{"id":7107,"date":"2006-05-10T12:04:00","date_gmt":"2006-05-10T12:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7107"},"modified":"2006-05-10T12:04:00","modified_gmt":"2006-05-10T12:04:00","slug":"um-bispo-pela-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-bispo-pela-liberdade\/","title":{"rendered":"Um bispo pela liberdade"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista a Manuel Pinho Ferreira no centen\u00e1rio de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes <!--more--> Completam-se hoje 100 anos sobre o nascimento de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, o bispo do Porto que Salazar obrigou ao ex\u00edlio. Na origem do epis\u00f3dio, esteve um documento com assuntos a abordar num encontro que nunca veio a acontecer. Esse Pr\u00f3-Mem\u00f3ria (ou simplesmente \u201cCarta a Salazar\u201d), datado de 13 de Julho 1958, surgiu um m\u00eas ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es fraudulentas que derrotaram Humberto Delgado (8 de Junho de 1958).<\/p>\n<p>Sobre estes acontecimentos, o Correio do Vouga entrevistou o padre Manuel de Pinho Ferreira, em plena prepara\u00e7\u00e3o de uma confer\u00eancia no Congresso sobre D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, que por estes dias decorre no Porto. Pinho Ferreira \u00e9 autor da tese de doutoramento \u201cA Igreja e o Estado Novo na Obra de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes\u201d, fundamental para compreender a vida o pensamento do bispo que incomodou o Estado Novo. J.P.F.<\/p>\n<p>Qual o conte\u00fado da carta enviada a Salazar?<\/p>\n<p>O conte\u00fado da carta \u00e9 uma an\u00e1lise muito detalhada dos grandes problemas que afligiam a sociedade portuguesa nesse tempo.<\/p>\n<p>Em que circunst\u00e2ncias surgiu?<\/p>\n<p>Tinham ocorrido as elei\u00e7\u00f5es de 8 de Junho de 1958, em que concorreu Humberto Delgado, e havia todo um conjunto de queixas de que Humberto Delgado tinha vencido as elei\u00e7\u00f5es. Mas, oficialmente, n\u00e3o foi considerada essa vit\u00f3ria, porque a Legi\u00e3o portuguesa encarregou-se de invadir v\u00e1rias sec\u00e7\u00f5es de voto, principalmente na margem sul do Tejo, onde Humberto Delgado tinha ganho por uma express\u00e3o muito grande e mesmo at\u00e9 no distrito do Porto.<\/p>\n<p>Ora, uns dias antes da elei\u00e7\u00e3o, soube-se que D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes n\u00e3o iria votar por estar em Barcelona, onde ia fazer uma confer\u00eancia no congresso dos empres\u00e1rios cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o ao Pa\u00e7o do Porto a Sr.a L\u00edvia Nosolini [esposa de Jos\u00e9 Nosolini, deputado e militante cat\u00f3lico, que Salazar conhecera no Centro Acad\u00e9mico da Democracia Crist\u00e3, em Coimbra], acompanhada por um grupo de cat\u00f3licos do Porto, que insistiram que era importante que o bispo votasse, para exemplo das outras pessoas, porque sabiam que o bispo era um pouco avan\u00e7ado no seu pensamento social. Ele disse que n\u00e3o, que at\u00e9 se tinha ausentado em outras elei\u00e7\u00f5es. Ausentava-se propositadamente, porque n\u00e3o concordava com certos problemas a que o governo n\u00e3o dava solu\u00e7\u00e3o. A senhora sugeriu ent\u00e3o que ele tivesse uma conversa s\u00e9ria com Salazar. Mas ele, que acabou por votar, considerava que n\u00e3o ia adiantar nada, argumentando que h\u00e1 meses Salazar recebera o bispo da Beira (Mo\u00e7ambique), D. Sebasti\u00e3o Soares de Resende, e deixara-o falar, falar, falar, falar, sem dizer nada. No