{"id":7493,"date":"2006-06-29T16:26:00","date_gmt":"2006-06-29T16:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7493"},"modified":"2006-06-29T16:26:00","modified_gmt":"2006-06-29T16:26:00","slug":"o-meu-fascinio-e-com-a-pessoa-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-meu-fascinio-e-com-a-pessoa-de-jesus\/","title":{"rendered":"&#8220;O meu fasc\u00ednio \u00e9 com a pessoa de Jesus&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Marujo, do P\u00fablico, recebe no dia 6 de Julho o pr\u00e9mio europeu de \u201cjornalista religioso do ano\u201d. A cerim\u00f3nia decorrer\u00e1 na Catedral da Igreja Lusitana (Anglicana), no Largo de Santos-o-Velho, em Lisboa. \u00c9 a segunda vez que o jornalista com origens em Aveiro recebe o pr\u00e9mio.<\/p>\n<p>Habituado a fazer as perguntas, desta vez responde ao Correio do Vouga.<\/p>\n<p>Correio do Vouga &#8211; A justifica\u00e7\u00e3o do j\u00fari do pr\u00e9mio diz que os seus textos \u201cs\u00e3o aut\u00eantica escrita sobre religi\u00e3o e n\u00e3o escrita sobre a Igreja (\u2026). Feitos por algu\u00e9m que n\u00e3o est\u00e1 fascinado com a Igreja, mas com algo mais profundo que \u00e9 o mist\u00e9rio da pr\u00f3pria religi\u00e3o\u201d. \u00c9 o \u201cmist\u00e9rio da religi\u00e3o\u201d que o fascina?<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Marujo. \u2013 O j\u00fari entendeu bem as motiva\u00e7\u00f5es profundas que me levam a fazer este trabalho: n\u00e3o tanto por parecer colocar em alternativa a Igreja e a religi\u00e3o, mas por perceber que o que me move \u00e9 a tentativa de perscrutar o mist\u00e9rio da humanidade e da transcend\u00eancia \u2013 que s\u00e3o uma e a mesma coisa, pois quanto mais humanos somos, mais nos transcendemos. <\/p>\n<p>A esse mist\u00e9rio, os crentes d\u00e3o o nome de Deus. E \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com Deus d\u00e1-se o nome de religi\u00e3o, traduzindo essa vontade de ligar dimens\u00f5es aparentemente distantes. Por isso, posso dizer que realmente me fascina o mist\u00e9rio do religioso que mulheres e homens vivem, mesmo se essa dimens\u00e3o est\u00e1 muitas vezes escondida. <\/p>\n<p>Hoje, ali\u00e1s, atravessamos um tempo em que muita gente vive a rela\u00e7\u00e3o com Deus para l\u00e1 das institui\u00e7\u00f5es religiosas. Mesmo no interior do catolicismo, as formas de rela\u00e7\u00e3o com a Igreja s\u00e3o cada vez mais diversificadas. O que traduz, entre outras coisas, a vontade de se ligar \u00e0 dimens\u00e3o profunda de Deus que cada pessoa sente que transporta consigo, mesmo se isso significa exprimir essa rela\u00e7\u00e3o com Deus com express\u00f5es por vezes diferentes do resto da comunidade. <\/p>\n<p>Fascina-o a religi\u00e3o em si ou o cristianismo, visto que os seus livros (\u201cUm Papa (In)esperado\u201d, \u201cIgreja e democracia\u201d e \u201cVidas de Deus na Terra dos Homens\u201d) se inserem todos no catolicismo?