{"id":7313,"date":"2006-06-08T12:26:00","date_gmt":"2006-06-08T12:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7313"},"modified":"2006-06-08T12:26:00","modified_gmt":"2006-06-08T12:26:00","slug":"foi-fascinante-ajudar-a-perceber-que-a-igreja-e-povo-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/foi-fascinante-ajudar-a-perceber-que-a-igreja-e-povo-de-deus\/","title":{"rendered":"&#8220;Foi fascinante ajudar a perceber que a Igreja \u00e9 Povo de Deus&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pe Francisco Melo, rec\u00e9m-chegado de Timor <!--more--> O Pe Francisco Jos\u00e9 Rodrigues Melo, 38 anos, p\u00e1roco de Ribeira de Fr\u00e1guas e Vale Maior, par\u00f3quias do concelho de Albergaria-a-Velha, acabou de regressar de Timor-Leste. No Semin\u00e1rio Maior de D\u00edli, de Mar\u00e7o a Maio, ensinou Teologia, como j\u00e1 havia feito em 2002. O Correio do Vouga conversou com este sacerdote sobre o seu trabalho em Timor e a instabilidade que se vive na primeira na\u00e7\u00e3o do s\u00e9c. XXI.<\/p>\n<p>Foi a segunda vez que esteve em Timor.<\/p>\n<p>Sim. Estive dois meses em 2002 e, este ano, de 1 de Mar\u00e7o a 28 de Maio. Nestes tr\u00eas meses, que correspondem a um semestre lectivo, ensinei Eclesiologia, Ecumenisno, Teologia Fundamental e Sacramento do Matrim\u00f3nio, no Semin\u00e1rio Maior de D\u00edli.<\/p>\n<p>Teve muitos alunos?<\/p>\n<p>O Semin\u00e1rio Maior dura seis anos e \u00e9 frequentado por 54 alunos. O quinto ano \u00e9 passado nas par\u00f3quias, em trabalho pastoral. Dei aulas ao 2\u00ba, 3\u00ba e 6\u00ba ano, que tinham respectivamente 5, 11 e 15 alunos. A equipa do Semin\u00e1rio \u00e9 constitu\u00edda pelo Reitor, o prefeito da disciplina, o prefeito de estudos (um padre belga, de 63 anos, que tinha estado no Brasil), o ec\u00f3nomo e um padre japon\u00eas (jesu\u00edta, de 68 anos, que passou igualmente pelo Brasil).<\/p>\n<p>Al\u00e9m do ensino, esteve em contacto com as comunidades timorenses?<\/p>\n<p>Ao domingo, celebrava na comunidade de Suritmas, perto do Semin\u00e1rio, que fica em Fatumeta.<\/p>\n<p>Como surgiu a ideia de trabalhar em Timor?<\/p>\n<p>Em Timor sempre houve um Semin\u00e1rio Menor. Ap\u00f3s a independ\u00eancia, os bispos timorenses decidiram abrir um Semin\u00e1rio Maior. Havia na altura uma certa rela\u00e7\u00e3o com a Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa (UCP). Ora, um dia li uma entrevista de D. Carlos [Ximenes Belo] em que o jornalista lhe perguntava o que \u00e9 que ele mais precisava para Timor. E ele respondeu: professores para o Semin\u00e1rio. Falei ent\u00e3o com o D. Ant\u00f3nio [Bispo de Aveiro], que contactou a UCP. Em 2002, fui pela UCP. Agora, foi o prefeito de estudos [padre do Semin\u00e1rio Maior respons\u00e1vel pela parte acad\u00e9mica] que me contactou. Tinha-lhe dito que ficasse \u00e0 vontade para me contactar. T\u00eam professores de Direito Can\u00f3nico, Filosofia, B\u00edblia, mas h\u00e1 algumas lacunas em Dogm\u00e1tica.<\/p>\n<p>P\u00f5e a hip\u00f3tese de l\u00e1 voltar?<\/p>\n<p>Penso que j\u00e1 n\u00e3o vai ser preciso. Em 2007\/8 chegam os professores que est\u00e3o a estudar Dogm\u00e1tica em Roma.<\/p>\n<p>Como s\u00e3o os alunos seminaristas timorenses?<\/p>\n<p>Genericamente, inteligentes. Mas, com poucas excep\u00e7\u00f5es, t\u00eam muitas dificuldades na l\u00edngua portuguesa. O portugu\u00eas n\u00e3o \u00e9 uma l\u00edngua comum. Falam tetum, embora tamb\u00e9m haja quem n\u00e3o fale tetum. Por outro lado, os seminaristas timorenses s\u00e3o muito mais espirituais do que n\u00f3s. T\u00eam muito o sentido da espiritualidade, da ora\u00e7\u00e3o e da medita\u00e7\u00e3o. E a isso dedicam mais tempo. Como estamos num pa\u00eds que \u00e9 Terceiro Mundo, pobre, com muitas dificuldades, podemos imaginar o que significa andar no Semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>O que significa?<\/p>\n<p>O semin\u00e1rio \u00e9 lugar de promo\u00e7\u00e3o social. Ser padre \u00e9 ter um estatuto social muito elevado. \u00c9 o topo da hierarquia social. Basta ver o nome com que o povo trata os padres: Amo. Amo era o senhor feudal, o senhor dos escravos no Brasil, por exemplo. \u201cAmo Padre\u201d, \u201cAmo Bispo\u201d, \u201cAmo Liurai\u201d. Liurai \u00e9 o rei tribal. Em termos humanos, \u00e9 uma sociedade profundamente hierarquizada. A igreja e os padres fazem parte desta estrutura. Os seminaristas do Semin\u00e1rio Maior s\u00e3o frateres. \u00c9 um t\u00edtulo que j\u00e1 t\u00eam e que lhes d\u00e1 estatuto.