{"id":7314,"date":"2006-06-08T12:29:00","date_gmt":"2006-06-08T12:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7314"},"modified":"2006-06-08T12:29:00","modified_gmt":"2006-06-08T12:29:00","slug":"timor-tem-dificuldades-de-lingua-que-vao-demorar-anos-a-resolver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/timor-tem-dificuldades-de-lingua-que-vao-demorar-anos-a-resolver\/","title":{"rendered":"&#8220;Timor tem dificuldades de l\u00edngua que v\u00e3o demorar anos a resolver&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pe Francisco Melo, sobre a instabilidade vivida em Timor <!--more--> Como observou a instabilidade em Timor, nos \u00faltimos dois meses?<\/p>\n<p>Antes de falar da instabilidade, \u00e9 importante perceber que Timor tem uma dificuldade de base que vai demorar muitos anos a superar: a l\u00edngua. N\u00e3o se constr\u00f3i um povo e uma na\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o se tem unidade de l\u00edngua. H\u00e1 pa\u00edses que t\u00eam v\u00e1rias l\u00ednguas. Mas tem de haver algo que una aquele povo, que crie uma certa identidade. A \u00fanica identidade de Timor reside no passado comum de terem pertencido a Portugal e depois \u00e0 Indon\u00e9sia. Para al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 grande unidade. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o quase n\u00e3o existem. Timor \u00e9 constitu\u00eddo por 13 distritos. 3 s\u00e3o de Timor Lorosae, isto \u00e9, Timor Nascente; e 10 s\u00e3o de Timor Loromono, Timor Poente. Entre os \u201cdois lados\u201d de Timor-Leste h\u00e1 algumas diferen\u00e7as \u00e9tnicas e no agir, embora tamb\u00e9m haja muitas semelhan\u00e7as.<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as explicam os dist\u00farbios?<\/p>\n<p>O que aconteceu foi que o chefe das For\u00e7as Armadas, Matan Ruak, n\u00e3o aceitou as promo\u00e7\u00f5es de ningu\u00e9m do lado ocidental. Todos os que estavam propostos para serem promovidos foram recusados. S\u00f3 foram promovidos do lado Lorosae. Os que n\u00e3o foram promovidos [os chamados peticion\u00e1rios] manifestaram-se e foram demitidos das For\u00e7as Armadas. Por solidariedade, todos os outros militares dos distritos ocidentais abandonaram o ex\u00e9rcito ostensivamente. Sa\u00edram dos quart\u00e9is e foram-se embora. Perante alguma passividade do Governo, os soldados manifestaram-se e concentraram-se \u00e0 frente do Pal\u00e1cio do Governo. Entretanto, aquilo foi sendo adiado; e, no dia 28 ou 29 de Abril, o primeiro-ministro mandou as for\u00e7as armadas contra eles e contra os civis que se associaram ao protesto. H\u00e1 suspeitas, de que naquela noite, n\u00e3o tenham morrido s\u00f3 seis pessoas, como diz o governo. S\u00f3 daqui a muito tempo \u00e9 que as pessoas v\u00e3o come\u00e7ar a dizer, \u201cfalta o meu primo\u201d, \u201cfalta a minha prima\u201d. H\u00e1 muita gente deslocada. A verdade \u00e9 que andaram em confronto uns com os ou-tros. As For\u00e7as Armadas, inclusive, n\u00e3o deixaram entrar o Presidente da Rep\u00fablica nos s\u00edtios onde tinham acontecido os confrontos.<\/p>\n<p>Neste processo, os poderes eleitos n\u00e3o est\u00e3o isentos de cr\u00edticas&#8230;<\/p>\n<p>Houve alguma in\u00e9rcia do governo, como se viu agora com a sa\u00edda do ministro do Interior e do ministro da Defesa.