{"id":7024,"date":"2006-05-04T16:40:00","date_gmt":"2006-05-04T16:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7024"},"modified":"2006-05-04T16:40:00","modified_gmt":"2006-05-04T16:40:00","slug":"cronica-da-expedicao-solidaria-a-marrocos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/cronica-da-expedicao-solidaria-a-marrocos\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica da expedi\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria a Marrocos"},"content":{"rendered":"<p>SDAM \/ ORBIS \u2013 Expedi\u00e7\u00e3o Humanit\u00e1ria a Demnate (Marrocos), de 7 a 16 de Abril <!--more--> \u201cA casa onde vais entrar n\u00e3o \u00e9 tua, \u00e9 do teu irm\u00e3o. \u00c9 diferente da tua, mas ele estende-te a m\u00e3o. Abra\u00e7a-o com ternura.\u201d<\/p>\n<p>A viagem foi cansativa, para o corpo obrigado \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da condu\u00e7\u00e3o, da navega\u00e7\u00e3o por GPS e com mapas dobrados e cheios de p\u00f3, pela aten\u00e7\u00e3o em seguir o jipe da frente e n\u00e3o perder o de tr\u00e1s de vista. Foi ainda mais cansativa para os olhos, exaustos j\u00e1 de verem pobreza extrema e mis\u00e9ria. Aqui mesmo ao lado, apelos e choros t\u00e3o desesperados quantos os de Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9, t\u00e3o esperan\u00e7osos quanto os da Am\u00e9rica Latina e da Amaz\u00f3nia profunda. Cansa ver tudo isto, cansa ver que h\u00e1 tanto para fazer ainda na luta contra a pobreza, cansa ver um mundo que ainda aceita que hoje, enquanto fizermos seja l\u00e1 o que for, entre o nosso acordar e o nosso adormecer, com o nosso est\u00f4mago composto de 4 ou 5 ou 6 refei\u00e7\u00f5es, mais 20 000 pessoas ter\u00e3o morrido de fome\u2026 E amanh\u00e3 igual, e depois igual, e depois&#8230;. Um mundo que aceita que, em Angola, desapare\u00e7am das farm\u00e1cias vacinas da c\u00f3lera, para aparecerem no mercado negro a pre\u00e7os imposs\u00edveis, um mundo que aceita que haja pessoas que nem vestir de seu tenham, nem comida, nem nada.<\/p>\n<p>Al\u00edvio da chegada<\/p>\n<p>N\u00e3o esperava, aqui mesmo ao lado, para l\u00e1 do Alto Atlas, \u00e0 entrada de \u00c1frica, bem perto das cidades tur\u00edsticas de Casablanca, Rabat ou Marrakesh. A mesma mis\u00e9ria que j\u00e1 vi l\u00e1 longe.<\/p>\n<p>Demnate \u00e9 uma pequena cidade, que faz lembrar um lugarejo qualquer de \u00c1frica. J\u00e1 se cheira o deserto, apesar de, \u00e0 volta, haver montanhas de um lado, pedras do outro. H\u00e1 alguns fios de \u00e1gua e o trigo que ele vai deixando cultivar.<\/p>\n<p>Ao fim de tr\u00eas dias de condu\u00e7\u00e3o, cheg\u00e1mos l\u00e1, com os jipes a arrastar o ch\u00e3o, as suspens\u00f5es bem torcidas. Foi um duplo al\u00edvio descarregar a ajuda humanit\u00e1ria. Poupar os carros finalmente do peso e cumprir a miss\u00e3o confiada. Nos garotos que fui vendo, fui notando a pobreza e a simplicidade. Uma aproxima\u00e7\u00e3o, desconfiada primeiro, mas depois, com um gesto, um toque de bola ou uma flor, o sorriso era o mesmo que o dos outros garotos: sujo, delicado, sincero, como os de Angola, os da Amaz\u00f3nia, os de Portugal. Muitos dos mi\u00fados eram vestidos pelos professores; a escrita era em lousas, as ora\u00e7\u00f5es era onde calhasse, virados para Meca, \u00e0s horinhas certas. Ouvia-se o canto do Minarete e o tempo parecia correr mais devagar, mais sereno. Senti naqueles momentos que as pessoas que vi ajoelhadas estavam a falar com o Deus com quem eu falo. Era o mesmo!