<\/p>\n<p>Dentro do mist\u00e9rio dessa rela\u00e7\u00e3o da humanidade com Deus, o meu fasc\u00ednio \u00e9 com a pessoa de Jesus. Quer pela pessoa hist\u00f3rica e concreta na sua rela\u00e7\u00e3o \u00edntima e profunda com Deus, quer pelo mist\u00e9rio que ele nos prop\u00f5e e que n\u00f3s nunca chegamos a entender na sua plenitude, por mais que tentemos. Limitamo-nos a perscrutar aquela que \u00e9 a vida mais fascinante da hist\u00f3ria, porque \u00e9 o pr\u00f3prio Deus que se faz pessoa connosco e no meio de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Por isso, em rela\u00e7\u00e3o a Jesus, prefiro falar de f\u00e9, em vez de falar de religi\u00e3o. O te\u00f3logo Stanislas Breton escreve que a f\u00e9 deve assumir-se como uma inst\u00e2ncia cr\u00edtica da religi\u00e3o. A religi\u00e3o, sendo uma constru\u00e7\u00e3o humana, permite-nos um modo de celebrar. Mas a f\u00e9, enquanto ades\u00e3o pessoal a Jesus, deve ser cr\u00edtica mesmo dessas formas e manifesta\u00e7\u00f5es humanas de celebrar a rela\u00e7\u00e3o com Deus, tantas vezes imperfeitas ou a tocar a dimens\u00e3o da magia ou da supersti\u00e7\u00e3o, em vez de se constitu\u00edrem como acto de liberdade plena e de busca da felicidade para si mesmo e para os outros. <\/p>\n<p>Se recordarmos o que fez o pr\u00f3prio Jesus, ele teve uma atitude muito cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a algumas das express\u00f5es religiosas do seu tempo. Por isso, a f\u00e9 em Jesus Cristo deve levar cada pessoa, cada institui\u00e7\u00e3o, cada comunidade, a p\u00f4r-se em causa permanentemente.<\/p>\n<p>Escreveu, no livro sobre Bento XVI, que Ratzinger n\u00e3o era a sua op\u00e7\u00e3o. No entanto, sente-se surpreendido com a ac\u00e7\u00e3o do primeiro ano de pontificado\u2026<\/p>\n<p>As duas coisas n\u00e3o se anulam: Joseph Ratzinger n\u00e3o era a minha op\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o impede que esteja surpreendido com alguns aspectos da ac\u00e7\u00e3o de Bento XVI. <\/p>\n<p>Eram duas as raz\u00f5es principais para n\u00e3o ser o cardeal Ratzinger a minha op\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 a mais importante: \u00e0 semelhan\u00e7a do que aconteceu em 1978, quando os cardeais surpreenderam e elegeram um polaco, que viria a ser Jo\u00e3o Paulo II, tinha chegado agora o momento de olhar para a Am\u00e9rica Latina. Vivem ali, actualmente, metade dos mil milh\u00f5es de cat\u00f3licos do mundo inteiro e a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica \u00e9 ainda grave para milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, actualmente, predomina no catolicismo latino-americano uma atitude defensiva perante a sociedade e uma forma de entender a evangeliza\u00e7\u00e3o como um combate e uma cruzada. Foi pena ter sido marginalizada a perspectiva do cristianismo como uma proposta de vida alternativa e libertadora perante tantas injusti\u00e7as. Mas, entre os cardeais latino-americanos, havia tamb\u00e9m personalidades moderadas e com bom senso, com capacidades para o lugar.<\/p>\n<p>E havia outra raz\u00e3o?<\/p>\n<p>Sim, que tem a ver com o cargo desempenhado pelo cardeal Ratzinger: como prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, ele castigou, como se costuma dizer, muitos te\u00f3logos e te\u00f3logas que propunham reflex\u00f5es que desalinham da doutrina oficial. Tive oportunidade de entrevistar, enquanto jornalista, algumas dessas pessoas, que sofreram muito com esses processos. <\/p>\n<p>Ora, a proposta do evangelho n\u00e3o deveria permitir que, em nome da doutrina, se infligisse sofrimento a pessoas cuja grande paix\u00e3o \u00e9 esse mesmo evangelho. Isso n\u00e3o invalida que se reconhe\u00e7a que Joseph Ratzinger \u00e9, enquanto te\u00f3logo, um nome tamb\u00e9m fundamental e incontorn\u00e1vel no catolicismo das \u00faltimas d\u00e9cadas. <\/p>\n<p>Podemos esperar surpresas de Bento XVI?