<\/p>\n<p>Como \u00e9 ensinar no Extremo Oriente uma Teologia que nasceu na Europa Ocidental?<\/p>\n<p>\u00c9 um problema. Sente-se em alguns grupos de Timor que tudo o que \u00e9 do Ocidente \u00e9 bom e o que \u00e9 Oriental \u00e9 mau. Isto cria alguns contratempos.<\/p>\n<p>A nossa Teologia \u00e9 muito mais racionalizada. Temos uma base racional de explica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 sempre um porqu\u00ea para as coisas. Para eles, as explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito mais simb\u00f3licas. Funciona \u00e0 volta do s\u00edmbolo. Por isso, a racio-naliza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, com a agravante de que a base filos\u00f3fica deles \u00e9 profundamente pobre.<\/p>\n<p>Falamos de \u201cIgreja-Mist\u00e9rio\u201d ou \u201cess\u00eancia da Igreja\u201d&#8230; s\u00e3o conceitos dif\u00edceis de entender. H\u00e1 ainda o problema da linguagem. O tetum \u00e9 uma l\u00edngua muito pobre. N\u00e3o tem a palavra \u201cser\u201d. Como \u00e9 que se d\u00e1 filosofia sem as palavras \u201cser\u201d e \u201cente\u201d, conceitos fundamentais da Filosofia Ocidental? \u201cNatureza\u201d, \u201cpessoa\u201d&#8230; s\u00e3o tudo palavras que eles n\u00e3o t\u00eam. A linguagem permite-nos pensar e estruturar o pensamento. A falta de termos dificulta o racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>Exigiu da sua parte um grande esfor\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Sim, um esfor\u00e7o de incultura\u00e7\u00e3o. Uma das coisas que fizemos foi estudar os ritos tradicionais de matrim\u00f3nio de cada regi\u00e3o timorense. Tentamos ver quais s\u00e3o os gestos e s\u00edmbolos que se podem aproveitar para o matrim\u00f3nio crist\u00e3o. Est\u00e1 previsto, no ritual cat\u00f3lico, que os costumes dos povos, desde que estejam de acordo com a ess\u00eancia do sacramento, possam ser aproveitados.<\/p>\n<p>Na Teologia Fundamental [sector da teologia que se ocupa com os fundamentos da f\u00e9] n\u00e3o foi muito f\u00e1cil fazer a adapta\u00e7\u00e3o. A Eclesiologia [disciplina da Teologia que aborda o ser da Igreja] \u00e9 uma disciplina fascinante para dar em Timor.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Para desmontar o conceito que se tem de igreja: hier\u00e1rquica e institucional. A descoberta do que \u00e9 a Igreja, povo de Deus, \u00e9 fascinante. Estamos num contexto em que a Igreja \u00e9 profundamente hierarquizada. O padre faz tudo, \u00e9 senhor de tudo. Sem o padre n\u00e3o se pode fazer nada. H\u00e1 uma grande dist\u00e2ncia entre o leigo e o padre. Basta ver que, no Semin\u00e1rio, os padres comem \u00e0 parte dos seminaristas. E comem melhor. O institucional \u00e9 muito valorizado. Claro que o papel da Igreja \u00e9 muito importante. A Igreja \u00e9 que educa, fundamentalmente. As irm\u00e3s religiosas t\u00eam um papel preponderante. Grande parte das institui\u00e7\u00f5es educativas de Timor \u00e9 da Igreja. Muitas das de sa\u00fade, igualmente. E o mesmo se passa em termos sociais.<\/p>\n<p>Quando pegamos no Conc\u00edlio Vaticano II e dizemos que a \u201cIgreja \u00e9 o Povo de Deus\u201d e come\u00e7amos por ali a baixo a desvendar a identidade da Igreja, temos de caminhar muito para entender que n\u00e3o \u00e9 fundamentalmente hierarquia.<\/p>\n<p>O que pode fazer a nossa diocese \u2013 ou a Igreja portuguesa \u2013 por Timor?<\/p>\n<p>A maior ajuda que podemos dar \u00e0 Igreja timorense \u00e9 uma colabora\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o dos seminaristas, aceitando-os para est\u00e1gios pastorais. No pr\u00f3ximo ano, as par\u00f3quias de Vale Maior e Ribeira de Fr\u00e1guas v\u00e3o receber o seminarista timorense Jo\u00e3o do Ros\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe Francisco Melo, rec\u00e9m-chegado de Timor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-7313","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7313","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7313"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7313\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}