{"id":7383,"date":"2006-06-14T15:42:00","date_gmt":"2006-06-14T15:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7383"},"modified":"2006-06-14T15:42:00","modified_gmt":"2006-06-14T15:42:00","slug":"terras-de-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/terras-de-preto\/","title":{"rendered":"&#8220;Terras de Preto&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Direitos Humanos <!--more--> Comecei esta minha reflex\u00e3o convosco com uma express\u00e3o que nos \u00e9 querida aqui no Brasil: \u201cTerras de Preto\u201d. Provavelmente muitos estranhar\u00e3o que destaque algo que em Portugal \u00e9 t\u00e3o politicamente incorrecto como a palavra \u201cpreto\u201d. Pois bem, \u201cTerras de Preto\u201d \u00e9 o nome dado \u00e0s comunidades negras rurais, remanescentes de antigos quilombos. Compreendem aqueles dom\u00ednios doados, entregues ou adquiridos com ou sem formaliza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, por fam\u00edlias de ex-escravos. H\u00e1 algum tempo partilhei convosco uma visita a duas comunidades quilombolas. No trabalho que a Comis-s\u00e3o Justi\u00e7a e Paz est\u00e1 a realizar com outras entidades de Direitos Huma-nos, coube-me visitar uma comunidade negra chamada Bom Sucesso. \u00c9 uma \u00e1rea tamb\u00e9m de \u201cTerras de Preto\u201d (usando a express\u00e3o que \u00e9 uma refer\u00eancia \u00e9tnica similar a comunidades quilombolas).<\/p>\n<p>Os descendentes destas fam\u00edlias de antigos escravos permanecem nestas terras h\u00e1 v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o \u00e9 caso isolado no Maranh\u00e3o, pois, no Estado onde vivo, foram identificadas cerca de quatrocentas situa\u00e7\u00f5es de territ\u00f3rios ocupados por negros, portadores de uma identidade \u00e9tnica que remonta \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Infelizmente, as terras quilombolas s\u00e3o disputadas incessantemente por grandes fazendeiros, madeireiros, empresas mineiras e grandes projetos nacionais e multinacionais. S\u00e3o constantes tamb\u00e9m, os conflitos entre quilombolas e inescrupulosos grileiros (pretensos donos de terras vizinhas que se apoderam indevidamente das \u00e1reas de fronteira dos quilombos) com ambi\u00e7\u00e3o de expulsar os verdadeiros donos destes territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>\u00c9 fascinante a cultura negra ou, como alguns antrop\u00f3logos lhe chamam, afro-brasileira. Da M\u00e3e \u00c1frica herdaram o ritmo, as dan\u00e7as, a alegria. Do contacto com ind\u00edgenas, a mitologia e o fasc\u00ednio pela natureza. Nas tradi\u00e7\u00f5es misturam-se a revolta pela escravid\u00e3o e a esperan\u00e7a do dia seguinte. Devem-se \u00e0s comunidades quilombolas a manuten\u00e7\u00e3o e o resgate de muitos usos e costumes tradicionais do Nordeste Brasileiro. <\/p>\n<p>S\u00e3o cheiros, sabores, m\u00fasicas, manufacturas e, principalmente, a cor. A vida numa comunidade quilombola \u00e9 colorida. N\u00e3o s\u00f3 pela cor da pele destes descendentes afro, como tamb\u00e9m pelo colorido das suas roupas, das suas dan\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Lembro que j\u00e1 partilhei num artigo anterior os rostos das crian\u00e7as negras. As suas esperan\u00e7as e alegrias. Agora, lembro os rostos do seu El\u00f3i (quase um s\u00e9culo de exist\u00eancia, com seu cabelo encarapinhado, completamente branquinho), da Dona Maria dos Anjos, 94 anos de mem\u00f3rias (algumas delas terr\u00edveis, de viol\u00eancia fundi\u00e1ria) ou do seu Agostinho, respons\u00e1vel pelo patrim\u00f3nio da comunidade.<\/p>\n<p>Todos eles, orgulhosamente herdeiros de hist\u00f3rias de luta e resist\u00eancia, pinceladas por relatos de viol\u00eancia, exclus\u00e3o e opress\u00f5es cometidas contra os seus antepassados. Ali\u00e1s, algumas hist\u00f3rias s\u00e3o t\u00e3o recentes (como tudo \u00e9 terrivelmente c\u00edclico!) que todos eles as podem contar na primeira pessoa. <\/p>\n<p>No Bom Sucesso, al\u00e9m das lutas contra as amea\u00e7as dos grandes projectos agr\u00edcolas de soja e eucalipto, o povo est\u00e1 tamb\u00e9m preocupado com a recupera\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es afro. <\/p>\n<p>Fui convidado a assistir a um \u201ctambor de crioula\u201d \u2013 \u201cdan\u00e7a inebriante ao som dos tambores, protagonizada apenas por mulheres, que fazem uma roda, em cujo centro evolui apenas uma delas. <\/p>\n<p>O que mais impressiona nessa tradi\u00e7\u00e3o recuperada \u00e9 que o resgate est\u00e1 sendo feito no feminino, como que a dar uma li\u00e7\u00e3o de dignidade sexual \u00e0 sociedade \u201cbrasileira branca\u201d, ainda profundamente machista. <\/p>\n<p>Do restante, vos darei ainda mais impress\u00f5es em pr\u00f3ximos artigos. Neste momento fica a minha felicidade por poder constatar in loco a esperan\u00e7a que se vive nestas comunidades. Como que a indicar que, assim, um outro mundo \u00e9 (realmente) poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direitos Humanos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-7383","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7383","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7383"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7383\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7383"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7383"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7383"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}