala com m\u00e1quinas para gente com pouco dinheiro que pode jogar a c\u00eantimos; criaram-se, directa e indirectamente, muitos postos de trabalho; e, a favor do deficit do pa\u00eds, o que n\u00e3o \u00e9 para desprezar, j\u00e1 se anunciam lucros de muitas dezenas de milh\u00f5es com impostos garantidos\u2026 Estamos na primeira fila dos pa\u00edses importantes!&#8230; Nem mais. Quem fala de crise, \u00e9 maldoso porque est\u00e1 \u00e0 vista de toda a gente que, se houvesse crise, n\u00e3o abriam casinos.<\/p>\n<p>Eu sei que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser consci\u00eancia cr\u00edtica numa sociedade que inverte os valores e se constr\u00f3i fora da realidade concreta das pessoas e do conjunto nacional. Por isso, o caminho mais f\u00e1cil \u00e9 contestar todos os valores e dizer que eles n\u00e3o existem e os que ainda por a\u00ed se proclamam n\u00e3o fazem falta. O dinheiro \u00e9 tudo e quem o tem \u00e9 grande. <\/p>\n<p>A prop\u00f3sito desta hist\u00f3ria do jogo nos casinos, nunca me saiu da mem\u00f3ria o romance \u201cVinte e quatro n\u00e3o da vida de uma mulher\u201d, lido na juventude. E, ainda, o facto ouvido, nos meus tempos de crian\u00e7a, de um fidalgo l\u00e1 da Beira Baixa, recordo bem o nome dele, que estava t\u00e3o viciado no jogo, e j\u00e1 na mis\u00e9ria por via do mesmo, que acabou por jogar a pr\u00f3pria esposa, sendo necess\u00e1ria interven\u00e7\u00e3o do tribunal para decidir a invalidade de t\u00e3o bizarra aposta.<\/p>\n<p>Quem sabe diagnosticar as novas formas de escravatura, afirma com conhecimento que o v\u00edcio do jogo \u00e9, de longe, maior e mais nefasto e complicado, que o v\u00edcio da droga, do \u00e1lcool, do tabaco ou do sexo. N\u00e3o parece. \u00c9 preciso o facto ser muito escandaloso para vir nos jornais. Fal\u00eancias em empresas, provocadas pelo jogo, encontram explica\u00e7\u00e3o na globaliza\u00e7\u00e3o da economia, na crise internacional e na impossibilidade de concorrer com os chineses&#8230;<\/p>\n<p>Neste mundo, sem nexo nem horizontes de vida, os que traficam, seja o que for, uns s\u00e3o condecorados, outros presos.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, t\u00eam-se cruzado comigo v\u00edtimas do jogo. Desesperadas, com o peso de um rosto que n\u00e3o \u00e9 o seu, com a vergonha de um v\u00edcio que os amigos, quando n\u00e3o mesmo a fam\u00edlia, nem sonham, sem verem como sair do cerco onde se sentem emparedados e como responder a compromissos assumidos, com a faca ao peito ou o cano na garganta, a que n\u00e3o podem fugir a n\u00e3o ser pela porta de quem se declara vencido. Como s\u00e3o poss\u00edveis os lucros de milh\u00f5es, sen\u00e3o \u00e0 custa de quem perdeu o controle de si pr\u00f3prio, entrou no c\u00edrculo vicioso de continuar a tentar, vendo bens e esperan\u00e7a a esfumarem-se de vez? O jogo no casino n\u00e3o \u00e9 um mero divertimento.<\/p>\n<p>Quando se teima em continuar a jogar, muitas vezes o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 seu, \u00e9 a atrac\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel do abismo.<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, o importante \u00e9 tornar os casinos cada vez mais pr\u00f3ximos de toda a gente e democratiz\u00e1-los, de modo a que todos possam ter oportunidade de uma riqueza f\u00e1cil ou de um suic\u00eddio sem apelo. <\/p>\n<p>Dir\u00e3o que s\u00f3 l\u00e1 vai quem quer, que n\u00e3o podemos estar atr\u00e1s dos outros, que cr\u00edticas como esta n\u00e3o merecem qualquer considera\u00e7\u00e3o. Pois seja. Por\u00e9m, aqui fica mais um grito de den\u00fancia, o inc\u00f3modo de uma consci\u00eancia cr\u00edtica, a ousadia de dizer que o progresso do pa\u00eds, ou o caminho para a sua liberta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode passar pelo fomento de novas formas de escravatura, mesmo que sejam aliciantes e rent\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi a grande not\u00edcia da semana. Com honras de p\u00e1ginas inteiras nos grandes jornais e tempo nobre nos programas televisivos. Mais um casino, em Lisboa! \u00c9 o nono no pa\u00eds. Mas j\u00e1 se anunciam mais quatro. Depois se ver\u00e1. 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