<\/p>\n<p>Entretanto, a viol\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 centrada na exig\u00eancia dos militares&#8230;<\/p>\n<p>A viol\u00eancia e a destrui\u00e7\u00e3o que se v\u00eam agora s\u00e3o vingan\u00e7as pessoais. J\u00e1 n\u00e3o t\u00eam nada a ver com pol\u00edtica. As casas queimadas e as mortes seleccionadas s\u00e3o vingan\u00e7as pessoais. Ter\u00e1 alguma coisa a ver com a rivalidade entre Lorosae e Loromono e tem a ver com os dist\u00farbios de 1999. Predomina esta mentalidade: \u201cTu, um dia, fizeste isto \u00e0 minha fam\u00edlia ou a um primo meu. Agora vais morrer\u201d.<\/p>\n<p>O poder caiu na rua&#8230;<\/p>\n<p>Neste momento [1 de Junho] n\u00e3o h\u00e1 ordem p\u00fablica. A pol\u00edcia n\u00e3o est\u00e1 a funcionar. N\u00e3o h\u00e1 poder. Ningu\u00e9m manda. Mesmo quando havia pol\u00edcia, era complicado manter a ordem na cidade. Agora, n\u00e3o h\u00e1 sentidos proibidos; as pessoas voltam a andar sem capacete; aumentou a marginalidade&#8230;<\/p>\n<p>Qual tem sido o papel da Igreja e dos l\u00edderes religiosos?<\/p>\n<p>Diz-se que Timor tem 95 por cento de cat\u00f3licos. Mas esse n\u00famero tem de ser relativizado. Tenho a impress\u00e3o de que a pr\u00e1tica dominical n\u00e3o anda muito longe da nossa. H\u00e1 muita religi\u00e3o, mas n\u00e3o muita f\u00e9. H\u00e1 supersti\u00e7\u00e3o, uma certa ideia de apaziguar a divindade, de \u201cter a divindade do meu lado\u201d&#8230; N\u00e3o quero que estas palavras sejam entendidas como cr\u00edtica. Mas vi que as pessoas podiam ir \u00e0 missa ao domingo de manh\u00e3 e \u00e0 tarde podiam estar a matar.<\/p>\n<p>Algumas opini\u00f5es em Portugal estranham a dist\u00e2ncia da Igreja em rela\u00e7\u00e3o ao conflito.<\/p>\n<p>A Igreja n\u00e3o est\u00e1 ausente. O Bispo de D\u00edli, D. Alberto Ricardo (era ao reitor do semin\u00e1rio de D\u00edli, quando l\u00e1 estive em 2002), um homem profundamente espiritual, esteve em algumas reuni\u00f5es ao mais alto n\u00edvel, nos momentos mais quentes. Quando as for\u00e7as internacionais foram chamadas, quem estava na reuni\u00e3o? O Presidente da Rep\u00fablica, Ramos-Horta e o Bispo de D\u00edli. Na comiss\u00e3o que ia surgir para investigar o problema das For\u00e7as Armadas, a igreja estava presente.<\/p>\n<p>Por outro lado, toda a gente se recolheu nas institui\u00e7\u00f5es religiosas. A \u00fanica institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o religiosa a acolher deslocados foi o aeroporto. No Semin\u00e1rio, eu sa\u00eda do meu quarto e saltava por cima de pessoas para passar. Estava repleto de gente, desde finais de Abril. Se as pessoas confiam em algu\u00e9m, \u00e9 na Igreja.<\/p>\n<p>E \u00e9 nas institui\u00e7\u00f5es da Igreja que se refugiam&#8230; <\/p>\n<p>Sim, nos Salesianos, nos semin\u00e1rios&#8230; E porqu\u00ea? Primeiro, porque n\u00e3o se trata de um conflito contra a Igreja. Se aparece um padre \u00e0 frente vestido de batina, imp\u00f5e-se respeito. Depois, porque as suas casas n\u00e3o ardem facilmente. As casas que vemos a arder na televis\u00e3o s\u00e3o feitas de ramos de palmeira, com telhados de colmo ou chapa de zinco. Os edif\u00edcios da Igreja s\u00e3o de tijolo, t\u00eam muros e est\u00e3o protegidos. D\u00e3o seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O povo sente a inefic\u00e1cia das institui\u00e7\u00f5es governamentais?