{"id":7178,"date":"2006-05-17T17:11:00","date_gmt":"2006-05-17T17:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7178"},"modified":"2006-05-17T17:11:00","modified_gmt":"2006-05-17T17:11:00","slug":"a-comunicacao-social-e-muito-mais-uma-responsabilidade-do-que-um-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-comunicacao-social-e-muito-mais-uma-responsabilidade-do-que-um-poder\/","title":{"rendered":"&#8220;A comunica\u00e7\u00e3o social \u00e9 muito mais uma responsabilidade do que um poder&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos Vasconcelos no Centro Universit\u00e1rio <!--more--> O F\u00f3rum Universal, no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, proporcionou mais um ser\u00e3o interessant\u00edssimo. Na noite de 3 de Maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, foi convidado Jos\u00e9 Carlos de Vasconcelos, advogado e jornalista, director do JL \u2013 Jornal de Letras, Artes e Ideias, e coordenador editorial da revista Vis\u00e3o. Na mesa, estiveram assuntos como a censura, o poder dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, a ditadura das audi\u00eancias ou o sensacionalismo.<\/p>\n<p>Liberdade fundamental<\/p>\n<p>Liberdade de imprensa, de opini\u00e3o e de express\u00e3o, s\u00e3o liberdades fundamentais. Todas as liberdades s\u00e3o solid\u00e1rias. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver uma sem as outras. Porque a liberdade de imprensa \u00e9 fundamental, uma das primeiras medidas dos regimes totalit\u00e1rios \u00e9 impedir o exerc\u00edcio dessa liberdade, que est\u00e1 na base do sentido cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Liberdade e responsabilidade<\/p>\n<p>H\u00e1 um bin\u00f3mio que antes do 25 de Abril era usado pelos que queriam impedir a liberdade: \u201cA liberdade implica responsabilidade\u201d. \u00c9 \u00f3bvio que isto \u00e9 verdade. S\u00f3 que, antigamente, era usado por uma irresponsabilidade que era a exist\u00eancia da censura pr\u00e9via, a forma mais f\u00e9rrea e brutal de impedir a liberdade de express\u00e3o. Invocava-se um belo princ\u00edpio, para destruir um outro n\u00e3o menos belo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o 25 de Abril, foi necess\u00e1rio sublinhar que a liberdade de imprensa, em toda a sua dignidade, exige a responsabilidade, respeito pelos outros, valores e princ\u00edpios. \u00c9 mais f\u00e1cil dizer isto do ponto de vista te\u00f3rico do que na pr\u00e1tica, porque h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de fronteira, casos fluidos.<\/p>\n<p>Poder?<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o social \u00e9 muito mais uma responsabilidade do que um poder. Obviamente que tem poder. Por vezes, at\u00e9 de mais. Outras, n\u00e3o tem o poder que as pessoas pensam que tem. Um dos maiores pecados dos jornalistas \u00e9 acharem que t\u00eam muito poder e o poder subir-lhes \u00e0 cabe\u00e7a. \u00c9 uma certa arrog\u00e2ncia, principalmente quando \u00e9 para dizer mal e destruir. O fundamental, para ser jornalista, \u00e9 a seriedade, o trabalho e o respeito pelos outros.<\/p>\n<p>Casos de censura<\/p>\n<p>A gravidade da censura estava em atingir o que eram factos. N\u00e3o se tratava de opini\u00f5es, sequer. N\u00e3o se podia falar de greves, mesmo que se passassem noutros pa\u00edses. Os n\u00fameros dos avi\u00f5es abatidos na Guerra do Vietname eram cortados. O meu primeiro artigo cortado foi uma not\u00edcia sobre o telef\u00e9rico na Serra da Estrela, porque na altura promovia-se o turismo no Algarve. Era proibido criticar o \u00e1rbitro. Porqu\u00ea? Porque o \u00e1rbitro era a autoridade e a autoridade n\u00e3o podia actuar mal!<\/p>\n<p>Depois do 25 de Abril, n\u00e3o houve nenhum momento com censura \u2013 o que \u00e9 raro ap\u00f3s as revolu\u00e7\u00f5es. Tivemos logo uma lei de imprensa (coordenada por Sousa Franco) que consagrou todas as liberdades. Mas houve tentativas. Quando estava no Di\u00e1rio de Not\u00edcias, tive de falar num plen\u00e1rio de trabalhadores. Os tip\u00f3grafos queriam impedir a publica\u00e7\u00e3o do an\u00fancio da cria\u00e7\u00e3o do CDS.