fim, limitara-se a dizer: \u201cSe faz favor, v\u00e1-se embora que eu j\u00e1 o ouvi\u201d. \u201cPortanto \u2013 conclu\u00edu o bispo do Porto \u2013 , seria in\u00fatil eu ir l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Mas ela telefonou ao Presidente do Conselho e ele disse que sim, que o receberia com todo o gosto. Decidiu ent\u00e3o redigir esse Pr\u00f3-Mem\u00f3ria, quando Humberto Delgado contestava que tinha vencido as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Que assuntos eram abordados no Pr\u00f3-Mem\u00f3ria?<\/p>\n<p>Era uma esp\u00e9cie de memorial, de rascunho, dos problemas de que queria falar com Salazar. Um dos assuntos era o corporativismo. D. Ant\u00f3nio n\u00e3o podia conceber o cor-porativismo. Segundo a doutrina que ele conhecia muito bem, o corporativismo de Estado n\u00e3o era um verdadeiro direito de associa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma estrutura do Estado. Para ele, o ideal era o sindicalismo livre.<\/p>\n<p>Depois, havia a quest\u00e3o dos partidos. N\u00e3o concordava com esta organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de haver apenas o partido \u00fanico, que era a Uni\u00e3o Nacional. Outro dos assuntos era a quest\u00e3o da greve. Ele sabia que a doutrina da Igreja reconhece a greve como direito dos trabalhadores, desde que seja como \u00faltima inst\u00e2ncia, se ponha de parte a viol\u00eancia, e que <\/p>\n<p>o bem p\u00fablico n\u00e3o venha a sofrer um grande preju\u00edzo com a paralisa\u00e7\u00e3o do trabalho. D. Ant\u00f3nio conhecia muito bem a doutrina da Igreja e n\u00e3o concordava de forma nenhuma com a proibi\u00e7\u00e3o absoluta da greve, considerada um crime. E ele dizia que tinha muita pena, porque os comunistas, ao aceitarem a greve, estavam com a Igreja, enquanto o Estado Novo, que tantas vezes se cobria com a doutrina da Igreja, realmente n\u00e3o aceitava um direito dos trabalhadores, reconhecido pela Igreja. Outra quest\u00e3o era a participa\u00e7\u00e3o dos cat\u00f3licos na pol\u00edtica. D. Ant\u00f3nio n\u00e3o podia conceber que a Igreja pudesse permitir que os seus filhos fossem pessoas diminu\u00eddas ao n\u00e3o se lhes reconhecer um direito de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O bispo fazia uma s\u00e9rie de perguntas, como se ele tinha alguma coisa a opor a que os cat\u00f3licos se reunissem para discutir problemas pol\u00edtico-sociais, que quisessem publicar os seus discursos sobre isso e que resolvessem concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, n\u00e3o como partido, mas como associa\u00e7\u00e3o c\u00edvica&#8230; Outros problemas ali apareciam, como a mis\u00e9ria cong\u00e9nita do povo portugu\u00eas: o subdesenvolvimento crasso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras na\u00e7\u00f5es europeias. Ele conhecia bastante bem a Europa. Dizia que n\u00e3o andava de olhos fechados e que via que, no povo portugu\u00eas, ainda predominava o farrap\u00e3o, o faminto, o p\u00e9 descal\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>O encontro nunca chegou a acontecer&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o houve encontro, porque pouco depois a carta come\u00e7ou a ser divulgada. Corria em c\u00f3pias nas m\u00e3os do grande p\u00fablico.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 que divulgou essa carta?