<\/p>\n<p>Penso que sim. Nestes \u00faltimos quatro anos, parece que nada se fez. Est\u00e1 tudo no mesmo s\u00edtio. Em 2002, ca\u00ed num buraco ao lado da s\u00e9 catedral. Ainda tenho a marca na minha perna. Passados quatro anos, depois de tanto investimento, ainda l\u00e1 est\u00e1 o buraco no passeio, no centro de D\u00edli.<\/p>\n<p>Relativamente \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o, destacam-se Portugal e o Jap\u00e3o, mas parece que o governo timorense est\u00e1 a aproximar-se de Cuba e da China. H\u00e1 dias mandaram muitos timorenses estudar Medicina em Cuba. E no Hospital Central de D\u00edli h\u00e1 muitos m\u00e9dicos cubanos. Por outro lado, h\u00e1 uma s\u00e9rie de acordos com a China, que esteve representada no recente congresso da Fretilin&#8230;<\/p>\n<p>Quando saiu de D\u00edli, ainda a GNR n\u00e3o tinha chegado a Timor, embora j\u00e1 se falasse do envio dessa for\u00e7a militarizada. Os timorenses comentavam o regresso da GNR?<\/p>\n<p>Sim. Eles respeitam muito a GNR. Em 1999, os outros militares estrangeiros estiveram muito mais virados para as mil\u00edcias. Quem controlava a cidade de D\u00edli, em termos civis, era a GNR. Durante estes dist\u00farbios recentes, Timor ansiava pela GNR e estou convencido que a GNR vai p\u00f4r ordem no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Foi alguma vez contactado pela embaixada portuguesa durante a instabilidade de Abril e Maio?<\/p>\n<p>A diplomacia portuguesa manteve-se muito calma. Nunca quis alarmar e nunca emitiu nenhuma comunica\u00e7\u00e3o para sair, ao contr\u00e1rio da embaixada dos Estados Unidos. A n\u00f3s s\u00f3 nos disse para termos cuidado. Houve sempre uma tentativa de manter a serenidade&#8230;<\/p>\n<p>D. Ximenes Belo disse a um jornal portugu\u00eas (Jornal de Not\u00edcias de 31-05-06) que, se fosse chamado pelas autoridades timorenses, com o acordo da Santa S\u00e9, regressaria a Timor&#8230;<\/p>\n<p>Ele tem um grande poder em termos civis, uma grande influ\u00eancia. Por\u00e9m, o actual Bispo de Dili, D. Ricardo, \u00e9 igualmente influente. Enquanto padre, foi das pessoas com maior preponder\u00e2ncia na luta contra os indon\u00e9sios. Uma preponder\u00e2ncia pac\u00edfica. Homem de grande resist\u00eancia f\u00edsica e moral, D. Ricardo esteve preso e foi violentado, mas manteve-se sempre pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Durante esta estadia, teve contactos com outros portugueses?<\/p>\n<p>Sim, com alguns jovens como a Karina (sobrinha do Pe M\u00e1rio Ferreira, p\u00e1roco na zona de \u00c1gueda), que \u00e9 de \u00cdlhavo, enfermeira volunt\u00e1ria de S. Jo\u00e3o de Deus, uma outra que \u00e9 de Lisboa, auxiliar educativa, um irm\u00e3o de S. Jo\u00e3o de Deus, um padre capuchinho que \u00e9 da Guarda, uma assessora do ministro da educa\u00e7\u00e3o, quase todos volunt\u00e1rios em institui\u00e7\u00f5es da Igreja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe Francisco Melo, sobre a instabilidade vivida em Timor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-7314","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7314\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}