<\/p>\n<p>Direito dos Cidad\u00e3os<\/p>\n<p>A liberdade de imprensa n\u00e3o \u00e9 um direito dos jornalistas; \u00e9 sobretudo o direito dos cidad\u00e3os a serem bem informados. Isso \u00e9 que implica o sigilo profissional, a liberdade de acesso \u00e0s fontes, etc. O bom jornalismo deve ser objectivo. E interpretativo: tem dizer os \u201ccomos\u201d e os \u201cporqu\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Perigos actuais<\/p>\n<p>Hoje os perigos s\u00e3o outros. Os dois mais not\u00f3rios s\u00e3o: a ditadura das audi\u00eancias, que leva ao sensacionalismo, \u00e0 demagogia, ao populismo, aos apelos \u00e0s piores tend\u00eancias para fazer aumentar as audi\u00eancias ou fazer vender o papel. Mas os jornais precisam de ter an\u00fancios e as televis\u00f5es audi\u00eancias. Se n\u00e3o, n\u00e3o sobrevivem. Como conjugar as duas coisas?<\/p>\n<p>O outro \u00e9 o poder econ\u00f3mico, a quest\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o. A comunica\u00e7\u00e3o social exige cada vez mais meios. Os grupos econ\u00f3micos dominam cada vez mais e isto pode importar riscos concretos para a liberdade e para o jornalismo. O caso mais conhecido ser\u00e1 o de It\u00e1lia, com Berlusconi.<\/p>\n<p>Pol\u00edticos submissos<\/p>\n<p>Antes, falava-se do perigo do poder pol\u00edtico querer controlar a comunica\u00e7\u00e3o social. Hoje, o que se verifica \u00e9 que o poder pol\u00edtico est\u00e1 submetido \u00e0s regras que s\u00e3o impostas de fora. O poder n\u00e3o aplica algumas leis que j\u00e1 existem sobre a comunica\u00e7\u00e3o social, porque os pol\u00edticos t\u00eam medo. Se aplicassem a um canal de televis\u00e3o uma coima, deixavam de ter tempo de antena.<\/p>\n<p>Em Portugal, s\u00e3o as pr\u00f3prias televis\u00f5es que fazem os pol\u00edticos. N\u00e3o h\u00e1 nenhum pa\u00eds do mundo em que uma pessoa seja ao mesmo tempo pol\u00edtico e comentador pol\u00edtico. Os dois \u00faltimos primeiros-ministros eram comentadores da televis\u00e3o. S\u00e3o as televis\u00f5es que escolhem os dirigentes pol\u00edticos. \u00c9 um sistema perigoso para a liberdade e para a democracia.<\/p>\n<p>Jornais, hoje<\/p>\n<p>No jornalismo, as coisas devem ter interesse e serem interessantes. Ter interesse, isto \u00e9, subst\u00e2ncia, conte\u00fado, bons temas. E serem interessantes: a forma como s\u00e3o apresentados tem de ser atractiva. O bom jornalismo tem muito de cozinha. Tem a intui\u00e7\u00e3o do que interessas \u00e0s pessoas e uma forma apelativa. Mas o jornalista n\u00e3o pode ceder aos instintos mais b\u00e1sicos e prim\u00e1rios das pessoas. O jornalista pode fazer um \u00f3ptimo trabalho sobre a \u201cm\u00fasica pimba\u201d, desde que a forma n\u00e3o seja \u201cpimba\u201d. O bom jornalismo deve ajudar a iluminar o mundo. O jornalismo exige grande compet\u00eancia e forma\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>Os jornais, hoje, s\u00e3o barrigas de aluguer. Servem de suporte a outros produtos. Mas, gra\u00e7as a isso, por vezes, conseguem o equil\u00edbrio financeiro. E se os produtos forem bons&#8230; Num jornal, \u00e9 necess\u00e1rio transigir no acess\u00f3rio, se for para conquistar alguma coisa no essencial. Podemos ter grandes manchetes e imagens bonitas (acess\u00f3rio) sem descair no essencial, que \u00e9 conte\u00fado.