{"id":7104,"date":"2006-05-10T11:52:00","date_gmt":"2006-05-10T11:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7104"},"modified":"2006-05-10T11:52:00","modified_gmt":"2006-05-10T11:52:00","slug":"pode-a-ciencia-ser-dogmatica-e-o-saber-indiscutivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pode-a-ciencia-ser-dogmatica-e-o-saber-indiscutivel\/","title":{"rendered":"Pode a ci\u00eancia ser dogm\u00e1tica e o saber indiscut\u00edvel?"},"content":{"rendered":"<p>Muitas d\u00e9cadas atr\u00e1s, num esquema cultural como o nosso, no geral pouco aberto a confrontos com outros saberes e pareceres, a tend\u00eancia para dogmatizar, por parte dos poucos que iam tendo acesso ao que de novo aparecia no campo cientifico menos vulgarizado, era muito frequente. Lembro-me que foi assim com as teorias de Freud, um homem de ci\u00eancia de que se comemoram agora, por todo o lado, os 150 anos do seu nascimento. Uma boa ocasi\u00e3o para reflectir.<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 ent\u00e3o andava com livros na m\u00e3o para aprender mais do que aquilo que se exigia ao comum, ou quem tinha de ensinar ci\u00eancias que tinham a ver com o conhecimento da pessoa e os comportamentos humanos, n\u00e3o podia passar ao lado de Freud, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podia deixar de procurar outros pontos de refer\u00eancia para uma compreens\u00e3o mais adequada. A compreens\u00e3o no campo cient\u00edfico nunca fecha portas a novas aquisi\u00e7\u00f5es ou \u00e0 melhor clarifica\u00e7\u00e3o daquilo a que j\u00e1 se teve acesso. Foi assim comigo. N\u00e3o pretendendo ser, neste aspecto, um cientista, a responsabilidade de educador e de professor de gente que havia de ser \u00fatil a outros, sempre me levou al\u00e9m do livro de texto e do que fazia parte da sua constela\u00e7\u00e3o. Procurei estudar Freud, ir pela sua m\u00e3o um pouco mais al\u00e9m, para desvendar a import\u00e2ncia do inconsciente e sua influ\u00eancia, perceber o que no seu entender significavam os meios propostos para o conseguir.<\/p>\n<p>Pela forma\u00e7\u00e3o humanista e filos\u00f3fica e uma compreens\u00e3o mais alargada da pessoa e das suas riquezas e capacidades naturais, sem retirar \u00e0 sexualidade o seu sentido e dimens\u00e3o, cedo achei exagerado o postulado freudiano que referenciava de algum modo ao sexo e \u00e0 sua influ\u00eancia os problemas que afectavam as pessoas. Freud era um psiquiatra, a\u00ed se desenvolvia o seu mundo. Ele passou, ent\u00e3o, a ser a pedra de toque do valor indispens\u00e1vel dos psiquiatras, os novos \u201cgurus\u201d da sociedade, todos a confessarem-se freudianos, porque, em geral, n\u00e3o tinham outro horizonte sen\u00e3o as escolas europeias que os haviam formado. Foram muitos destes que passaram a fazer escola entre n\u00f3s. As novas gera\u00e7\u00f5es falavam, assim, a mesma linguagem,<\/p>\n<p>Aparecem agora cientistas abalizados, nacionais e estrangeiros, a ler com serenidade as aquisi\u00e7\u00f5es de Freud e os aspectos em que enriqueceu o patrim\u00f3nio cient\u00edfico, mas, ao mesmo tempo, a relativizar, com igual serenidade, os seus dogmatismos redutores, continuados pelos disc\u00edpulos mais fi\u00e9is e menos cr\u00edticos de ontem e de hoje.<\/p>\n<p>Certamente que os psiquiatras, psicanalistas e psic\u00f3logos, cada um no seu campo pr\u00f3prio, mais preparados e sempre a actualizar-se, abriram seus horizontes e, sem fecharem os livros de Freud, sabem relativizar os absolutos de ent\u00e3o, conscientes de que na ci\u00eancia eles s\u00e3o empobrecedores e paralisam a capacidade e a vontade de estar dispon\u00edvel para ir mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>Hoje, para muita gente e cada vez para mais gente, o div\u00e3 do psicanalista e o consult\u00f3rio do psiquiatra e do psic\u00f3logo tornam-se indispens\u00e1veis. Perante situa\u00e7\u00f5es doentias sem especiais sinais org\u00e2nicos, ouve-se dizer \u201cj\u00e1 foste ao psiquiatra?\u201d; ou: \u201cj\u00e1 fizeste psican\u00e1lise?\u201d. O estilo de vida que por a\u00ed se vive, sem controle dos sentimentos, das apet\u00eancias, do dom\u00ednio do tempo, um estilo descomprometido de valores e de regras, de recurso di\u00e1rio \u00e0 leitura sentimental, com preito ao superficial e ao ef\u00e9mero, n\u00e3o pode deixar de esvaziar as pessoas, levar \u00e0 perda do sentido, fechar os horizontes da liberdade interior, fazer entrar em agonia ou em incapacidade de luta, privar de protagonismo e de vontade de liberta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pode deixar de gerar doentes, cada vez mais graves e menos adaptados \u00e0 vida e aos desafios normais que ela comporta. Ser\u00e1 que tudo isto encontra no div\u00e3 e no consult\u00f3rio a solu\u00e7\u00e3o e a cura?<\/p>\n<p>A pessoa humana, em toda a sua dimens\u00e3o, leva consigo horizontes de vida e de viv\u00eancia que s\u00e3o gritos, profundos e incontidos, de regresso \u00e0s suas origens mais rec\u00f4nditas. Gritos que n\u00e3o se satisfazem apenas com o conhecimento do inconsciente e da sua influ\u00eancia. O m\u00e9dico da psique sente tanto as suas limita\u00e7\u00f5es, como o que p\u00f5e o seu saber ao cuidado da sa\u00fade f\u00edsica e que j\u00e1 n\u00e3o se pode dispensar de ver a pessoa no seu conjunto e na sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O homem ser\u00e1 sempre o \u201cgrande desconhecido\u201d, mesmo quando se vai conhecendo melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas d\u00e9cadas atr\u00e1s, num esquema cultural como o nosso, no geral pouco aberto a confrontos com outros saberes e pareceres, a tend\u00eancia para dogmatizar, por parte dos poucos que iam tendo acesso ao que de novo aparecia no campo cientifico menos vulgarizado, era muito frequente. 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