<\/p>\n<p>J\u00e1 houve algumas decis\u00f5es do Papa Bento que me surpreenderam positivamente: o que se refere a uma muito maior conten\u00e7\u00e3o nos processos de canoniza\u00e7\u00e3o, por exem-plo. Mas tamb\u00e9m tenho receios sobre o que se pretende com a aproxima\u00e7\u00e3o aos lefebvrianos. Um grupo que recusa a heran\u00e7a do Conc\u00edlio Vaticano II n\u00e3o pode vir dizer que est\u00e1 em comunh\u00e3o com um Papa que diz que tem como prioridade a aplica\u00e7\u00e3o dessa mesma heran\u00e7a. S\u00f3 o futuro e a dura\u00e7\u00e3o do pontificado poder\u00e3o indicar que outras surpresas este Papa trar\u00e1.<\/p>\n<p>Um jornalista que escreve sobre assuntos religiosos \u00e9 um jornalista religioso ou de religi\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9, antes de mais, um jornalista. Ou seja, algu\u00e9m que conta hist\u00f3rias, que se assume mediador entre o que v\u00ea e o leitor, ouvinte ou espectador. S\u00f3 depois \u00e9 um jornalista que trata assuntos religiosos, como outros tratam assuntos de pol\u00edtica, de sa\u00fade ou de desporto. <\/p>\n<p>N\u00e3o nego que, para fazer este trabalho, \u00e9 importante ter alguma empatia com o fen\u00f3meno religioso. Mas sei de jornalistas que acompanharam ou acompanham o notici\u00e1rio religioso e que n\u00e3o s\u00e3o crentes ou n\u00e3o s\u00e3o, pelo menos, \u201cpraticantes\u201d confessos. <\/p>\n<p>Para mim, o fundamental \u00e9 que nunca me vejo a ser ora jornalista, ora crente \u2013 eu sou eu, inteiro, em cada momento. Nunca me sinto em colis\u00e3o interior, ao aplicar regras deontol\u00f3gicas e \u00e9ticas da minha profiss\u00e3o, porque elas coincidem, no essencial, com atitudes importantes do meu modo de entender o cristianismo. E o contr\u00e1rio, logicamente, tamb\u00e9m \u00e9 verdade. <\/p>\n<p>Como \u00e9 ser jornalista de assuntos religiosos em Portugal? \u00c9 dif\u00edcil? H\u00e1 interesse pela informa\u00e7\u00e3o religiosa? As fontes s\u00e3o acess\u00edveis?<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas dificuldades, fruto da ignor\u00e2ncia m\u00fatua que, apesar de algumas melhorias, permanece entre os dois mundos: a Igreja Cat\u00f3lica e as comunidades religiosas em geral n\u00e3o conhecem as regras e o modo de funcionamento da comunica\u00e7\u00e3o social. E muitos jornalistas n\u00e3o entendem o fen\u00f3meno religioso na sua profundidade. <\/p>\n<p>Diria que h\u00e1 interesse pela informa\u00e7\u00e3o religiosa, da parte de muita gente. Pelo menos, os ecos que recebo \u00e9 isso que afirmam, valorizando o trabalho que \u00e9 feito no \u201cP\u00fablico\u201d, por compara\u00e7\u00e3o com a aus\u00eancia quase generalizada na maior parte dos meios de comunica\u00e7\u00e3o laicos. <\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, duas d\u00e9cadas depois de ter come\u00e7ado a fazer este trabalho, imaginava que j\u00e1 se tivessem quebrado mais barreiras: sinto que a mentalidade de muitos respons\u00e1veis