{"id":7430,"date":"2006-06-22T11:26:00","date_gmt":"2006-06-22T11:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7430"},"modified":"2006-06-22T11:26:00","modified_gmt":"2006-06-22T11:26:00","slug":"futebol-paixao-ou-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/futebol-paixao-ou-religiao\/","title":{"rendered":"Futebol: Paix\u00e3o ou Religi\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>1. Eduardo Galeano, no saboroso livro, \u201cFutebol ao Sol e \u00e0 Sombra\u201d, refere que um dia perguntaram \u00e0 te\u00f3loga alem\u00e3 Dorothee Solle, \u201c\u2013 Como a senhora explicaria a um menino o que \u00e9 a felicidade? \u2013 N\u00e3o explicaria \u2013 respondeu. \u2013 Daria uma bola para que jogasse\u201d. \u00c9 politicamente certo opinar que o futebol n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 assunto de homens. Claro est\u00e1 que esta cita\u00e7\u00e3o inicial, vai muito al\u00e9m disso, \u00e9 \u00f3bvio.<\/p>\n<p>2. Recentemente, li um artigo do jornalista Salvador Nogueira, que argumentava: \u201cAcho que o futebol \u00e9 especialmente incr\u00edvel, porque lembra a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica (&#8230;) \u00c9 minha opini\u00e3o que o futebol, embora respeite totalmente as regras da f\u00edsica \u201ccl\u00e1ssica\u201d, apresenta resultados em formato qu\u00e2ntico. Num jogo de basquete ou v\u00f3lei, sempre a equipa que joga melhor vence. Ou seja, trata-se de um jogo mais previs\u00edvel. A dificuldade natural de marcar golos, por alguma raz\u00e3o, torna o desporto bret\u00e3o diferente. A previsibilidade de uma partida de futebol \u00e9 limitad\u00edssima: mesmo depois de assistirmos ao primeiro tempo inteiro, podemos apenas falar de probabilidades &#8211; tal equipa \u00e9 favorita, tal equipa est\u00e1 jogando mais -, mas nunca dizer com certeza quem vai vencer (a n\u00e3o ser que o jogo termine 4 a 0 no primeiro tempo, e mesmo assim conv\u00e9m ficar com o p\u00e9 atr\u00e1s). \u00c9 essa m\u00e1gica \u201cqu\u00e2ntica\u201d o que d\u00e1 sabor ao futebol, permitindo que, vez por outra, David derrote Golias. <\/p>\n<p>(Minha vers\u00e3o final do artigo) \u00c9 o que motiva os adeptos de Angola, Ir\u00e3o, M\u00e9xico, e apavora (ainda que pouco) os portugueses. A despeito de todos os craques (Ricardo Car-valho, Cristiano, Figo, Deco, que me perdoem), Portugal ainda corre o risco de perder. Tomara que n\u00e3o. Mas a natureza do jogo n\u00e3o me incomoda. Ao contr\u00e1rio, anima-me: qual \u00e9 o valor de uma vit\u00f3ria se n\u00e3o h\u00e1 o perigo da derrota?\u201d. Sonho, desde que jogo e vejo futebol, numa final: Brasil-Portugal (no caso bastar\u00e1 meia-final). Desde que n\u00e3o seja poss\u00edvel insultar, com um palavr\u00e3o obsceno, em directo para milh\u00f5es de crian\u00e7as, a m\u00e3e de nenhum dos titulares. Pesadelo suave era a final, antes de n\u00f3s, Espanha e uma sele\u00e7\u00e3o \u201cemergente\u201d ou \u201cdetergente\u201d, mas n\u00e3o me \u00e9 permitido fazer apostas expl\u00edcitas.<\/p>\n<p>3. Imagino que um apaixonado religioso da \u201carte dos pobres\u201d, o futebol, conta-me a homilia solene e ungida, de um padre brasileiro, nestes termos. Houve uma final de campeonato em que o advers\u00e1rio ganhava de 1 X 0 e nada da equipa da casa conseguir empatar. O treinador (Deus) resolveu ent\u00e3o colocar em campo (na Terra) sua arma secreta: um grande avan\u00e7ado (Jesus). Ele entrou e \u201ccomeu a relva e a bola\u201d, empatou e virou o jogo, no derradeiro fim de tempo. A equipa da casa (Humanidade) conquistou o campeonato, e o avan\u00e7ado declarou que \u201co trof\u00e9u \u00e9 o meu corpo e o meu sangue para o alimento de todos\u201d. <\/p>\n<p>Como algu\u00e9m j\u00e1 profetizou, vamos todos, de derrota em derrota, at\u00e9 \u00e0 vit\u00f3ria final (ou vice versa!?). Melhor ainda: \u201cGanamos, perdimos, igual nos divertimos\u201d.