{"id":7478,"date":"2006-06-29T15:26:00","date_gmt":"2006-06-29T15:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7478"},"modified":"2006-06-29T15:26:00","modified_gmt":"2006-06-29T15:26:00","slug":"o-enigma-das-pinturas-dos-cadeirais-da-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-enigma-das-pinturas-dos-cadeirais-da-se\/","title":{"rendered":"O enigma das pinturas dos cadeirais da S\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Investigador luso-canadiano defendeu a autoria francesa das pinturas da S\u00e9 de Aveiro. Monsenhor Jo\u00e3o Gaspar levantou fortes objec\u00e7\u00f5es a tal hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>Pierre Antoine-Quillard \u00e9 ou n\u00e3o o autor das pinturas do cadeiral da S\u00e9? At\u00e9 ao fim da tarde da passada quinta-feira, Lu\u00eds de Moura Sobral estava convencido de que a hip\u00f3tese que vem investigando desde finais da d\u00e9cada de 1990 e j\u00e1 apresentou em Paris, Lisboa e Montreal estava correcta. Por\u00e9m, no final dessa confer\u00eancia, no Museu de Aveiro, Monsenhor Jo\u00e3o Gaspar apresentou um texto e alertou para um pormenor das pinturas que p\u00f5em em causa a autoria do pintor franc\u00eas.<\/p>\n<p>Vamos por partes. Lu\u00eds de Moura Sobral \u00e9 especialista em Arte Barroca. Natural de Viseu, ensina na Faculdade de Artes e Ci\u00eancias de Montreal (Canad\u00e1), tem extensa obra publicada, \u00e9 membro da Academia Nacional de Belas-Artes e recebeu, em 2001, a Ordem do Infante D. Henrique, devido ao seu trabalho de estudo e divulga\u00e7\u00e3o da arte portuguesa. No Museu de Aveiro, apresentou e desenvolveu a tese: o pintor barroco franc\u00eas Pierre Antoine-Quillard, nascido em Paris em 1701 ou 1704 (e que viria a morrer em Lisboa em 1733) \u00e9 o autor das pinturas at\u00e9 agora de autoria desconhecida do cadeiral da S\u00e9, antigo convento masculino de S. Domingos.<\/p>\n<p>Pierre Antoine-Quillard, apesar de secund\u00e1rio na Hist\u00f3ria da Pintura, n\u00e3o \u00e9 um nome irrelevante. Disc\u00edpulo (ou pelo menos imitador) de Watteau, pintor que ficou conhecido pelas \u201cf\u00eates gallantes\u201d (g\u00e9nero da pintura barroca em que se representam festas, piqueniques ou bailes da classe alta \u00e0 sombra de \u00e1rvores frondosas), veio para Portugal em 1726, acompanhando um bot\u00e2nico su\u00ed\u00e7o. De imediato, foi feito pintor da corte de D. Jo\u00e3o V, o mesmo que mandou erguer o Convento de Mafra. Nesse convento, a par com quadros de Andr\u00e9 Gon\u00e7alves, In\u00e1cio de Oliveira Bernardes e Francisco Vieira de Matos (\u201cVieira Lusitano\u201d), h\u00e1 obras de Pierre Antoine-Quillard. Outra tela deste autor, provavelmente a mais conhecida em Portugal, \u00e9 o retrato equestre do Duque de Cadaval, \u00fanico do g\u00e9nero em Portugal, segundo o investigador luso-canadiano.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Moura Sobral, conhecedor do barroco aveirense (diz que, quando apresenta a uma plateia internacional o interior da Igreja de Jesus do Convento de Aveiro, os ouvintes ficam abismados com a sua beleza), intrigou-se com a autoria das pinturas do cadeiral da S\u00e9 (\u201ccom t\u00e3o elevada qualidade, o autor n\u00e3o deve ser portugu\u00eas\u201d) e notou semelhan\u00e7as entre os rostos das figuras representadas nessas 12 telas e os das obras que est\u00e3o no Convento de Mafra. O investigador apresentou imagens: o rosto de um anjo \u00e9 semelhante ao de um anjo de outra pintura. O mesmo se passa com o rosto de uma mulher e o do Papa Pio V. Perante essas semelhan\u00e7as, considerou evidente que o autor era o pintor franc\u00eas. A seguir, procurou explicar como poderiam estar em Aveiro pinturas de algu\u00e9m que chegou a Portugal em 1726 e morreu em 1733, em Lisboa.