<\/p>\n<p>Ainda hoje \u00e9 um mist\u00e9rio. D. Ant\u00f3nio, um dia, veio aqui [Semin\u00e1rio de Aveiro] falar com D. Domingos da Apresenta\u00e7\u00e3o Fernandes [Bispo de Aveiro]. Veio de noite, para n\u00e3o se dar conta da vinda dele. O Pe Jo\u00e3o Paulo Ramos [ent\u00e3o secret\u00e1rio do Bispo de Aveiro] ficou de plant\u00e3o a receb\u00ea-lo. D. Domingos ficou com uma c\u00f3pia da carta e deu-a ler ao dr. Francisco do Vale Guimar\u00e3es [antigo governador civil de Aveiro]. Este t\u00ea-la-\u00e1 dado ao seu motorista para fazer uma c\u00f3pia. O D. Ant\u00f3nio esteve sempre persuadido de que essa foi uma das fontes de divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra possibilidade de divulga\u00e7\u00e3o ter\u00e1 passado por Bragan\u00e7a. O ministro do Interior, que era de Tr\u00e1s-Os-Montes, ter\u00e1 mostrado a carta a um cunhado, ou este a ter\u00e1 tirado da sua pasta. A verdade \u00e9 que o D. Ant\u00f3nio queixou-se que foi uma trai\u00e7\u00e3o essa divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Carta precipitou uma s\u00e9rie de acontecimentos\u2026<\/p>\n<p>Houve um imenso falat\u00f3rio a prop\u00f3sito da carta. O pr\u00f3prio Avante (jornal do Partido Comunista) a saudou como uma sinal de que os pr\u00f3prios cat\u00f3licos come\u00e7avam a contestar o regime. No dia 18 de Setembro, Salazar manda um of\u00edcio ao N\u00fancio, em que p\u00f5e o problema: ou a Santa S\u00e9 resolve o problema do bispo do Porto, ou ent\u00e3o romper\u00e1 o cumprimento da Concordata. P\u00f4s a Santa S\u00e9 entre a espada e a parede. O N\u00fancio ficou muito atrapalhado. Ele estava em Roma, mas recebeu a carta e outros documentos por mala diplom\u00e1tica. Levou \u00e0 Secretaria de Estado; e esta respondeu passados uns tempos, n\u00e3o vendo grande gravidade no problema.<\/p>\n<p>Entretanto, na coroa\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII, D. Ant\u00f3nio esteve em Roma e quis oferecer \u00e0 Santa S\u00e9 o governo da diocese do Porto. A Santa S\u00e9 n\u00e3o aceitou. Ora, as press\u00f5es de Vasco Vieira da Cunha, ministro de Salazar, sobre a Santa S\u00e9 continuaram e o Presidente do Conselho fez saber que, se o Bispo do Porto sa\u00edsse do pa\u00eds, n\u00e3o voltava a entrar \u2013 o que veio de facto acontecer, a pretexto de umas f\u00e9rias, sugeridas pelo administrador apost\u00f3lico do Porto, D. Jos\u00e9 da Costa Nunes, amigo de Salazar.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio, que nessa altura estava na Espanha, andou a ser procurado; e na Nunciatura de Madrid dizem-lhe que ele n\u00e3o pode entrar em Portugal. <\/p>\n<p>Como reagiu o Bispo do Porto?<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio aceitou; mas no primeiro domingo de Outubro de 1959 apresentou-se na fronteira. N\u00e3o era para entrar, porque ele sabia que n\u00e3o entrava. Mas \u00e9 que Salazar dizia a toda a gente que n\u00e3o tinha nada a ver com o assunto. Ele apresentou-se na fronteira de Valen\u00e7a para desmascarar Salazar. Como ele dizia, \u201ca m\u00e3o do tirano mostrou-se\u201d. Ali, toda a gente veio a saber que era Salazar que n\u00e3o o deixava entrar.<\/p>\n<p>Havia antecedentes nas cr\u00edticas do Bispo do Porto?