<\/p>\n<p>Poder da palavra<\/p>\n<p>Apesar de tudo, a televis\u00e3o tem menos for\u00e7a do que se pensa. A for\u00e7a da palavra ainda \u00e9 insubstitu\u00edvel. Se um jornal tivesse programas como a televis\u00e3o, teria centenas de processos. O que \u00e9 dito na televis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 levado muito a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Factos e opini\u00f5es<\/p>\n<p>Um dos grandes princ\u00edpios do jornalismo \u00e9: \u201cAs opini\u00f5es s\u00e3o livres, os factos s\u00e3o sagrados\u201d. O jornalista tem de distinguir o que \u00e9 facto e o que \u00e9 opini\u00e3o. Quando isso se confunde, h\u00e1 mau jornalismo. Por outro lado, tem de saber seleccionar entre o muito que acontece. O espa\u00e7o \u00e9 limitado. O problema \u00e9 quando o jornalista \u00e9 directivo nessa selec\u00e7\u00e3o, excluindo informa\u00e7\u00e3o que o leitor tem direito a conhecer. Isso \u00e9 impens\u00e1vel. Mas acontece. Na Assembleia da Rep\u00fablica, acontecem debates importantes; mas se h\u00e1 uma boca mais desbragada, a manchete \u00e9 isso. Trata-se de uma liberdade de imprensa que n\u00e3o est\u00e1 a ser exercida, porque n\u00e3o persegue o objectivo para que existe, que \u00e9 informar bem, para que cada um exer\u00e7a o seu sentido cr\u00edtico.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 bom jornalismo publicar comunicados. Mas, em certos momentos, h\u00e1 documentos que t\u00eam de ser dados na \u00edntegra, como foi o caso do comunicado da Confer\u00eancia Episcopal, logo a seguir ao 25 de Abril, nas p\u00e1ginas do Di\u00e1rio de Not\u00edcias. Hoje, os \u201csites\u201d s\u00e3o muito importantes para isso.<\/p>\n<p>Nivelamento por baixo<\/p>\n<p>Nas televis\u00f5es, entrou-se numa concorr\u00eancia em que o nivelamento \u00e9 por baixo. Mas estou convencido de que programas com qualidade podem ter mais p\u00fablico. Maus programas j\u00e1 h\u00e1 muitos e h\u00e1 alguns canais que s\u00e3o especialistas a faz\u00ea-los. \u00c9 melhor n\u00e3o concorrer contra esses.<\/p>\n<p>Sensacionalismo<\/p>\n<p>O sensacionalismo, distorcendo os factos para conseguir mais p\u00fablico, \u00e9 sempre negativo. Transformar os acontecimentos em folhetim (comum nas televis\u00f5es, em que os notici\u00e1rios duram mais de uma hora), prolong\u00e1-los artificialmente, explorar os sentimentos humanos, tudo isso \u00e9 inadmiss\u00edvel.<\/p>\n<p>As televis\u00f5es n\u00e3o podem fazer tudo, ainda que tenham o acordo das pessoas. H\u00e1 \u201cdireitos indispon\u00edveis\u201d. Uma pessoa n\u00e3o pode prescindir das f\u00e9rias, mesmo que queira. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s televis\u00f5es, mesmo que uma pessoa autorize, h\u00e1 coisas escabrosas que n\u00e3o devem ser poss\u00edveis. Deve haver uma interven\u00e7\u00e3o reguladora do Estado para evitar essas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cartas aos \u00f3rg\u00e3os<\/p>\n<p>\u00c9 importante que as pessoas mostrem a sua opini\u00e3o, nomeadamente atrav\u00e9s de cartas \u00e0 redac\u00e7\u00e3o. Penso que as pessoas nem sempre t\u00eam no\u00e7\u00e3o desse poder que possuem.<\/p>\n<p>Jornal de Letras<\/p>\n<p>O Jornal de Letras, para mim, \u00e9 uma miss\u00e3o evang\u00e9lica. No in\u00edcio, o poeta Fernando Assis Pacheco dizia-me que ia durar seis meses. Mas dura h\u00e1 25 anos. A grande aposta do jornal \u00e9 a L\u00edngua Portuguesa e a Lusofonia. O JL tem muito prest\u00edgio no Brasil e est\u00e1 em todos os leitorados e universidades onde se ensina o Portugu\u00eas.<\/p>\n<p>L\u00edngua Portuguesa<\/p>\n<p>A l\u00edngua, que \u00e9 a nossa maior riqueza, \u00e9 t\u00e3o mal tratada&#8230; A sua promo\u00e7\u00e3o est\u00e1 dispersa por v\u00e1rios organismos. Considero que o principal instrumento de promo\u00e7\u00e3o da l\u00edngua no estrangeiro devia ser a RTP Internacional (e a RDP). Mas n\u00e3o h\u00e1 nada nessa linha.<\/p>\n<p>Pr\u00f3xima sess\u00e3o: <\/p>\n<p>7 de Junho, \u00e0s 21h30, <\/p>\n<p>no CUFC<\/p>\n<p>Convidada: <\/p>\n<p>Agustina Bessa-Lu\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos Vasconcelos no Centro Universit\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"class_list":["post-7178","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-forum-universal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7178"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7178\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}