<\/p>\n<p>Sem entrarmos no intrincado da sucess\u00e3o da Casa de Aveiro, fundada por D. Jorge (1481-1550), filho ileg\u00edtimo de D. Jo\u00e3o II e sobrinho de S.ta Joana, detenhamo-nos no s\u00e9timo duque de Aveiro. D. Gabriel de Lencastre viveu entre 1677 e 1745 e foi sepultado na antiga capela do actual Museu de Aveiro, ao lado da sua tia, S.ta Joana. O duque, que tamb\u00e9m foi Provedor da Miseric\u00f3rdia de Aveiro, entrou solenemente na Corte de D. Jo\u00e3o V, na d\u00e9cada de 30 do s\u00e9c. XVIII. A\u00ed ter\u00e1 conhecido Pierre Antoine-Quillard. A prova que aponta para esse conhecimento est\u00e1 no invent\u00e1rio que se fez do esp\u00f3lio dos duques de Aveiro, em 1759, a quando da extin\u00e7\u00e3o da Casa Ducal (devido \u00e0 tentativa de atentado dos duques de Aveiro contra D. Jos\u00e9). Na lista s\u00e3o referidos quatro quadros de Pierre Antoine-Quillard, representando as quatro esta\u00e7\u00f5es, que hoje fazem parte da famosa colec\u00e7\u00e3o Carmen Thyssen, de Madrid.<\/p>\n<p>D. Gabriel de Lencastre, querendo dotar o convento de S. Domingos de pinturas de membros c\u00e9lebres da ordem dos pregadores (entre os quais S. Domingos de Gusm\u00e3o, o fundador, S. Tom\u00e1s, o te\u00f3logo, S.ta Joana de Aveiro e S. Gon\u00e7alo de Amarante \u2013 ver texto ao lado), teria encomendado tais quadros ao pintor franc\u00eas.<\/p>\n<p>A argumenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o totalmen-te explanada neste texto, parecia coerente e fundamentada. No entanto, no per\u00edodo de perguntas e coment\u00e1rios, Mons. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar, historiador, apresentou duas objec\u00e7\u00f5es. Primeira: como explicar a passagem de Frei Lucas de Santa Catarina, na obra \u201cHist\u00f3ria de S. Domingos\u201d, de 1708, que j\u00e1 refere as pinturas do cadeiral e as atribui a um \u201cpincel romano\u201d (ou seja, a um autor italiano)? Segunda: Se elas fossem da d\u00e9cada de 30 do s\u00e9c. XVIII, como explicar a legenda \u201cB. Pius V\u201d (Beatus, Beato Pio V) num dos quadros, quando este foi canonizado em 1712? Se a pintura fosse posterior a essa data, deveria l\u00e1 estar \u201cS. Pius V\u201d?&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Moura Sobral, que desconhecia o escrito de Frei Lucas, considerou as objec\u00e7\u00f5es consistentes e prometeu \u201cver o que se passa\u201d. Frei Lucas referia-se ao mesmo cadeiral e \u00e0s mesmas pinturas? E como explicar a legenda errada na imagem de Pio V, se se mantiver a autoria de Pierre Antoine-Quillard? Lu\u00eds de Moura Sobral ter\u00e1 de responder a estas considera\u00e7\u00f5es ou abandonar a sua tese. \u00c9 caso para dizer: a investiga\u00e7\u00e3o ainda vai no adro.<\/p>\n<p>Quem s\u00e3o as figuras dos quadros?<\/p>\n<p>Nem todas as imagens da S\u00e9 t\u00eam legendas, no entanto, a identifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 feita e n\u00e3o persistem grandes d\u00favidas sobre quem s\u00e3o aqueles santos e santas. S\u00e3o homens e mulheres ligados \u00e0 Ordem de S. Domingos. Os santorais (s\u00e9rie de santos) foram muito comuns ap\u00f3s o Conc\u00edlio de Trento (1545-63), que, em oposi\u00e7\u00e3o ao protestantismo, incentivou o culto dos santos. \u201cEra habitual que cada ordem representasse os seus santos, os her\u00f3is da casa\u201d, diz Lu\u00eds de Moura Sobral. \u201cDominicanos, jesu\u00edtas, franciscanos, todos fizeram isso\u201d.<\/p>\n<p>Na S\u00e9 est\u00e3o representados 14 homens e 8 mulheres. No topo do cadeiral da esquerda est\u00e1 S. Domingos, o fundador. No cadeiral direito est\u00e1 S. Tom\u00e1s de Aquino, o grande te\u00f3logo. L\u00facia Narni, Luzia, In\u00eas de Montepulciano e Catarina de Sena, do lado esquerdo, e Joana de Aveiro, Rosa Limana, Margarida do Castelo e Margarida de Sab\u00f3ia, do lado direito, s\u00e3o as mulheres representadas.<\/p>\n<p>Segundo o investigador, as pinturas tinham uma fun\u00e7\u00e3o de propaganda para a ordem religiosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Investigador luso-canadiano defendeu a autoria francesa das pinturas da S\u00e9 de Aveiro. Monsenhor Jo\u00e3o Gaspar levantou fortes objec\u00e7\u00f5es a tal hip\u00f3tese. Pierre Antoine-Quillard \u00e9 ou n\u00e3o o autor das pinturas do cadeiral da S\u00e9? 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