<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia dos bispos portugueses, que decorreu no Semin\u00e1rio dos Olivais [Lisboa] em 1955, e j\u00e1 antes, D. Ant\u00f3nio insistiu numa pastoral colectiva sobre a condi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Os trabalhadores estavam numa situa\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel; e quem lucrava com isto era o Partido Comunista. O D. Ant\u00f3nio insistiu que era necess\u00e1rio publicar algo. Os bispos acabaram por concordar e entregaram a D. Ant\u00f3nio a responsabilidade de redigir o projecto dessa pastoral colectiva. No dia 5 de Janeiro de 1955, D. Ant\u00f3nio apresentou \u00e0 CEP o projecto. Esse projecto n\u00e3o era mais do que um conjunto de cita\u00e7\u00f5es de Doutrina Social da Igreja, que iriam servir para redigir essa pastoral. D. Ant\u00f3nio coligiu essas fontes, para que depois os bispos tivessem a m\u00e1xima liberdade para redigir conforme entendessem. Ele apresentou aquilo; e alguns bispos come\u00e7aram a contestar, que era um assunto delicado, principalmente o arcebispo de \u00c9vora, D. Manuel Trindade Salgueiro. Resolveram ent\u00e3o nomear uma nova comiss\u00e3o que acompanhasse D. Ant\u00f3nio, mas nomearam precisamente aqueles que foram os mais contestat\u00e1rios. O D. Ant\u00f3nio viu aquilo e dispensou-se de continuar. Considerou que n\u00e3o valia a pena. E essa pastoral foi abandonada.<\/p>\n<p>Noutras ocasi\u00f5es, D. Ant\u00f3nio tomou posi\u00e7\u00f5es que incomodaram o regime, como quando defendeu o livre sindicalismo numa reac\u00e7\u00e3o ao jornalista Lello Portella, do Jornal de Not\u00edcias, ou o direito \u00e0 greve, numa confer\u00eancia do CACD de Coimbra. Essas confer\u00eancias tiveram uma difus\u00e3o enorme. Na Universidade de Coimbra, havia gente que perguntava se ele n\u00e3o teria perdido o ju\u00edzo&#8230;<\/p>\n<p>A inspira\u00e7\u00e3o do D. Ant\u00f3nio \u00e9 sempre a Doutrina Social da Igreja, ou houve algum autor que o marcasse?<\/p>\n<p>Na \u00faltima fase, depois do 25 de Abril, foi sem d\u00favida Karl Rahner (te\u00f3logo alem\u00e3o, jesu\u00edta, 1904-1984). Criou uma admira\u00e7\u00e3o por ele e est\u00e1 sempre a cit\u00e1-lo. Os seus escritos at\u00e9 se tornam um bocadinho aborrecidos.<\/p>\n<p>No n\u00famero 16 da Gaudium et Spes (Constitui\u00e7\u00e3o Pastoral sobre a Igreja no Mundo contempor\u00e2neo), aparece uma concep\u00e7\u00e3o da pessoa humana muito curiosa. Diz-se que a pessoa humana \u00e9 um ser aberto ao transcendente e que \u201c\u00e9 no santu\u00e1rio da sua consci\u00eancia que Deus espera o homem para travar com ele um di\u00e1logo de amor&#8230;\u201d Isto \u00e9 de Rahner. Ora o D. Ant\u00f3nio sempre teve esta concep\u00e7\u00e3o de pessoa. Isso foi para o bispo de Porto uma esp\u00e9cie de motivo de sedu\u00e7\u00e3o para ler Karl Rahner. Foi o seu grande mestre.<\/p>\n<p>Conheceram-se, uma vez que ambos estiveram no conc\u00edlio, um como bispo e o outro como te\u00f3logo perito?<\/p>\n<p>Creio que sim. Uma vez, no Col\u00e9gio Portugu\u00eas, houve uma confer\u00eancia de Rahner, em que eu tamb\u00e9m estive presente, e o D. Ant\u00f3nio estava l\u00e1. Em Roma, o D. Ant\u00f3nio estava sempre muito atento aos melhores mestres.<\/p>\n<p>Como nasceu a sua paix\u00e3o por D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes?<\/p>\n<p>Eu era um jovem padre e ensinava no ISET de Lisboa, uma escola frequentada pelos seminaristas de Aveiro, que estavam no Semin\u00e1rio dos Olivais. Quando o ISET fechou, porque entretanto surgiu a Universidade Cat\u00f3lica, reuniram os livros da biblioteca e quiseram oferecer livros aos professores, como uma esp\u00e9cie de retribui\u00e7\u00e3o suplementar. Nessa distribui\u00e7\u00e3o calharam-me v\u00e1rias coisas de D. Ant\u00f3nio: um livro sobre o minist\u00e9rio sacerdotal e a paz e uma colect\u00e2nea de escritos antes do ex\u00edlio. Comecei a l\u00ea-los e entusiasmei-me. Sempre gostei muito do cap\u00edtulo do Direito que aborda as rela\u00e7\u00f5es Igreja Estado. Quando pensei em fazer uma