<\/p>\n<p>Objectivo maior do que n\u00f3s<\/p>\n<p>Depois de alguns dias em Demnate, seguimos caminho, para as aldeias assistidas pela AESVT. A\u00ed, perdidos entre montanhas de pedra e bancos de areia, no meio do nada que sabia a absoluto, bastava parar cinco minutos que nos aparecia gente. Pediam \u00e1gua, canetas, cal\u00e7ado. O sentimento de impot\u00eancia invadia o grupo nesses momentos, sent\u00edamos um certo murm\u00fario na nossa consci\u00eancia de humanidade. Os intercomunicadores ficavam em sil\u00eancio nesses momentos em que o tempo se alongava por vis\u00f5es de pessoas, lugares diferentes, que j\u00e1 n\u00e3o deviam existir. O p\u00f3 inundava-nos, metia-se por todo o lado aquela areia solta, fininha e compacta, os olhares, o cansa\u00e7o, a sujidade, as olheiras, o esfor\u00e7o, nosso e dos carros, as pedras, os obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>\u00c9 isto que trago de mais uma miss\u00e3o. Diferente esta: n\u00e3o fomos para estar, fomos para transportar; mas Deus entrou-me na mesma pelos olhos dentro, de uma maneira que n\u00e3o nos deixa fugir nem sossegar.<\/p>\n<p>A viagem \u00e9 isso, uma milagrosa sucess\u00e3o de obst\u00e1culos que os carros vencem, que n\u00f3s vencemos, porque o objectivo \u00e9 maior do que n\u00f3s. Represent\u00e1mos a Diocese de Aveiro, a Escola de \u00cdlhavo, a C\u00e1ritas Diocesana, os Bombeiros, todas as institui\u00e7\u00f5es e, mais do que isso, todas as pessoas que nos deram de si para levarmos a irm\u00e3os nossos, diferentes na f\u00e9, mas filhos do mesmo Pai.<\/p>\n<p>A viagem \u00e9 isso: poeira, pedra, pneus furados, esfor\u00e7o f\u00edsico e for\u00e7a, para ver tudo o que se viu; \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o ao fim da tarde; \u00e9 o al\u00edvio de montar a tenda para descansar ou abrir o saco cama sobre a cama poeirenta de um qualquer hotel; \u00e9 o refugiar-se nos beirais das casas e mesmo assim levar com a areia na cara; s\u00e3o as m\u00e3os sujas de \u00f3leo; s\u00e3o as pessoas que se cruzam, por momentos, no nosso caminho, que nos ajudam, que nos tocam, que s\u00e3o n\u00f3madas como n\u00f3s e est\u00e3o sempre noutros lugares; mundos que n\u00e3o s\u00e3o os nossos, mas que vamos sentindo como um s\u00f3 e onde vamos deixando marcas, trazendo cicatrizes, hist\u00f3rias das coisas da manh\u00e3, do fim da tarde, das horas de ora\u00e7\u00e3o, hist\u00f3rias de partilha e Amor, disfar\u00e7adas de ajuda humanit\u00e1ria\u2026<\/p>\n<p>A viagem \u00e9 isso, foi e ser\u00e1, at\u00e9 que o mundo seja mais justo e fraterno.<\/p>\n<p>Pedro A. Neto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SDAM \/ ORBIS \u2013 Expedi\u00e7\u00e3o Humanit\u00e1ria a Demnate (Marrocos), de 7 a 16 de Abril<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-7024","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jovens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7024","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7024"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7024\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7024"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7024"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7024"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}