cat\u00f3licos ainda \u00e9 de medo, inseguran\u00e7a e desconhecimento perante a comunica\u00e7\u00e3o social e as novas tecnologias. Mesmo quando multiplicam declara\u00e7\u00f5es piedosas sobre as virtudes da comunica\u00e7\u00e3o social, isso n\u00e3o se traduz na abertura aos jornalistas, numa rela\u00e7\u00e3o honesta, aberta e frontal com esses profissionais. <\/p>\n<p>Diria que, se h\u00e1 responsabilidades dos jornalistas, no sentido de se aproximarem da Igreja e do fen\u00f3meno religioso, o primeiro passo cabe aos respons\u00e1veis das comunidades religiosas. Porque, da minha experi\u00eancia, concluo que, na maior parte dos casos, h\u00e1 abertura suficiente no jornalismo para acolher o notici\u00e1rio religioso, quando ele \u00e9 bem apresentado e h\u00e1 abertura das comunidades religiosas.<\/p>\n<p>\u00c9 dos poucos jornalistas dedicado ao assunto religi\u00e3o. Como explica que num pa\u00eds maioritariamente cat\u00f3lico, a religi\u00e3o s\u00f3 tenha relevo noticioso nas grandes manifesta\u00e7\u00f5es populares (como o 13 de Maio) e n\u00e3o haja uma publica\u00e7\u00e3o escrita de tem\u00e1tica religiosa, de \u00e2mbito nacional \u2013 como acontece em quase todos os pa\u00edses europeus?<\/p>\n<p>H\u00e1 um problema geral: o pa\u00eds n\u00e3o l\u00ea, nem jornais nem livros. Lemos muito pouco, estamos na cauda da Europa. H\u00e1 uns anos, a taxa de circula\u00e7\u00e3o de jornais em Portugal n\u00e3o chegava aos 50 por mil habitantes. Por compara\u00e7\u00e3o, a Espanha estava nos 100 por mil, e a Finl\u00e2ndia e a Su\u00e9cia nos 500 jornais por mil habitantes. N\u00e3o conhe\u00e7o n\u00fameros recentes, mas eles devem ter melhorado muito em Espanha, ao contr\u00e1rio do que acontece entre n\u00f3s. <\/p>\n<p>Se o pa\u00eds n\u00e3o l\u00ea, as elites tamb\u00e9m n\u00e3o: pergunto-me quantos padres l\u00eaem um jornal di\u00e1rio. Ou quantos m\u00e9dicos, quantos professores, quantos economistas ou empres\u00e1rios. Se n\u00e3o se l\u00ea, torna-se dif\u00edcil sustentar uma publica\u00e7\u00e3o escrita. <\/p>\n<p>H\u00e1 um outro problema: muitas pessoas na Igreja falam dessa necessidade revelando que, no fundo, querem um jornal para defender a Igreja dos \u201cataques\u201d que lhe seriam dirigidos. Ora, a existir uma publica\u00e7\u00e3o dessas, ela deveria ser, antes de mais, um projecto profissional. Se ela for assumida numa l\u00f3gica de defesa institucional, n\u00e3o se far\u00e1 jornalismo e, portanto, essa eventual publica\u00e7\u00e3o interessar\u00e1 a muito poucos \u2013 ou seja, repetir\u00e1 o erro b\u00e1sico da maior parte das publica\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas que actualmente existem. Mas, infelizmente, \u00e0 semelhan\u00e7a de outros, este \u00e9 um tema para cujo debate n\u00e3o s\u00e3o chamadas algumas pessoas que t\u00eam coisas para dizer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Marujo, do P\u00fablico, recebe no dia 6 de Julho o pr\u00e9mio europeu de \u201cjornalista religioso do ano\u201d. A cerim\u00f3nia decorrer\u00e1 na Catedral da Igreja Lusitana (Anglicana), no Largo de Santos-o-Velho, em Lisboa. \u00c9 a segunda vez que o jornalista com origens em Aveiro recebe o pr\u00e9mio. 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