tese sobre D. Ant\u00f3nio, consultei o arquivo diplom\u00e1tico do Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros e ainda mais impressionado fiquei. Depois, o arquivo de Salazar foi aberto ao p\u00fablico. Nesse arquivo encontram-se as cartas dos bispos a D. Ant\u00f3nio, mas n\u00e3o se encontram as cartas de D. Ant\u00f3nio para os bispos. O D. Ant\u00f3nio n\u00e3o utilizava o correio porque sabia que a carta era interceptada. Utilizava portadores pessoais. Consultei ent\u00e3o o arquivo da Funda\u00e7\u00e3o Spes, que ainda n\u00e3o est\u00e1 organizado. Penso que at\u00e9 hoje fui a \u00fanica pessoa que consultou essas cartas.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes foi um percursor do Conc\u00edlio\u2026<\/p>\n<p>Em muitos aspectos, sem d\u00favida. Desde a primeira hora defendeu que a Igreja n\u00e3o quer mais para exercer a sua miss\u00e3o do que a liberdade que lhe permita anunciar o evangelho e ensinar a sua doutrina. N\u00e3o precisa de privil\u00e9gios. Isso veio a ser abalizado na Declara\u00e7\u00e3o sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae \u2013 documento do Vaticano II).<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia que vou fazer na ter\u00e7a-feira (ontem), vou referir que, quando saiu a Pacem in Terris (PT &#8211; enc\u00edclica de Jo\u00e3o XXIII, publicada em 1963, sobre os direitos humanos), criaram-se os boatos de que o D. Ant\u00f3nio teria participado na redac\u00e7\u00e3o da PT ou que se sentia vingado pela enc\u00edclica. Mas ele pr\u00f3prio deixou manuscrito; \u201cafinal est\u00e1 aqui tudo aquilo que eu queria dizer\u201d. Vou precisamente fazer uma compara\u00e7\u00e3o entre a doutrina da PT e a doutrina do D. Ant\u00f3nio nesse Pr\u00f3-Mem\u00f3ria enviado a Salazar. O D. Ant\u00f3nio conhecia, como ningu\u00e9m em Portugal, a doutrina social da Igreja, mas tamb\u00e9m o pensamento crist\u00e3o cl\u00e1ssico. H\u00e1 quem diga que de pastor ele n\u00e3o tinha nada. Ele era mais fil\u00f3sofo do que pastor. H\u00e1 um bocado de raz\u00e3o nisso, porque ele passava a vida a estudar. Alguns livros dele, que eu consultei, tinham papelinhos de resumos que ele fazia depois de ler um texto.<\/p>\n<p>Depois de ter deixado a dio-cese do Porto, o bispo retirou-se para Ermesinde, em 1982. Como passou esse tempo?<\/p>\n<p>Passou-o a estudar, embora j\u00e1 muito debilitado pela vis\u00e3o, e escre-veu as c\u00e9lebres \u201cCartas ao Papa\u201d. N\u00e3o \u00e9 um livro de mem\u00f3rias, mas um testemunho pessoal aos outros homens de igreja\u2026<\/p>\n<p>\u2026que o Papa n\u00e3o leu\u2026<\/p>\n<p>Quando o Papa Jo\u00e3o Paulo II veio a primeira vez a Portugal (1982), disse: \u201cC\u00e1 est\u00e1 o famoso bispo do Porto\u201d, ao que D. Ant\u00f3nio ter\u00e1 respondido: \u201cFamoso, mas mais por m\u00e1s famas do que por boas\u201d. D. Ant\u00f3nio enviou as cartas [a seguir], mas nunca recebeu qualquer resposta. Nem uma carta de agradecimento. Pensava que o livro nem sequer teria chegado ao Papa, que talvez tivesse ficado retido em algum secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nota final: O livro \u201cCartas ao Papa\u201d, cuja vis\u00e3o teol\u00f3gica est\u00e1 hoje em discuss\u00e3o no congresso internacional \u201cSer crist\u00e3o na sociedade aqui e no futuro\u201d, que hoje termina no Porto, tem edi\u00e7\u00e3o por estes dias em It\u00e1lia e Fran\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a Manuel Pinho Ferreira no centen\u00e1rio de D. 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