<\/p>\n<p>4. Para quem n\u00e3o gosta. Considero de mau gosto e insuport\u00e1vel que se fa\u00e7a mais um coment\u00e1rio; que haja uma ins\u00edpida alus\u00e3o; at\u00e9 a possibilidade duma cr\u00edtica sequer. Sentenciam: basta de \u201cp\u00e3o e circo\u201d. Claro que o problema est\u00e1 na sua formaliza\u00e7\u00e3o unidimensional do contexto sociol\u00f3gico, ou porventura, nas suas ra\u00edzes antropol\u00f3gicas indispostas. A festa do belo, da vontade de poder e da religi\u00e3o pag\u00e3 (por excel\u00eancia e para heresia de muitos, ecum\u00e9nica), esta a\u00ed, para durar. Somos deuses, no campo, e semi-deuses, fora dele; nas bancadas ou olhos nos televisores. Voltamos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de simples mortais no fim do jogo. A vida \u00e9 apenas um jogo transcendental. O campo pode ser pelado.<\/p>\n<p>E para quem odeia futebol. \u00c9 bom esclarecer que esta \u201cpaix\u00e3o religiosa\u201d n\u00e3o se reduz a um grupo de pessoas correndo atr\u00e1s da bola. Apesar de reconhecer n\u00e3o ser f\u00e1cil explicar a um extraterrestre como funciona o \u201cfora-de-jogo\u201d. A prop\u00f3sito, n\u00e3o estar\u00e1 a\u00ed a m\u00e3o do demo, qual pecado origin\u00e1rio.<\/p>\n<p>E para a maioria esmagadora de n\u00f3s mortais. Porque ainda n\u00e3o estamos preparados para a aldeia global; apreciemos, agora, o futebol global. \u201cO mundo entre amigos\u201d, ora a\u00ed est\u00e1 o slogan perfeito, da paix\u00e3o e da religi\u00e3o, totalmente, aberto \u00e0 p\u00f3s-modernidade. O futebol \u00e9 uma paix\u00e3o. O futebol \u00e9 uma religi\u00e3o. Nem s\u00f3 de futebol vive a humanidade. S\u00f3 de quatro em quatro anos. Tamb\u00e9m aos fins-de-semana, no campeonato, e \u00e0s quartas-feiras, na liga dos campe\u00f5es. Est\u00e1 na altura de trocar os ex\u00e9rcitos por equipas para-militares. N\u00e3o seria dif\u00edcil, porque marcar\/sofrer um golo \u00e9 um facto, simultaneamente, s\u00e1dico\/masoquista.<\/p>\n<p>5. Fica aqui um excurso necess\u00e1rio. Na guerra dos patrocinadores, s\u00f3 menciono o material desportivo: em 1998 a Adidas ficou com o 1\u00ba lugar; a empresa rival a Nike, teve de aceitar o 2\u00ba e 4\u00ba lugares. A inesperada Lotto ganhou o 3\u00ba lugar. J\u00e1 em 2002, em termos de mercado, a Nike conquistou o 1\u00ba e o 4\u00ba lugares, e a Adidas obteve o 2\u00ba e o 3\u00ba. Algu\u00e9m dir\u00e1: que interesse tem isso? \u00c9 a paix\u00e3o e religi\u00e3o do futebol, no lado das trevas. <\/p>\n<p>Repare que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 equipamentos de sele\u00e7\u00e3o virgens e tradicionais. Tudo se joga nas cores da transmiss\u00e3o televisiva. Repare, se poss\u00edvel, no tempo que os jogadores demoram a amarrar, em pleno jogo, as chuteiras, ou trocam de chuteiras (?!) durante o jogo. Para mim, 2006, a surpresa pode vir da marca Puma, e mais n\u00e3o digo.<\/p>\n<p>6. Escrevo e penso o futebol, porque a paix\u00e3o indom\u00e1vel tem de ser racionalizada; e porque toda a racionaliza\u00e7\u00e3o apaixonada, deve abrir \u00e0 religi\u00e3o, jogo-aberto, para n\u00e3o ser est\u00e9ril. Indico na minha biografia: a participa\u00e7\u00e3o e inscri\u00e7\u00e3o na categoria de \u201cinfantil\u201d pelo R.D.A.(fica mesmo assim&#8230;); n\u00e3o faltava aos treinos, por isso, fui convocado para o \u00faltimo jogo, como suplente. \u00c9 para mim inesquec\u00edvel a entrada em campo, e o sabor da vit\u00f3ria no balne\u00e1rio. Depois, foi a paix\u00e3o seminar\u00edstica, vivida a 100%, com direito a medalha e a integrar a sele\u00e7\u00e3o de honra, at\u00e9 terminar tudo, prematuramente, em opera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, dois em um, menisco e ruptura de ligamentos. <\/p>\n<p>Tenho o futebol na alma e no corpo, isto \u00e9, paix\u00e3o e religi\u00e3o (n\u00e3o praticante no caso!?). Aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o mudo os hor\u00e1rios das missas, planejo, antes, arduamente a pastoral do conjunto (minha e dos advers\u00e1rios&#8230;).<\/p>\n<p>Chapadinha, 13 Junho de 2006<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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