{"id":7341,"date":"2006-06-08T15:20:00","date_gmt":"2006-06-08T15:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7341"},"modified":"2006-06-08T15:20:00","modified_gmt":"2006-06-08T15:20:00","slug":"o-futebol-totalitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-futebol-totalitario\/","title":{"rendered":"O futebol totalit\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Devo come\u00e7ar por dizer que gosto muito de futebol. Por futebol, entenda-se o jogo, os golos, as vit\u00f3rias, as emo\u00e7\u00f5es. L\u00e1 dentro, nas quatro linhas. Com cor, movimento, alegria, tristeza, ansiedade.<\/p>\n<p>Mas gosto cada vez menos do (e n\u00e3o de) futebol, naquilo que ele tem de tudo menos de jogo, de golos, de vit\u00f3rias, de emo\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Confesso que j\u00e1 n\u00e3o tenho paci\u00eancia para o circo medi\u00e1tico \u00e0 volta do futebol. Entrevistas de lugares-comuns at\u00e9 \u00e0 n\u00e1usea, reportagens sobre treinos cujo desinteresse \u00e9 por demais evidente, an\u00e1lises ante e p\u00f3s jogos insuportavelmente pseudo-cient\u00edficas, aproveitamentos social, profissional, pol\u00edtico nem sempre adequados desta actividade, come\u00e7am a ser intrag\u00e1veis.<\/p>\n<p>De quatro em quatro anos, a\u00ed temos o ritual do Campeonato do Mundo. Entretanto, temos que aturar as doses maci\u00e7as de reportagens, entrevistas, retrospectivas, progn\u00f3sticos, verves de analistas e comentadores que quase me tiram a vontade de acompanhar a \u00fanica coisa que vale a pena ver: os jogos\u2026<\/p>\n<p>At\u00e9 l\u00e1 j\u00e1 sei que tenho de aprofundar o meu j\u00e1 compulsivo \u201czapping\u201d televisivo. Porque, francamente, o que \u00e9 que interessam o pequeno-almo\u00e7o dos jogadores, o passeio pelas imedia\u00e7\u00f5es do hotel, as habituais zangas do seleccionador, o filme levado para o est\u00e1gio ou a que horas se deitam os craques? <\/p>\n<p>Os artistas s\u00e3o transformados em \u00eddolos inacess\u00edveis ou em her\u00f3is a imitar e quase endeusados, s\u00f3 porque d\u00e3o uns bons chutos na bola? A histeria \u00e9 levada ao impens\u00e1vel atrav\u00e9s das televis\u00f5es. O sentido patri\u00f3tico mede-se pela sujidade e mau trato das bandeiras abandonadas depois dos campeonatos?&#8230;<\/p>\n<p>Vemo-nos confrontados, at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o e por todo o lado, com o primado da adjectiva\u00e7\u00e3o prolixa, que se espalhou virulentamente no futebol. Numa bolsa de valores, os ditos adjectivos estariam pela rua da amargura, tal o dislate da oferta. Talentoso, genial, m\u00e1gico, estonteante, fabuloso, fenomenal e tantos outros, por t\u00e3o usados e transaccionados, j\u00e1 n\u00e3o teriam sequer uma m\u00ednima oferta p\u00fablica de aquisi\u00e7\u00e3o, uma OPA que os reconduzisse ao seu verdadeiro capital sem\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Esta pra\u00e7a dos exageros, este mercado altamente vol\u00e1til da s\u00f4frega opini\u00e3o, mais n\u00e3o \u00e9 do que a exterioriza\u00e7\u00e3o sobre a relva do que j\u00e1 \u00e9 regra sociol\u00f3gica na sociedade: a facilidade, o repentismo, a vulgaridade com que uns aju\u00edzam sobre outros, num turbilh\u00e3o desgovernado de leviandade, despeito, mediocridade. Vivemos uma \u00e9poca onde a etiquetagem das pessoas parece ser implacavelmente ligeira e vol\u00favel. <\/p>\n<p>Com o Campeonato do Mundo vem tamb\u00e9m ao de cima, o verdadeiro mundo do futebol planet\u00e1rio. De um ponto de vista social lato senso, poder\u00edamos dividi-lo em quatro grupos: rico, remediado, pobre e abaixo do RMG. E dentro do rico, como que espelhando a distribui\u00e7\u00e3o de riqueza no mundo, uma minoria muito minorit\u00e1ria rica, uma maioria muito maiorit\u00e1ria pobre e uma \u201cclasse m\u00e9dia\u201d quase insignificante\u2026<\/p>\n<p>Ah! J\u00e1 me esquecia de dizer algo sobre o verdadeiro Campeonato na Alemanha. Que posso dizer? Quanto aos nossos jogadores, que joguem e ganhem. Que acabem com entrevis-tas ocas e joguem futebol recheado. Que \u201ccomam a relva\u201d e prestigiem o pa\u00eds. Que corram e n\u00e3o se queixem dos \u201cmagros\u201d proventos. \u00c9 isto que eu quero. O resto dispenso.    <\/p>\n<p>Que, n\u00e3o sendo n\u00f3s a ganh\u00e1-lo (o nosso problema nunca s\u00e3o as equipas mais poderosas, mas Marrocos, Estados Unidos, Coreia, Gr\u00e9cia e, por isso, cuidado com o Ir\u00e3o, o M\u00e9xico e Angola\u2026), que ganhe o Brasil. Se n\u00e3o for o Brasil, que seja ent\u00e3o a p\u00e1tria do futebol-espect\u00e1culo e do \u201cfair play\u201d que \u00e9 a Inglaterra. N\u00e3o estando Portugal e o Brasil, tor\u00e7o sempre pela Inglaterra. Seja a selec\u00e7\u00e3o, sejam clubes! <\/p>\n<p>No fim, ficar\u00e1 o campe\u00e3o para ser lembrado e o resto para se esquecer na voragem do tempo que n\u00e3o espera. \u00c9 que, enquanto o sucesso \u00e9 um assunto p\u00fablico, o fracasso \u00e9 um funeral privado.<\/p>\n<p>O futebol j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um desporto. \u00c9 um neg\u00f3cio, uma feira de vaidades e de mentiras, um analg\u00e9sico servido de modo totalizante nas televis\u00f5es! Recordo-me do modo como se criticava um dos chamados \u201cF\u201d (futebol) do Estado Novo. Agora esse \u201cF\u201d foi alcandorado a des\u00edgnio nacional, tudo preenche e tudo condiciona. Mudam os tempos, refor\u00e7am-se os \u201cfuteb\u00f3is\u201d\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Devo come\u00e7ar por dizer que gosto muito de futebol. Por futebol, entenda-se o jogo, os golos, as vit\u00f3rias, as emo\u00e7\u00f5es. L\u00e1 dentro, nas quatro linhas. Com cor, movimento, alegria, tristeza, ansiedade. 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