{"id":7110,"date":"2006-05-10T12:24:00","date_gmt":"2006-05-10T12:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7110"},"modified":"2006-05-10T12:24:00","modified_gmt":"2006-05-10T12:24:00","slug":"como-se-faz-um-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/como-se-faz-um-santo\/","title":{"rendered":"Como se faz um santo?"},"content":{"rendered":"<p>1. \u201cComo se faz um Santo\u201d, do Cardeal Saraiva Martins, \u00e9 um livro exemplarmente saboroso.<\/p>\n<p>Um livro que \u00e9 um roteiro, uma peregrina\u00e7\u00e3o espiritual pelos caminhos para a santidade. Profundo e estruturado no pensamento, pedag\u00f3gico na abordagem \u201ct\u00e9cnica\u201d e \u201cprocessual\u201d, esteticamente belo, minucioso nos detalhes, revelador na curiosidade procurada pelo leitor.<\/p>\n<p>Se escrever um livro \u00e9 estar com o outro que est\u00e1 dentro de n\u00f3s, como dizia Verg\u00edlio Ferreira, ler um livro como este \u00e9, para mim, ser com o outro que entrou em n\u00f3s.<\/p>\n<p>De entre a imensid\u00e3o do desfrute desta obra, \u00e9 dif\u00edcil seleccionar e sintetizar o que dela mais aconte-ceu e ficou em mim.<\/p>\n<p>Arriscaria, no entanto, sublinhar a principal mensagem que retive: a natureza \u201cnatural\u201d, \u201cnormal\u201d da santidade. Diz o Senhor D. Saraiva Martins que a santidade n\u00e3o consiste em fazer nada de extraordin\u00e1rio, longe do alcance do homem comum, mas sim fazer sempre e bem as coisas ordin\u00e1rias, no trabalho, na fam\u00edlia, na sociedade, na voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Santidade requer o hero\u00edsmo na pr\u00e1tica das virtudes e a grandeza da vida comum. Nada fora do comum, do nosso mundo, nada de \u201cex\u00f3tico\u201d. <\/p>\n<p>Por isso, no livro se desenvolve a ideia central da converg\u00eancia inerente \u00e0 santidade, que, como perfei\u00e7\u00e3o da humanidade, se revela no homem que entra em Deus e em Deus que abra\u00e7a o homem. Assim se atinge a perfei\u00e7\u00e3o da caridade, entendida como a mais elevada medida de amor para com o Criador e para com o pr\u00f3ximo. S\u00e3o Paulo haveria de sintetiz\u00e1-la numa curt\u00edssima express\u00e3o: n\u00e3o vivo mais eu, mas Cristo vive em mim.<\/p>\n<p>2. Numa sociedade de \u201czapping\u201d, comportamentalmente hedonista, moralmente minimalista e relativista, traduzida num eclipse de valores (express\u00e3o do autor no livro), socialmente predadora e subjugada \u00e0 \u201cditadura do eu-em-primeiro-lugar\u201d, f\u00f3bica em rela\u00e7\u00e3o ao transcendente, o santo exprime um projecto de vida contra a corrente. Porque, como se diz no livro, subir montanhas \u00e9 sempre muito dif\u00edcil. \u00c9 mais f\u00e1cil viver na plan\u00edcie.<\/p>\n<p>Ser santo sempre representou uma forma de subvers\u00e3o, traduzida em cada \u00e9poca de modo diverso e, como regra, vivida na aus\u00eancia de qualquer forma de poder, que \u00e9 onde se revela toda a for\u00e7a da presen\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Se bem percebo a ideia e a pr\u00e1tica da santidade, podemos ver nela um tesouro de vida que nos ensina:<\/p>\n<p>Que o mais dif\u00edcil de alcan\u00e7ar \u00e9 o simples.<\/p>\n<p>Que o mais poss\u00edvel de alcan\u00e7ar \u00e9 o que mais imposs\u00edvel parece.<\/p>\n<p>Que o maior alimento do direito \u00e9 o dever.<\/p>\n<p>Que o mais aparentemente insignificante sacrif\u00edcio pode ser o mais virtuoso.<\/p>\n<p>Que a maior recompensa do corpo \u00e9 a serenidade da alma.<\/p>\n<p>Que a mais radical sinceridade \u00e9 irm\u00e3 g\u00e9mea da verdade.<\/p>\n<p>Que a mais austera perseveran\u00e7a \u00e9 irm\u00e3 g\u00e9mea da bondade.<\/p>\n<p>Que a mais pura humildade \u00e9 irm\u00e3 g\u00e9mea da beleza.<\/p>\n<p>Que o hero\u00edsmo \u00e9 a persist\u00eancia paciente na luta de cada dia.<\/p>\n<p>Que a caridade \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia e a intelig\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que na autenticidade est\u00e1 a verdade do comportamento.<\/p>\n<p>Que na fidelidade est\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o do comportamento.<\/p>\n<p>Que o erro \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o da nossa debilidade, mas, ao mesmo tempo, a b\u00fassola da nossa capacidade.<\/p>\n<p>Que a mais min\u00fascula verdade supera as mais poderosas mentiras.<\/p>\n<p>Que a mais insignificante das perfei\u00e7\u00f5es \u00e9 prefer\u00edvel \u00e0 mais sonante das imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Que o importante n\u00e3o \u00e9 dissolvido no urgente, avulso ou superficial, porque o importante nem sempre \u00e9 urgente, raramente \u00e9 avulso e nunca \u00e9 superficial. <\/p>\n<p>Que o optimismo radica na esperan\u00e7a, na virtude, no trabalho e que o pessimismo radica na indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Que as virtudes existem para ser praticadas e n\u00e3o apenas enaltecidas. <\/p>\n<p>Que o exemplo \u00e9 o caminho mais curto para o bem e o mais contagiante para os outros.<\/p>\n<p>Que a partir do nosso interior se pode transformar o que nos \u00e9 exterior.<\/p>\n<p>Que o dever de trabalhar e partilhar come\u00e7a no nosso interior e prolonga-se no interior dos outros.<\/p>\n<p>Que ao utilitarismo est\u00e9ril se responde com a humanidade fecunda com que a vida se deve viver em cada momento.<\/p>\n<p>Que a abnega\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m do que transporta de dedica\u00e7\u00e3o, \u00e9 o ant\u00eddoto para o individualismo predador.<\/p>\n<p>Enfim, que a esperan\u00e7a se espera, sem esperar\u2026<\/p>\n<p>Com este livro e no fim de tudo, fica-nos o gosto por mais, Senhor Cardeal, e a ideia central \u2013 voltando a citar Bento XVI \u2013 de que, se Deus n\u00e3o est\u00e1 presente tudo se torna completamente insuficiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. \u201cComo se faz um Santo\u201d, do Cardeal Saraiva Martins, \u00e9 um livro exemplarmente saboroso. Um livro que \u00e9 um roteiro, uma peregrina\u00e7\u00e3o espiritual pelos caminhos para a santidade. Profundo e estruturado no pensamento, pedag\u00f3gico na abordagem \u201ct\u00e9cnica\u201d e \u201cprocessual\u201d, esteticamente belo, minucioso nos detalhes, revelador na curiosidade procurada pelo leitor. Se escrever um livro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-7110","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7110","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7110"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7110\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7110"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7110"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7110"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}